A sabedoria infantil

Ontem, o Tiago explicava-me que um colega dele sofria de um problema: nunca ia deixar de ser queixinhas. O próprio já tinha admitido que seria incapaz de mudar esta atitude, pelo que os outros deveriam estar preparados para lidar com isso.

Interacções sociais complexas de crianças de 5 anos, portanto. Explicava o Tiago que o principal problema era que ainda recentemente, esse outro miúdo lhe tinha feito duas coisas que não se fazem, as quais o Tiago não denunciara, enquanto que o próprio teria apenas insultado o primeiro, ao que foi imediatamente denunciado e devidamente castigado.

Injustiça, claro. Duas malfeitorias versus apenas uma, mas o espí­rito de queixinhas do outro acabou por revelar-se fatal.

Tentando dar uma boa educação ao meu filho, expliquei-lhe que não interessava que o outro se portasse mal e que isso não devia ser motivo para que ele se portasse igualmente mal. Que devemos agir para nos defendermos, mas não responder a provocações. Essas e outras lições morais.

Decidi então perguntar-lhe o que tinha chamado ao outro menino.

“Ovelha estúpida”, respondeu-me com um ar inocente.

E foi aqui que me parti a rir e terminou a lição de moral. É que, por um insulto tão bom como “ovelha estúpida”, vale a pena ficar de castigo!

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Puto rijo

Há uns dias atrás, no átrio da escola, enquanto esperava pela Dee que vai deixar a Joana, depois de eu já me ter despachado de deixar o Tiago, uma criança que entrava, caiu. Espalhou-se, nada de mais, e a mãe ajudou-o a levantar-se.

Chorou, copiosamente. A mãe tentava confortá-lo e eu, a ver a uns metros de distância, lembrava-me de segunda-feira. Sete e meia da tarde, o treino de kung-fu prestes a começar, na Academia, quando o Tiago caiu. Andou até um plinto, puxou as calças para cima e eu vi o ar do instrutor quando olhou para ele. Estava feito.

O Tiago abriu o sobrolho, com uma pancada violentí­ssima na bancada de granito da nossa cozinha, ainda com 4 anos. O Tiago partiu o braço esquerdo, ao por-se aos saltos de cima de uma cadeira com rodas, na nossa sala, pouco antes do Natal. O Tiago cortou cerca de 2 cm de pele do seu pé numa grelha do respiradouro da banheira.

E na segunda feira, aquilo para onde o Quim, o instrutor da YMAA estava a olhar, era um corte com cerca de dez centí­metros no joelho direito do Tiago. Ao tropeçar num colchão, aterrou de joelho numa placa de ferro usada para prender aparelhos de ginástica e abriu uma horrí­vel ferida que parecia ir até ao osso. Ao que parece não era bem osso e sim gordura, mas era branco e quando vi, percebi que dali só para o hospital.

Chamaram uma ambulância e eu, os meus pais. Ambos vieram prontamente e andei pela primeira vez na vida, aos 39 anos, de ambulância, com o meu filho, já com a perna entrapada a caminho do HGO.

Mas comecei a história com o rapazinho que se estatelou no átrio da escola. É que o Tiago aguentou isto, deitado no chão do ginásio, com a perna garrotada por mim, com a manga de uma camisola, preocupado, sim, com dores, muitas, mas com um grau de auto-controlo absolutamente estupendo para um miúdo de cinco anos.

Berrou, claro. Ao ponto de ficar com a testa cheia de petéquias. Mas não se debateu, não se mexeu e mesmo quando se queixou que queria dobrar a perna, deixou-se ficar quieto quando lhe dissemos que não podia ser.

Os paramédicos é que lhe dobraram a perna, abriram a ferida para ver com o que lidavam, limparam, colocaram uma compressa e ligadura. E o Tiago aguentou.

A ferida, já um pouco mais fechada, depois de inchar.

Na foto acima, a ferida já estava muito inchada e não se consegue já perceber tão bem a profundidade.

No Hospital Garcia de Orta o tratamento foi, mais uma vez, irrepreensí­vel. É a terceira ida com o Tiago ao Hospital, a primeira por uma gastroenterite violenta, a segunda por causa do braço. A cabeça e o pé trataram-se em casa; o joelho, no bonito estado em que estava, tinha mesmo que ser cosido.

