Os miúdos lidam melhor com tudo

Depois da morte da Michelle ter levado a uma conversa sobre a morte, em que eu expliquei o que tinha acontecido í  Michelle e depois a Dee explicou o que aconteceu depois, o Tiago aceitou bem a coisa.

Ao fim do dia, estava eu a escrever um mail de trabalho e ele veio interromper-me, cuidadosamente, para me expor a sua decisão, concluí­da das explicações que a mãe lhe deu de manhã:

“Sabes pai, algumas pessoas quando morrem, passam a fazer parte da terra. Eu quero fazer parte dos insectos. Quero ser uma borboleta, mas uma borboleta colorida, que voe de verdade. Quero mesmo!”

Daquilo que a maior parte das pessoas tem medo, o meu filho pintou um quadro que o fez feliz, com um enorme sorriso. Grande Tiago.

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Fí­sica 101

A Joana ameaçava atirar a sopa toda ao chão e a mãe fazia-lhe ver esse quase inevitável facto. Eu disse-lhe: “é o problema da gravidade. Quem te pode explicar isso é o Tiago, que já sabe.”

Depois virei-me para o Tiago e disse: “Não é filho? Podes explicar í  tua irmã como funciona a gravidade?”

E ele, como é evidente. Respondeu-me com outra pergunta: “onde?”

E embora gravidade funcione da mesma maneira em todo o lado, o facto dele perceber que a gravidade varia de sí­tio para sí­tio e responder com aquela pergunta foi o suficiente para me deixar calado. Já não falta muito para o miúdo perceber mais de fí­sica do que o pai.

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Tiago & Joana 2012

Não tenho escrito muito, porque não tenho muito tempo para escrever. Mas í  medida que o blog caminha a passos largos para o seu décimo terceiro aniversário, não tenho qualquer intenção de parar.

Até porque há muito para deixar escrito, sobretudo coisas que quero que os meus filhos possam ler quando quiserem – se quiserem.

E assim, fica um resumo do status quo, as it were.

O Tiago está a menos de uma semana de completar cinco anos. Está a caminho do metro e vinte de altura e possui uma energia praticamente inesgotável. Foi graças a ela que, na sexta-feira passada, abriu o sobrolho direito na bancada de granito da nossa cozinha.

Ainda tem um penso, mas prevê-se que fique com uma cicatriz. Nesse fim de semana também o vi jogar futebol pela primeira vez, já que, nos últimos quase cinco anos, demonstrou pouco ou nenhum interesse por bolas. Prefere, ainda assim, Lego, o seu brinquedo de eleição dos últimos meses.

Os avós começaram a comprar-lhe Lego e o entusiasmo dele foi tal que praticamente todas as prendas de aniversário que temos para ele são Lego. Acima de tudo, gosta de brinquedos que possa montar e desmontar e é grande adepto de seguir instruções para obter um resultado.

Tem um discurso complexo e cheio de “portantos” e “directamentes” e “imediatamentes”.

Para minha angústia, anda preocupado com a morte. Pergunta-me se todos ficamos velhos e se depois, todos morremos. Desata a chorar, com lágrimas a correr-lhe pela cara abaixo, “pai, eu não gosto nada de morrer”. E eu ali a tentar ser o adulto que explica as coisas de forma simples, racional, sem fantasias, mas também sem o assustar. É difí­cil.

A ferida ficou bem feia, ali ao lado do olho direito, vamos ver se deixa cicatriz...

Grande gozo a jogar í  bola, ao fim de 5 anos sem interesse pela coisa

A Joana está a provar dia atrás de dia que se há coisas que se aprendem com um e se aplicam limpinho ao outro, também é possí­vel dar como verdadeiras frases como “o segundo é muito mais fácil” ou “as meninas são completamente diferentes dos rapazes”.

Com um ano e meio raramente não está a sorrir – e quando não está, está a berrar; já fala, muito – muito mais do que o irmão falava nesta idade (que era nada), corre pela casa, sempre a rir, brinca com o irmão, muitas vezes a provocá-lo já que ele fica muito incomodado e a tenta dissuadir com discursos: “Joana, pára de me seguir, se faz favor, estás-me a distrair e eu quero acabar a minha construção!”.

Está extremamente bem integrada na escola e raras são as vezes que fica a chorar, embora ainda aconteça ocasionalmente. Adora a mãe, claro, está  na idade, mas é mimosa com toda a gente e faz montes de coisas que o Tiago nunca fez, como dar grandes abraços ou por-se aos beijinhos a fotografias. À noite, se eu já estiver em casa, antes de ir dormir, faz questão de me dar um abraço, dizer “xau” e acenar com a mão. Depois vai dormir.

E dormem ambos muito bem, sem grandes stresses, mesmo quando estão doentes. A Joana ainda acorda ocasionalmente a meio da noite, mas geralmente volta a adormecer sem problemas. O Tiago já começou a acordar de manhã ao fim de semana e se vê que nós ainda estamos a dormir, abre o estore e fica a brincar no quarto até nos levantarmos.

A brincar com Pinypon no chão do quarto

De vestidinho em dia de festa de aniversário de um amigo do Tiago

Colo í  mesa da cozinha, para ler uns livros sobre animais

Os meus filhos continuam a crescer e vê-los crescer continua a ser o ponto alto dos meus dias.

É até me estamparem o carro pela primeira vez ou me irem ao armário do whiskey, claro!

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Tenho estado em casa, doente, só saio de manhã para levar os miúdos í  escola e ao fim do dia para os ir buscar. Por essa razão, tenho ido buscar o Tiago, coisa que não é muito habitual porque geralmente estou a trabalhar quando ele sai da escola.

Ontem, cheguei a recreio e ele estava sentado num degrau com uma amiga, com um ar sofrido, veio ter comigo e disse-me que tinha partido o braço. A amiga dele confirmou: tinha um dedo picado e o braço partido. Coitado.

Quando já o tinha ao pé de mim, a amiga escapuliu-se por trás das cordas que separam o recreio e veio dar-lhe um beijinho. Voltou para trás e informou-me: ele é o meu namorado!

À noite, depois de eu contar a história, a mãe perguntou-lhe: “Então, a I. é tua namorada?”. “Sim!”, respondeu ele. “E sabes o que isso quer dizer?”. Não hesitou: “Quer dizer que gosta de mim.”.

“Então e tu gostas dela?”. Gosta.

Mas a coisa não fica por aqui, porque, ao que parece, o meu filho está muito popular entre as meninas lá da sala.

Hoje viu-me ao longe e veio a correr acompanhado de outra amiga (diferente da de ontem). Ela miou-me. “Olá, és um gatinho?”, perguntei.

“Sou o gatinho do Tiago!”, explicou.

Perguntei ao Tiago, que confirmou e acrescentou que as outras duas que entretanto se aproximavam, também eram os seus gatinhos.

Quando já tinha o Tiago ao pé de mim para me ir embora, as três miúdas atiraram-se a ele – perdoem-me a expressão inevitável – como gatos a bofe e encheram-no de beijinhos. Ele sempre com um ar semi-ausente, como convém.

Lá ao fundo, outros rapazolas, lutavam por uma coisa qualquer de plástico.

Claramente, o Tiago fez a melhor opção.

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Ainda sobre desenhos

Hoje, na cozinha, conversávamos com o Tiago sobre desenhos.

– Então e tu não gostas de desenhar casas, pessoas, gatos?

– Não, eu não gosto disso – respondeu sem hesitar

– Então porquê, filho?

A resposta saiu-lhe com a naturalidade das coisas óbvias:

– Porque não sou uma menina.

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