The Fellowship of the Ring

Há mais de dez anos atrás, era eu adolescente, li um livro chamado “O Senhor dos Anéis, I – A irmandade do anel”. Era emprestado, mas não tardou em que, precisamente num natal seguinte, me oferecessem toda a trilogia da série do Tolkien.

Li os três livros, embora tenha demorado bastante tempo a fazê-lo e fiquei para sempre com um fascí­nio especial pelo mundo daquelas histórias, por aqueles locais oní­ricos, pelos personagens invulgares e por todo o universo de criaturas invulgares que habitavam aqueles livros.

Acho que quem leu as minuciosas descrições de Tolkien nunca deve ter tido muita dificuldade e visualizar o mundo a que ele se refere nas aventuras dos Hobbits e imaginar que tudo aquilo seria perfeito para um filme.

Acho que durante muitos anos, muitos fans do Tolkien se perguntaram porque nunca ninguém tinha feito um filme destas magní­ficas histórias. Bom, talvez isso nunca tenha sido possí­vel senão agora.

Fui hoje com a Dee assistir, durante três horas, ao “Lord of the Rings: The fellowship of the ring”. Um filme deslumbrante e absolutamente fiel í  obra de J.R.R. Tolkien. Depois de já ter visto tantos filmes que pura e simplesmente assassinam os livros em que são baseados (um exemplo muito simples é o “Talented Mr. Ripley” que é uma piada de mau gosto em filme, comparado com o sensacional livro da Patricia Highsmith), já não esperava ver um filme tão brilhantemente fiel ao livro.

Tudo está perto da perfeição neste filme: a história está bem contada, os pormenores estão presentes, os cenários fazem lembrar as descrições dos livros, os actores são todos impecáveis para os respectivos papéis e os efeitos especiais ajudam a completar o quadro com tudo, desde as cavernas de Moria até ao Troll a parecerem-nos táo parte do mundo, como Frodo e companhia.

Fiquei satisfeito com este filme. Está feito um filme do Senhor dos Anéis que não assassina a história, que, pelo contrário, a conta quase tão bem como o livro, que mostra coisas que nos fazem lembrar algo que já visitámos, como a voz sibilante de Gollum, que está tão perfeita, que tive uma sensação de déja vu que apenas mais tarde percebi ser devida ao facto da interpretação do filme ser idêntica í quela que na imaginei na minha cabeça quando li a descrição deste personagem.

As três horas passaram a voar, nem dei por nada. Enquanto noutros filmes, ao fim de uma hora e picos já estou desesperado por me levantar da cadeira, neste fiquei com pena de ver o fim e custa-me imaginar que vou ter que esperar um ano para ver o segundo “volume”.

Não digo mais… acho que oito parágrafos chegam. :)

Depois do cinema demos um salto í  Hí¤agen Dazs para lanchar e depois um pulo í  Fnac para sacarmos mais umas prendinhas de natal, como se não bastasse. No que me toca voltei com o “Aqualung” dos Jethro Tull e o “Simple Things” dos Zero 7, que não conheço, mas que me pareceu interessante da curta audição que fiz na loja.

Seguem-se umas breves férias para retemperar forças, pensar no próximo ano e arrumar as ideias. Faltam neste momento 121 horas para o ano 2002, segundo me diz o relógio que me ofereceram no natal e que tem a particularidade de fazer countdown em horas para qualquer data que desejemos.

Até lá, vão-se divertindo e… vão ver o Lord of the Rings.

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Natal e tal

Hoje é dia de natal, o que, sinceramente, não me diz especialmente muito.

Ontem sim, foi o dia que tem algo de especial. Nunca tinha pensado nisto antes, porque na minha família o natal sempre foi uma festa, mas há muita gente que não suporta o natal. Há muitas pessoas que se sentem forçadas a juntarem-se a outras pessoas de quem não gostam especialmente e a comer bacalhau, quer gostem quer detestem. Há pessoas que esperam horas a fio para que seja meia-noite, porque a tradição assim o manda, apenas para trocarem uma prenda com cada outro membro da família e depois de levantarem os que estão bêbados do chão, irem para casa guardar um par de meias na gaveta e deitar para o lixo uma boneca de porcelana de mau gosto, oferecida pela tia que praticamente não conhecem.