Ficou com seis pontos e mais uma história para contar e mais um bocadinho de respeito do pai, que nunca imaginou que uma criança tão pequena aguentasse tanto castigo sem fitas, sem pinotes, sem serem precisas 5 pessoas para o segurar para lhe coser o joelho.

Quatro dias depois, está tudo com bom aspecto e a curar bem.

Quatro dias depois, está tudo com bom aspecto e a curar bem.

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Conversa de irmão

O Tiago demonstra o seu novo lançador de Hot Wheels e a Joana está desejosa de experimentar, mas ele, com a sua experiência diz-lhe, com um ar preocupado: “olha, Joana, lamento imenso, mas acho que não tens força para puxar a alavanca”.

(E não tem mesmo)

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O Tiago, as festas e outras coisas

Tiago
Tiago

Na sexta-feira foi a última festa de Natal do Tiago, no pré-escolar. As festas diversas na escola não eram fáceis, o Tiago não gostava muito, participava pouco, apesar dos papéis já curtos que lhe eram dados. Muitas vezes, amuava e ficava sentado a um canto do palco.

Mas ultimamente, isso tinha vindo a melhorar, até que sexta-feira, o Tiago esteve em palco com toda a propriedade e orgulho. Falou alto, de cabeça levantada para projectar a voz. Quando uma amiga demorou a responder í  educadora o nome do poema que iam dizer em conjunto, foi ele que se chegou í  frente para colmatar o esquecimento.

Dançou, fez a sua mí­mica, disse as suas falas e não hesitou, não amuou, não se envergonhou.

Quando ele nasceu, este blog foi muito verboso, depois, ele foi crescendo e os posts foram desacelerando. Mas de vez em quando, sinto que é importante fazer um registo. E este é o registo de uma mudança fundamental. De um Tiago tí­mido e calado para um Tiago extrovertido e falador.

E a mudança nota-se todos os dias, como se exprime connosco, as histórias que inventa, as suas constantes brincadeiras com robots e naves espaciais, os desenhos baseados no Star Wars de que recentemente se tornou fã (sobretudo dos robots), ou em jogos e desenhos animados; custa a crer que há cerca de três anos estavamos preocupados porque ele dizia muito poucas palavras.

Com cinco anos, já não muito longe dos seis e da escola primária, o Tiago é carinhoso, é falador, imaginativo e preocupado com os que o rodeiam. É extremamente responsável e muito ciente das consequências das coisas. Ainda há um mês, quando partiu um braço, caí­do no chão a chorar com dores, o que se lhe ofereceu dizer foi “que parvo que eu fui, a culpa é minha!”. De um miúdo desta idade, eu esperaria algo como “não tive culpa, a cadeira escorregou!”.

Se magoa a irmã por acidente, geralmente chora mais que ela, tal é a preocupação. E aliás, o amor que tem pela irmã, que disfarça o melhor que pode, é provavelmente a sua mais nobre faceta. Sempre í  distância, sempre reservadamente, certifica-se que a Joana está bem e não contém um sorriso quando ela consegue pequenas vitórias.

Toda a gente acha que os seus filhos são especiais. Toda a gente os acha únicos. Praticamente não valeria a pena dizer como único e especial é o Tiago, seria imediatamente invalidado pelo próximo pai ou mãe que aqui passasse, pensando que especial e único é o seu.

Mas o Tiago é especial e único. Nas coisas que diz, na energia que tem, até mesmo nas pequenas estranhezas que demonstra, nas ocasionais crises que tem. O Tiago continua, todos os dias, a ensinar-me a ser pai e a mostrar-me que vale sempre a pena mais um minuto, mais uma história, mais uma brincadeira e vale a pena continuar a olhar para o futuro, de alguma forma, de alguma maneira, com ou sem crises, com ou sem polí­ticos e banqueiros, porque se todos formos um bocadinho mais como o Tiago, o mundo será de certeza um sí­tio melhor.

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Sejamos correctos

Tiago, 5 anos: bolas, a comida está coberta de molho!

Eu: sim, é molho de cogumelos, como o que comeste no outro dia, no fórum. Como gostaste, fiz igual.

Tiago: oh pai, desculpa lá… Molho é um lí­quido, portanto, devia estar em baixo!

Eu: …

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