Este é o meu filho

Enquanto eu fazia o jantar, o Tiago entrou pela cozinha adentro com um molho de folhas. “Olha: papéis!”, anunciou.

Começou então a mostrar-me vários desenhos que tinha feito. Quase todos simples riscos coloridos, sem formas discerní­veis.

Nada de bonecos, animais, casas, árvores ou sóis. É, aliás, rarí­ssimo ver este tipo de figuras nos desenhos dele, normalmente, cobre completamente a folha de preto.

Curioso, decidi perguntar do que se tratavam os desenhos.

A resposta veio sem hesitação: “São cérebros!”

Aos quatro anos e meio, o meu filho, em vez de casinhas, o pai e a mãe, os gatos ou um sol sorridente, desenha cérebros.

Best. Kid. Ever.

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Motivações

Hoje, antes de lavar as mãos na casa de banho, abraçou-se í s minhas pernas e disse: “sabes uma coisa, pai? Eu adoro-te”. Respondi-lhe que também o adorava, ao que acrescentou “e cada vez te adoro mais, quando fazes coisas que eu gosto, adoro-te ainda mais”.

Não resisti a perguntar-lhe que coisas é que eu fazia que ele gostava, imaginando, talvez, que pudesse ser comprar brinquedos ou algo desse tipo, mas para provar que  não tinha quaisquer interesses materiais, sem pensar muito respondeu: “coisas que tu fazes, como por exemplo, caretas, gosto de caretas!”.

Fiz-lhe uma careta e ele riu-se e deu-me um abraço.

 

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Actualizações

As coisas não andam fáceis, para o lado do bloguismo. Não é que não queira escrever, bem pelo contrário, tenho muita coisa para escrever aqui e muita, também, para escrever noutro lado (até o template é default… enfim…)

Preciso de actualizar o próprio Macacos, com ideias que nunca pus em prática, de reorganizar as categorias e estabelecer uma navegação mais amigável para as toneladas de conteúdo que já aqui tenho.

Mas dizer que “não tenho tempo”, é uma tentativa de concentrar num só cliché uma série de questões interligadas que incluem a tal falta de tempo, mas não se resumem a esta.

Tenho parado cerca de quatro ou cinco horas por dia para dormir e pouco mais. Nos fins de semana em que os meus pais ficam com os miúdos (dádiva impagável), tento descansar mais um bocadinho, mas é raro, porque geralmente arranjo sempre qualquer coisa para fazer.

Além do trabalho, que ultimamente tem voltado a extravasar para o fim de semana, há outros projectos que, í  beira da conclusão, exigem o esforço extra e depois, claro, tudo o resto, normal, para quem tem uma casa, miúdos, coisas para tratar.

Nada que seja o fim do mundo, mas ando cansado e no fim, vão sofrendo aquelas coisas que se adiam para fazer naquele bocadinho que nunca existe.

Por exemplo, hoje de manhã, o despertador tocou í s 7:20, desliguei-o mas tocou imediatamente a seguir. Fiquei confuso, porque sabia que o próximo alarme, de segurança, era í s 7:45.

E era, de facto. Mas entre as 7:20 e as 7:45, sou completamente incapaz de me lembrar da minha existência. Esses 25 minutos desapareceram e só depois de algum tempo a pé, a olhar-me ao espelho com ar incrédulo, é que percebi que tive um blackout completo entre o primeiro e o segundo alarme.

Pelo trabalho estamos em frenética fase de Codebits (btw, já fizeram o vosso bot?) e depois de ter estado duas semanas com uma equipa de cinco pessoas reduzida a duas (sendo eu uma delas), digamos que os meus post-its já me tapam o ecrã inteiro…

Em casa, a novidade mais significativa foi a entrada da Joana para a creche. À beira dos 14 meses, juntou-se ao Tiago, na mesma escola e adaptou-se razoavelmente bem, com algum choro í  chegada, mas já com um apego que se vai fazendo notar, pela educadora.

Tem comido bem, dormido a sesta, brincado e dançado com os outros miúdos. De facto, nesta fase, já só lhe falta andar; ou melhor, andar já ela anda, de mão dada, mas falta-lhe a confiança para andar sozinha, dando apenas dois ou três passinhos de vez em quando.

Continua divertidí­ssima, sempre a sorrir e a desfazer-se em gargalhadas í  mí­nima brincadeira. Solta grandes olás quando vê alguém e começa a articular razoavelmente bem outras palavras, como água, mais, dá ou adeus. Razoavelmente bem, claro, para nós, que a percebemos, já que adeus é, por exemplo “ada”. Depois, de vez em quando, imita uma palavra na perfeição, como, recentemente, “papel”, mas não volta a repetir.

O Tiago mantém-se fully verbose com discursos cada vez mais imaginativos, sempre fiéis aos seus temas favoritos: robots, naves, lasers, canhões e minas, zombies, ninjas, monstros e super-poderes.

Embora ainda brinque muito connosco, já tem grandes perí­odos em que prefere fechar-se no quarto de onde se ouvem efeitos sonoros e diálogos complicadí­ssimos entre personagens que inventa com a sua panóplia de brinquedos.

Recentemente, começou aulas de Judo na escola, para explorar a sua motricidade implacável. Conto, daqui a mais dois ou três anos, poder levá-lo comigo para o Gongfu e parece-me que o Judo é uma excelente porta de entrada para ele aprender a mexer nos outros, ser mexido, cair e levantar-se e aprender a aplicar a energia de forma saudável, com um bocadinho de competição í  mistura.

Enfim, este post demorou 20 vezes mais tempo a escrever do que demorará a ler, mostrando que, de facto, isto não está fácil. Sei que devo uma série de posts aos leitores mais assí­duos, nomeadamente, um sobre o ASX ou mais detalhes sobre nutrição e exercí­cio, mas, não se podendo ter tudo, fica este registo e a promessa de que farei os possí­veis para voltar ao teclado com brevidade.

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Para a troca

O Tiago fala muito bem. Tem um vocabulário extenso, esforça-se por pronunciar bem as letras que lhe causam maior dificuldade como os “r” e tenta dizer ‘pResente” em vez de “p’zente”, por exemplo.

Já diz coisas em inglês (í s vezes, inventado), e já tem extensas e complexas conversas sobre coisas completamente imaginárias, que descreve com detalhe e fala de robots, naves e zombies, mí­sseis e missões secretas, com paixão e entusiasmo. Também tem fases de se rir que nem um perdido com coisas como sanitas, xixi ou ranho, claro.

Mas, no meio de tudo isto há uma palavra simples que não consegue pronunciar e desde que começou algumas cadernetas que não consigo deixar de me rir, sempre que me mostra os seus novos cuómeros.

Claro que o singular de cuómeros é cuómere, reparem na terminação, é importante. Granda cuómere.

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Numeração alternativa

O Tiago, na brincadeira no terraço com um par de binóculos de plástico, finge pescar peixes podres e vai contanto enquanto puxa a linha:

“Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, treze, catorze, dezasseis, dezassete, dezaoito, dezanove, deza… ahum… euh… quarenta!”

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