Sinceramente que em 28 natais que já passei, este foi o único em que pensei nisto. Deixem-me então dizer porque é que eu gosto do natal.

Não somos religiosos. Tanto que não somos religiosos que, durante algum tempo, os meus pais sorteavam o dia do Natal, que podia calhar em qualquer altura, desde que mais ou menos perto do Inverno. Enfim, o natal devia ser quando um homem quiser e essas coisas. Portanto o natal para nós não é especial por qualquer crença cristã que guie as nossas vidas.

Não vou ser hipócrita e dizer que a minha família é muito boazinha, unida e feliz. Mas temos de facto um conjunto interessante de laços fortes, amizades e amor diverso que nos tem mantido bastante próximos ao longo dos anos.

Portanto a noite de natal é sempre uma oportunidade para nos divertirmos à grande e à francesa. Outra característica importante da nossa família é que de facto gostamos à brava de dar coisas uns aos outros. Temos um prazer indiscritível em ter prendas sensacionais para toda a gente, tanto que o nosso natal tem uma regra: ninguém desembrulha uma prenda ao mesmo tempo que outra pessoa e toda a gente pode exigir ver TODAS as prendas.

Mesmo assim há sempre prendas que ninguém consegue ver, tal é a algazarra.

Este ano éramos dezoito, senão vejamos: os meus pais e os meus tios, as minhas duas primas e os meus avós, a minha tia Bela e o Doctor, mais os pais do Doctor, que desde o ano passado que também se juntam à festa, a minha irmã e o recente marido, os pais do meu tio Jorge e finalmente eu e a Dee. Dezoito.

Não sei exactamente quantas prendas foram trocadas, mas posso fazer um cálculo, visto que eu recebi 40, se toda a gente tiver recebido o mesmo que eu, chegamos às 720… bom, não exageremos demais… nem toda a gente recebeu 40 prendas, uns recebem menos prendas, mas mais caras, por exemplo. O meu pai recebeu um DVD Sony e a Bela um DVD Mustek, ambas excelentes escolhas; os meus avós foram presenteados com uma aparelhagem Sony e um telemóvel novo, houveram brincos e anéis diversos, sapatos, camisolas, calças e underwear; filmes, discos e livros é sempre à fartazana; pequenos electrodomésticos, objectos decorativos e bonecos de peluche também não faltam; brinquedos para a minha prima de sete anos, são sempre aos molhos. Enfim, se nem toda a gente recebe 40 prendas, haverá quem receba 50, se for preciso e quem receba, pelo menos, 20… portanto eu ponho a média em 25 prendas por pessoa, elimino duas pessoas às 18 e obtenho 400.

Não me custa a aceitar que tinhamos de facto entre as 300 e as 400 prendas ontem na sala dos meus pais. A árvore de natal é uma coisinha minúscula enterrada em embrulhos de várias cores e a distribuição é feita por pessoas que se vão revezando, tendo este ano estado a cargo de 4 pessoas diferentes.

Não poderia ser senão divertido, estar das dez e meia da noite até às três da manhã a trocar prendas, ainda por cima quase todas giras. É que ainda temos outra tradição familiar: a lista de prendas. É uma tradição que temos há muitos anos… aproximando-se a altura do Natal, toda a gente “publica” uma lista de coisas que precisa ou gostaria de ter. Todos trocamos as listas entre nós, combinamos prendas uns com os outros, reservamos items, fazemos vaquinhas e acabamos por comprar às pessoas coisas que elas realmente querem ter.

Claro que também nos esforçamos por decidir nós próprios determinadas prendas, para não tornarmos a troca de prendas numa simples entrega de mercadoria previsível. Enfim, somos os nossos próprios pais natais.

No final da noite estamos todos cansadíssimos, mas, regra geral, divertidos. Saímos todos com sacadas de prendas (eu e a Dee devemos ter trazido para casa perto de 70 items diferentes em seis ou sete sacos e caixas) e com a falsa promessa de que “para o ano não pode ser assim, têm que ser menos coisas”; claro que, sem falha, a cada ano temos mais prendas ainda.

Portanto… se eu gosto do natal? Gosto pois. :)

Para acrescentar à minha lista de prendas recebidas, que não repito aqui por pudor, hoje ao fim da manhã ainda troquei mais uma prendinha simbólica com a Dee… eu dei-lhe um software de virtual make up que ela andava a namorar há algum tempo e ela ofereceu-me uma UPS.

