Hoje fez-se uma greve geral. Foi uma greve em protesto contra as medidas de austeridade do Governo para combater a crise económica instalada. Este é o governo que nos ia salvar do anterior, foi este que as pessoas escolheram porque o anterior era péssimo. Este é, está claro, muito pior.
Não sou amigo da ideia da greve feita desta maneira. Acho que uma greve deve ser uma alavanca. Um duelo entre pistoleiros, para ver quem cede primeiro. Uma greve prolonga-se até obter resultados, não se faz num dia sem qualquer contrapartida de quem se quer pressionar. O Governo não vai reagir, não vai mudar, não vai cair, por causa desta greve.
Acho que foi pouco útil. Talvez até tenha ajudado o Governo porque as pessoas não trabalharam, foram passear, fizeram compras de natal, talvez tenham ido a uma manifestação; desanuviaram, desabafaram, talvez se tenham acalmado um pouco e agora o trabalho pode continuar.
Que trabalho?
Bom, neste momento, eu vejo as coisas de uma forma razoavelmente simples e muito provavelmente, o que eu vou escrever a seguir vai soar a teoria da conspiração a muita gente, mas é-me indiferente; esta é a minha visão das coisas, independentemente do que isso me faça parecer.
Neste momento, Portugal, como outros países “periféricos” da União Europeia, estão a ser terraplanados. Não em termos geológicos, mas em termos sociais e económicos. O nosso poder de compra está a cair de uma maneira muito palpável. Já todos tínhamos ouvido falar da crise, mas nunca tantos de nós tinham chegado ao fim do ano e visto centenas de euros desaparecer do subsídio de Natal. É claro que alguns nunca o receberam sequer, mas o impacto da remoção de algo que muitos têm como adquirido é uma chapada de realidade muito mais evidente do que qualquer subida de IVA.
Na sua última visita, essa coisa inexistente chamada Troika, que só tem um nome para os jornais a poderem por na capa, recomendou, entre outras coisas, que o sector privado considere cortar nos salários para que o valor da mão de obra portuguesa se torne mais competitivo.
Estamos então, a ser social e economicamente terraplanados. Quando estivermos completamente de rastos, pouco mais seremos que uma massa razoável de mão de obra barata, na periferia dos grandes países Europeus, ou então, se quisermos simplificar, da Alemanha que, consciente ou inconscientemente, continua a alimentar o sonho de nos dominar a todos.
Considerem então, se estiverem para me aturar as teorias, o quão prático é ter fábricas da BMW, BASF ou Siemens instaladas em pequenos países muito próximos, dependentes de um sistema económico dominado por pessoas que se sentam nos boards dessas empresas, com a mesma moeda e ainda com o extra de serem excelentes sítios para passar férias.
Ah, e claro, com uma mão de obra baratíssima.
Deslocalizar produção para a China pode ser barato, mas é uma grande chatice, apesar de tudo. As viagens são longas, caras e cansativas, a língua é um universo í parte, a moeda é diferente, a economia é outra, já para não falar no tempo de shipping de materiais e produtos para o outro lado do mundo.
É significativamente melhor ter isso í porta de casa.
Claro que escolhi três empresas alemãs ao acaso, não quis com isso dizer nada de específico, só atesta í minha ignorância sobre quem são os dirigentes económicos por trás dos políticos que agora governam a Europa. Mas a minha ignorância é a vossa ignorância. Porque ninguém sabe muito bem; conhecemos alguns fantoches, mas certamente que não conhecemos todos os bonecreiros.
Acreditem que não sou dado a teorias conspiratórias. Eu acho que isto é mesmo assim. Há um grupo de pessoas, organizados ou não, não interessa – não tem que ser nenhum secto, ou sociedade secreta – que pensam da mesma maneira, que vêem o mundo í transparência de folhas de Excel, projecções económicas e modelos financeiros. Pessoas que não pensam em pessoas, mas em números, que não se lembram de populações, mas de estatísticas e que concluíram, não necessariamente em plenário, mas numa espécie de hive mind de drones académicos e investidores bolsistas, que era vantajoso empobrecer uma parte da Europa para ter mão de obra barata e território em saldo para explorar.
O sonho de uma Europa unificada é bonito, mas afinal, descobrimos que o nosso, não é igual ao de toda a gente. O nosso consta de uma Europa em que Portugal é igual í Alemanha, í Espanha, ao Reino Unido, em que todos somos prósperos, usamos a mesma moeda, celebramos alguns dias em conjunto – um qualquer “dia da Europa” – trabalhamos nos países uns dos outros, viajamos livremente. Mas as pessoas que trabalham para realizar o sonho da União têm outro sonho, um sonho diferente, em que o território é organizado em países centrais e periféricos, populações nobres e campónias, em que uns trabalham em alta finança e “coisas complicadas” e outros montam carros e telemóveis para os primeiros usarem.
E nem estou a dizer que é por mal, é porque é assim mesmo. É assim que os seres humanos sempre se organizaram e é assim que vão continuar a organizar-se. Porque quando temos muito, o nosso primeiro instinto é obter mais e não partilhar o que temos. Num mundo em que o sistema económico é tão complexo que apenas uma fatia minúscula da população o compreende, não se pode esperar mais. Quando já não investimos numa produtora de aço, porque sabemos que vai ser construída uma ponte com esse aço que vai valorizar a empresa, mas investimos em falências, em possibilidades de eventualidades de negócios, em dívidas dos outros, chegámos a um ponto de decadência tal que já não há caminho de regresso.
O nosso país já está comprado. E foi barato. A crise não existe, o que existem são saldos de países.
Já não somos governados pelos partidos que estão na Assembleia da República. Acho que se percebe agora que, até há pouco tempo – e apesar de tudo – éramos um país autónomo e independente. Agora já não somos, ou estamos muito próximos de deixar de ser. A Grécia também já não é, como bem o demonstra a nomeação do novo Primeiro Ministro do país por Bruxelas e não pelos Gregos.
E por tudo isto, apesar de me opor de forma absoluta í s ideias das pessoas que estão sempre a clamar por enforcamentos públicos e guerras civis, começo a pensar que não há mais solução nenhuma para travar o andamento desta terraplanagem trágica do nosso e de outros países que não passe por uma revolta violenta das populações. Não é uma greve geral que vai fazer diferença, disso, tenho a certeza.
Para terminar, hoje dizia í minha mulher que sempre tinha pensado sobre como seria viver numa daquelas épocas de grande agitação, como a II Guerra Mundial; agora estou convencido que em breve vou descobrir. Vamos só aguardar mais um pouco, até que um tecnocrata com um ar bem intencionado, nos venha dizer que, para nosso próprio bem, o Imperador vai servir um mandato um pouco mais longo que o habitual…
PS: dêem, por favor, o devido desconto pelo facto deste senhor, Nigel Farage, ser presidente do Partido da Independência do Reino Unido e, essencialmente, anti-União Europeia e vejam este vídeo: