
Portugueses, portuguesas.
Muito se fala do que está mal em Portugal. Falar (mal), do que está mal em Portugal é aliás a principal especialização profissional do povo português.
Não falamos apenas mal do que está mal, mal da crise, mal do desemprego, mal da falta de dinheiro ao fim do mês: falamos também mal dos políticos, dos deputados, dos ministros, do Governo e da Oposição.
A culpa, a nosso ver, é deles. Nenhum deles presta – dizemos. Nenhum deles é particularmente diferente dos outros, mas uma coisa curiosa continua a acontecer sempre que há eleições: votamos neles.
Apesar de existir um nível elevado de abstenção, continua a haver muitos portugueses que saem de casa para ir votar no PS, no PSD, no PP, no BE, no PCP, enfim, nos partidos políticos disponíveis.
Depois, algum é eleito.
Depois, começam as queixas. Primeiro, alguns admitem ter votado em X ou Y, mas que começam a arrepender-se de o ter feito; depois de mais algum tempo, já ninguém votou.
Quando Cavaco foi Primeiro Ministro (lembram-se? Quando esbanjou dinheiro, ocultou escândalos, carregou sobre manifestantes e criou um Estado gigante e pesado que agora andamos a pagar? Já agora – não votem nele para Presidente outra vez, tenham vergonha), quando as coisas começaram a piorar, ninguém tinha votado nele.
Aí estava o homem, ao fim de quase dez anos de governação e, aparentemente, eleito por ninguém. Também ninguém votou em Guterres, ninguém votou em Barroso e aposto que ninguém votou em Sócrates.
Depois, na revolta, toda a gente diz disparates: que é preciso parar o país (esta é das preferidas dos Sindicatos), quando, evidentemente, o país tem é que se mexer. Que é preciso Guerra Civil, como se arriscarmos as nossas vidas e as dos nossos filhos aos tiros pelas ruas fosse solução para alguma coisa.
Se calhar não podemos fazer nada.
Mas podemos demonstrar insatisfação de uma maneira muito simples: votando.
Não sou politólogo, nem tão pouco economista ou uma dessas coisas estranhas e complicadas que dominam a nossa civilização e que quase ninguém percebe embora tentem fingir, mas acho que se nas próximas eleições legislativas ninguém fosse eleito, alguma coisa interessante poderia acontecer.
Quanto mais não fosse, faríamos um gigantesco manguito a toda a classe política de que tanto nos queixamos í mesa do café.
Eu sei que vivo num país de machos latinos que falam muito e fazem praticamente nada. Eu sei que a maioria das pessoas que ameaça que faz e diz e põe e dispõe, quando chega a altura, não lhe dá jeito ah e tal tenho que cortar as unhas dos pés.
Por isso eu sei que a minha plataforma eleitoral não será um grandioso sucesso. Mas como acho que é uma ideia do caraças, vou lançá-la na mesma.
Isso mesmo, uma plataforma eleitoral.
Portugueses, portuguesas, vão-se preparando, vão treinando os vossos cartões de eleitor porque quero desafiar-vos para pararem de ser uns fracos e de, nas próximas eleições legislativas não votarem em ninguém.
Isso mesmo, em ninguém. Durante o tempo que nos separa das próximas eleições (as presidenciais estão demasiado próximas e de qualquer maneira não interessam para a governação do país, só mesmo para estoirar dinheiro em campanhas e num cargo público inútil), pretendo desenvolver esta minha ideia e convidar todos os que estão fartos de não saber em quem votar a dirigirem-se í cabine de voto munidos de um autocolante (que desenharei até lá), e que colem o dito no voto.
Sim, será um voto efectivamente nulo. Mas quantos votos conseguiremos anular exactamente da mesma maneira? Que impacto terá? Conseguiremos visibilidade para esta ideia?
Não sei, mas estava na casa de banho a dar banho ao puto hoje e tive esta ideia.
O que é brilhante porque a qualidade dos nossos políticos está ao nível da casa de banho que é também, todo sabemos, o melhor sítio para ter ideias.
Vamos nisso?