Tiálogos VII. Marcos.

Tiago, hoje ultrapassaste mais um marco de desenvolvimento quando, depois do banho, de barriga para baixo, te apoiaste nos cotovelos e levantaste a cabeça e o peito.

Tiveste direito a grande euforia, festejos e palmas!

Não te vás habituando… goza bem estes momentos porque daqui a uns anos, até podes conseguir por-te de pino num só dedo enquanto pintas uma réplica da Mona Lisa com o pé esquerdo e um dos olhos vendados que ninguém te vai ligar nenhuma.

Ninguém a não ser, claro, o teu pai e a tua mãe que, parece-me, vão continuar a fazer-te pequenas paradas sempre que tirares um macaco do nariz.

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Tiálogos VI. Os primeiros sapatos.

Tiago, hoje estreaste os teus primeiros sapatos. A tua mãe decidiu experimentá-los, só pela graça, convencida que estariam longe de te servir, mas serviram mesmo.

Fomos então, os três, dar uma volta até ao Parque da Paz. Foste vestido com o teu fato de treino cor de laranja e os teus fabulosos primeiros sapatos, que são uns ténis azuis claros.

Estava Sol, com uma brisa ocasional; um bom dia de Primavera. Deu para estarmos um bocado sentados í  sombra, a ouvir os p’ssarinhos e a ver-te… dormir, claro.

Dormiste novamente, o tempo todo que estivemos no parque e portanto, ainda não foi desta que deste a tua primeira vista de olhos nas árvores, relvinha e patinhos que por ali habitam.

Suponho que, mais tarde ou mais cedo, vai ser preciso desenrolar-te os dedinhos rechonchudos do pescocinho de um qualquer ganso desprevenido.

Depois do passeio no parque, demos um salto ao Fórum para te comprar uma cadeirinha balouçante, da Chicco, porque achamos que já não tem graça nenhuma passares o dia no berço. Pareces ter gostado da cadeira e já lá dormiste umas sonecas durante a tarde.

Um dia destes, haví­amos de combinar e tu deixavas a malta dormir umas cinco horinhas seguidas, que tal, hem?

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Tiálogos V. O primeiro mês.

Tiago, é dia 11 de Abril e fazes um mês. O tempo tem esta caracterí­stica estranha de ser elástico. Provavelmente porque nós, meros seres humanos, não temos a mí­nima ideia de como o tempo efectivamente funciona nem tão pouco o que é. Este primeiro mês passou muito depressa e ao mesmo tempo muito devagar. Embora pareça quase que nasceste ontem, tenho também a sensação que aqueles primeiros dias no hospital foram há seis meses.

Todos os dias evoluis um pouco e recentemente começaste a fixar as caras com muito mais atenção. Na segunda-feira, quando te estava a dar banho, chamei-te e tu fechaste os olhos e quando os abriste estavas a olhar directamente para os meus.

É muito difí­cil descrever a sensação que esse simples acontecimento dá. Pode parecer uma coisa muito simples, mas quando se tem um bebé que não tem ligação com o mundo que o rodeia, porque ainda não se orienta e os sentidos ainda não funcionam bem, qualquer sinal de comunicação connosco transmite uma emoção quase eufórica.

Entretanto, a vida continua. Já voltei ao trabalho e apesar de não te portares muito mal, as noites não são especialmente bem dormidas – apesar de tudo, tens que comer de 2 em 2 ou 3 horas – e alguns dias por semana as cólicas dão-te cabo do juí­zo e mantêm-nos todos acordados. Estou a dormir 3 ou 4 horas por noite e depois a ir trabalhar. O cansaço acumula-se, mas nem por isso me sinto desencorajado ou aborrecido.

É mesmo assim e faço o que posso para me ajustar a esta rotina, que também sei que é passageira.

Continuas a crescer a bom ritmo, já tendo deixado para trás alguns dos teus conjuntos de roupa iniciais e começa a parecer-me que em breve vamos ter alguns problemas em colocar-te no fraldário do Ikea. Ou talvez seja apenas o meu ponto de vista, deturpado, de pai.

Já tens um mês e ainda só tens um mês. Dois sentimentos que parecem opostos, mas coexistem com naturalidade.

Go figure…

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Tiálogos IV. A primeira birra.

Tiago, vais fazer-me passar más figuras. Ando eu a dizer a toda a gente que tu és a encarnação da paz e tu resolves começar a fazer birrinhas í  noite, porque não te apetece dormir.

Ironicamente, não fazes mais nada o dia todo, senão dormir.

De terça para quarta-feira passada, resolveste que não querias ficar no berço í  noite e sempre que te deitávamos, começavas a resmungar. Se não te ligassemos nenhuma, começavas a gritar, como é evidente. Então, o teu pai – que sou eu – decidiu levar-te para a sala e ficar contigo ao colo a noite toda, a ver tv.

Não imaginas o que eu aturei, puto. A noite toda a ver infomercials e documentários manhosos. Às seis da manhã, levei-te de volta para a tua mãe te aturar um bocado e fui dormir duas horas.

Depois tive que me levantar para ir para Lisboa fazer acupunctura e buscar a papelada para a Segurança Social, por causa da licença de paternidade. Já viste o incómodo que é, armares-te em difí­cil?

Vê lá se não podias fazer o favor de continuares a portar-te bem? É que estás quase com três semanas, já tens idade para perceber estas coisas.

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Tiálogos III. As noites.

Tiago, fez ontem, dia 22 de Março, uma semana que vieste para casa connosco e onze dias que nasceste. Antes de nasceres toda a gente me queria dar conselhos e rapidamente me apercebi que o conselho era sempre o mesmo.

Chamei-lhe “conselho número dois”. Não que existisse um conselho número um, mas pelo menos isto deixava as pessoas a pensar no assunto (toma nota…). Às tantas, quando me perguntavam se podiam dar um conselho ou – os mais ousados – me diziam que me iam dar um conselho, eu perguntava logo: espera aí­… é o conselho número dois?

Invariavelmente preplexas, as pessoas respondiam que não sabiam, mas queriam apenas aconselhar-me que dormisse. Que dormisse muito antes de tu nasceres, para aproveitar.

Era este o conselho número dois: dormir.

Quando nasceste, pouca gente deu conselhos, mas ainda assim, houve quem me afiançasse que não iria dormir nos próximos dois anos. DOIS, vê tu bem.

Bom, tudo isto para dizer o quê? Que ao fim de uma semana em casa, só tiveste uma noite má. Cheio de dores de barriga, incapaz de adormecer, berraste até í s seis da manhã, quase sem parar.

Tirando isso, tens sido um gajo mesmo porreiro. Dormes umas três horas, acordas para comer, mas sem choros, só uns resmungos. Muda-se-te a fralda, mamas e voltas a adormecer. Quando te pomos de volta no berço já tás como hás-de ir.

Não sei se o conselho número dois é pura tanga ou se, simplesmente, os outros bebés são uns chatos e tu és bestialmente calmo. Como é evidente, prefiro pensar que és mesmo tu que és especial e que todos os que me deram o conselho número dois vão roer-se de inveja de não terem tido um bebé tão calmo como tu.

Não me quero precipitar. Uma semana em casa não é propriamente uma eternidade e não sei se não te tornarás um rebelde noctí­vago, mas so far, so good.

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