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Noite de paz

Levantei-me í s seis, ainda faltava um pouco para o Sol nascer. Vesti-me rapidamente, para não deixar que o frio levasse a melhor e calcei as minhas docs como se de um ritual antigo se tratasse.

Fui ao armário do hall buscar a mala da Remington, enquanto mastigava qualquer coisa para afugentar a fome. Abri a mala e verifiquei que estava tudo em condições. Puxei pela alça e a SR8 soltou-se suavemente do poliestireno. Coloquei-a í s costas.

Acabei de beber o café, dei um beijo í  minha mulher que dormia suavemente, rodeada de gatos e inspirei profundamente. Noite de paz… não é o que diz a canção?

Subi ao telhado onde já tinha deixado as coisas preparadas ontem… uns baldes, umas ferramentas, umas telhas soltas. Não excessivamente encenado, mas no geral, uma boa imitação de uma qualquer obra a decorrer, abandonada na véspera de Natal pelos construtores, que se juntaram í s famí­lias para comer bacalhau e trocar prendas.

O oleado era perfeito para me esconder. Fiz deslizar a Remington para a minha frente e soltei a alça, que pus de lado para não atrapalhar. Coloquei o carregador, suavemente, por baixo e deixei que a minha mão se deleitasse com o prazer indescrití­vel de mover o ferrolho para trás, sentir a primeira bala a colocar-se e voltar a fechar a câmara, com lentidão e precisão.

Tapado pelo oleado, deitei-me sobre as telhas frias e esperei. Visto de longe a minha presença era imperceptí­vel. Passaram duas horas, o Sol nasceu e um dia de céu branco desenhava-se í  minha frente. Paciente, continuei a esperar… sabia que o velho fazia sempre uma passagem de manhã para verificar o terreno, antes da grande entrega.

Passados apenas mais uns minutos, a minha espera revelava-se frutí­fera: ao longe, quase indistintos, mas reais aos meus ouvidos, os guizos chocalhavam com a sua melodia habitual.

Preparei melhor a Remington, pus um olho contra o anel frio da mira, deixei que a minha visão se habituasse í  estranheza de um olho normal e outro com ampliação e miras desenhadas. Em pouco tempo, o trenó estava ao meu alcance.

Reduzi a respiração. Coloquei a mira no local mágico, aquele ponto mesmo por trás da orelha, onde o barrete vermelho deixava ver fartos caracóis grisalhos.

Inspirei profundamente. Deixei que o meu dedo se afundasse no gatilho, percorrendo lentamente metade do caminho. Deixei sair o ar dos pulmões, naturalmente, sem pressa…

Disparei.

O velho estremeceu e caiu para a frente. As Renas entraram em pânico e numa manobra desesperada aterraram mesmo no meu telhado.

Puxei o ferrolho da Remington e a bala utilizada saltou, quente, e aterrou com um tilintar melodioso nas telhas. Fechei a câmara e pousei a arma.

Levantei-me.

Dirigi-me ao Rudolph e entreguei-lhe o dinheiro combinado. Acho que ficámos amigos.

Correu tudo bem. Já tenho o fato do velho e as Renas concordaram em fazer mais um serviço.

Vemo-nos mais logo…

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Desilusões curadas a Mário Henrique

Há dias maus, muito maus, em que há problemas, discussões, zangas, acidentes, dores, doenças. Depois há dias vulgares, como o de hoje, mas que parecem profundamente errados.

Não estamos preparados para nada. Hoje tive uma desilusão, achava que já a esperava, já tinha delineado todas as estratégias para lidar com a situação, para que deixasse de ser uma desilusão. Mas não consegui. Há coisas mais fortes. As situações rodeiam-nos e atacam-nos exactamente pelo ponto por onde não esperavamos.

Não foi grave. Não foi fatal. Se calhar vai passar, mas foi o suficiente para me estragar o dia. E não, não vou explicar o que foi, é pessoal.

Bom, a manhã começou cedo, í s oito e meia. Levantei-me e fiz um pequeno almoço para duas pessoas… Pela primeira vez em anos, eu e a Dee levantámo-nos ao mesmo tempo para irmos os dois trabalhar para o mesmo sí­tio. Fomos para Setúbal, com o meu Sony G500 (chuif, já não o tenho em casa, sinto-lhe a falta).

Tivémos um dia de trabalho um bocado seca, com uma reunião da nitro pelo meio, mais discussão de novos projectos que foi gira, mas de resto um bocado aborrecido.

Viemos embora relativamente cedo, por volta das cinco, para a Dee ir í  consulta da mãe, por causa dos olhos. Aproveitei para vir procurar todas os meus cartoons do sapo, os especialistas, mexicano, macacos dos pântanos e capitão snot, fora todos os esboços e até mesmo histórias completas que nunca chegaram a ser publicadas e meter tudo numa pasta para poder começar a ser tudo re-digitalizado. Sim, isto tem algo a ver com um dos nossos novos projectos.

Encontrei muuuuuuuuita coisa. Ainda me fartei de rir com algumas das mais violentas histórias do Capitão Snot, daquelas que nunca publiquei, nunca se chegando realmente a conhecer o verdadeiro core sádico-catastrófico do Snot.

O Tritão chegou í s sete e meia e fomos para o Gongfu. Que aula…!

Por acaso, estupidamente, senti-me um bocado mal, com tosse e pieria no meio. Estupidamente porque a culpa foi minha que não fiz o Oxis hoje, para não falar de ontem, ou seja, saltei três inalações. Mas passou e continuei a aula.

A quinze minutos do fim é que fomos correr, fazer flexões, abdominais e lunges. Fiquei completamente podre.

Cheguei a casa e a Dee estava já na cama, praticamente a dormir (ainda a devo ter acordado, porque toquei í  campainha). Tomei um grande banho de imersão enquanto lia os “Novos Contos do Gin”, do Mário-Henrique Leiria, para me lembrar o quanto gosto das histórias dele.

E pronto, depois de escrito o diário, vou provavelmente dormir. Anseio pelo fim de semana, que acho que vou usar inteiramente para descansar.

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Asmático

Ontem estava numa daquelas noites em que se via logo que não ia dormir… Antes que fosse tarde demais, tomei meio Dormonoct, o que ajudou, embora tenha tido um sono agitado. Acordei í s 8, completamente podre.

Levantei-me e tomei o pequeno almoço, ainda bastante desconfiado do meu estí´mago, depois da minha aventura de segunda-feira.

Saí­ para Lisboa í s 9 e consegui demorar apenas 15 minutos a arranjar lugar para estacionar em Cacilhas. No caminho para o barco encontrei a minha irmã, o que tornou a viagem para a Praça do Comércio bastante mais agradavel.

Separei-me da Marta, que foi trabalhar, e fui até í  estação da Baixa, apanhar o metro para Entre Campos. Fui o caminho todo a fazer centro, consegui manter o equilibrio mesmo quando o condutor travou a fundo numa das estações. :)

Saí­ do lado errado do Campo Grande, como seria de esperar, mas encontrei rapidamente a Clí­nica de Doentes Pulmonares. Fui rapidamente atendido e em poucos minutos estava numa cabine de vidro, com um tubo na boca. No iní­cio foi fácil: respirar depressa, respirar fundo, respirar com resistência de uma tampinha que se fechava.

Depois fiz um aerossol e a coisa piorou, comecei a ficar com pieira e já não conseguia fazer as inspirações mais profundas sem desatar a tossir, pelo que foram precisas várias tentativas para fazer o teste de respiração post-aerossol.

No final, a senhora deu-me uma bomba tipo Combivent ou Ventilan, não reparei, e melhorei rapidamente.

Apanhei o metro de regresso e parei num balcão da Sical, no Marquês, para um cafézinho que me soube bem como há muito não me sabia um café.

Passei ainda na Fnac e comprei uma nova caixa protectora para o meu Palm, que vai finalmente deixar de se ligar sozinho no bolso. Acho que foi cara demais, mas pronto. Ainda trouxe o “Novos Contos do Gin”, do Mário-Henrique Leiria. Para quem já leu e gostou das minhas histórias, este livro, juntamente com o primeiro, “Contos do Gin Tónico”, são essenciais, porque são a minha principal inspiração. Comprem e leiam, vão ver que vale a pena. São baratos, ainda por cima.

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