Tiálogos XII. Cinco meses.

Hoje fazes cinco meses e temos a impressão que te estão a começar a crescer os dentes.

Hoje durante o banho – que adoras – começaste a berrar desesperadamente e foi difí­cil acalmar-te. Não conseguimos perceber o que tens e dói como o caraças ver-te chorar assim. Estarás com dores de barriga? Terás efectivamente os dentes a romper?

Pela maneira como vorazmente atacas os teus bonecos, parece que sim, mas ainda não é possí­vel ter a certeza. Mas o tempo não pára e portanto, mais tarde ou mais cedo, vais mesmo ter os teus primeiros dentes.

Não me importava que me doesse a mim, para não te doer a ti. Por muito que compreendesse a protecção dos pais aos filhos e a preocupação com o seu bem estar e conforto, nunca imaginei que fosse tão primária a necessidade de te proteger.

É um instinto demasiado antigo, demasiado enterrado nos genes, para ser ignorado. Ou então sou eu que sou um tenrinho…

Mas ao ver-te sofrer, por (relativamente) pouco que seja, não consigo conceber como é que algumas bestas maltratam os filhos… é de facto preciso ser-se uma classe de ser humano muito baixa para ser assim tão desprovido de empatia.

Felizmente, estas crises de choro não dominam propriamente o teu dia e ainda menos a tua noite: tens dormido 9, 10 e até 12 horas de noite, na maior. Portas-te quase sempre bem, o que significa que protestas pouco, no geral, excepto quando tens muito sono ou as tais dores inidentificáveis. Ris-te, “falas” í  brava, metes tudo o que podes na boca e adoras estar de pé e ser levantado no ar.

A tua forma de relaxamento preferida são passeios. Podem ser passeios pela casa, ao colo, ou passeios por Almada, no canguru, desde que possas olhar í  volta e andar de um lado para o outro, a coisa é sempre altamente calmante.Vamos dar voltas pela cidade contigo durante uma hora, sempre sem incidentes. Aliás, da última vez, acabaste mesmo por adormecer na última parte do passeio.

E que mais? Ao fim de cinco meses… gostas de banho, gostas de papa e de puré de fruta de boião. De sopa só gostas se for feita pela avó Mila (porque será…?) e fruta fresca ainda não comeste muita, porque ainda não conseguimos  preparar-ta como deve ser.

Que simples que é a tua vida neste momento, hem? Aproveita que isto depois complica-se!

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Tiálogos XI. Quatro meses.

Fizeste ontem quatro meses e cresceste desmesuradamente. Não cresceste tudo ontem, claro… tem sido uma coisa gradual, mas ainda assim… rápida.

Já não cabes no fraldário, é o que quero dizer.

Cada dia que chego a casa í  noite, tenho a impressão que estás diferente do que quando saí­ de manhã. Neste último mês começaste a sentar-te, desencostando-te da almofada, descobriste o gozo de brincar com as tuas próprias mãos, consegues já quase aguentar-te de pé e consegues pí´r-te de pé se te puxarmos pelas mãos e, nos últimos dois dias, começaste a brincar com os pés.

Sorris constantemente e portas-te quase sempre bem, excepto quando tens sono ou muita fome. O pior é quando tens as duas coisas ao mesmo tempo: queres dormir, mas tens fome, mas para comer tens que ficar acordado, mas tens sono… Esta combinação resulta usualmente numa berraria de fazer cair a casa.

Mas desde que não tenhas um qualquer desconforto, és gajo para estar calmo e divertido contigo próprio, se preciso for.

Quanto a mim, não posso dizer que me sinta muito diferente, por ser pai. Acho que as pessoas são quem são e têm uma capacidade razoavelmente boa de encaixar os acontecimentos que lhe vão passando pela frente, sem grandes desvios de personalidade. Claro que podia fingir – há muita gente perita nisso, então em Portugal, onde as aparências são tão importantes.

A minha vida ficou, isso sim, mais rica com a tua presença e tem agora um significado acima de todos os outros. Nada de esoterismos ou espiritualidades… simplesmente, como animal, o meu imperativo é zelar por ti e como humano, tiro disso um gozo do caraças.

Sinto-me também estranhamente compelido a caçar pequenos mamí­feros e trazer-tos de volta, ao fim do dia… mas que raio…

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Tiálogos X. Três meses.

Fizeste hoje três meses. Curiosamente, nascemos ambos a dias 11. Tu em Março, eu em Junho. Tu em 2007, eu em 1973, no século passado! Portanto hoje faço 34 anos e praticamente não liguei nenhuma í  efeméride.

Não me sinto velho, nem deprimido por fazer anos, nem tentei de forma nenhuma ignorar o meu aniversário, mas simplesmente, este ano, não dei muita importância í  coisa porque praticamente só consigo pensar em ti.

E não é para menos: estás cada vez mais comunicativo; fartas-te de rir e “falar” e estás cada vez mais giro. Já consegues ficar sentado no sofá sozinho e segurar-te a cabeça sempre que te pegamos, com todo o cuidado, é uma coisa do passado. Também já fazes alguma força nas pernas, portanto cheira-me que em breve estarás a por-te de pé.

Com ajuda, claro. Não exageremos: uma coisa de cada vez, não precisas de ganhar já um prémio nobel. Aliás, nem agora, nem nunca. Desde que fiques rico e compres um carro desportivo ao teu velho pai, tudo estará bem…

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Tiálogos IX. Dois meses.

Tiago, fazes hoje dois meses e como comemoração foste presenteado com uma injecção em cada perna. Foi dia de vacinas, portanto.

Agora, ao que parece, até aos sete meses vais ser torturado com agulhas mensalmente. Mas apesar de tudo, reagiste muito bem. Berraste um bocado e fizeste um ar ofendido para a Enfermeira Paula, mas acabaste por te conformar com a coisa e não houve birra.

Estás obviamente maior e mais pesado, mas sobretudo mais atento e comunicativo. Já te ris que nem um parvo com muito mais frequência e deixas os teus pais completamente deliciados.

Depois do banho é a tua altura favorita para falar. Enquanto a tua mãe te faz a massagem, ficas a olhar para mim e vais-te concentrando, com muita atenção e depois de puxares um bocado pela cabeça sai-te um “ei!”, que é o teu monossí­labo preferido neste momento.

Ficas muito contente por conseguir vocalizar algo tão complicado. Mas não tão contente como eu, claro.

Quanto í s noites, tem sido noite sim, noite não. Ora dormes cinco horas seguidas e ficamos todos contentes, ora obrigas a tua mãe a aturar-te até í s quatro da manhã, sem dormir.

É uma coisa que ainda não dominas completamente, dormir de noite, mas lá chegaremos.

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Tiálogos VIII. Estaladinhas no Tiaguinho.

Tiago, sejamos francos. És um puto fantástico e toda a gente te adora. És giro, tens um cabelo porreiro, umas mãos bestiais e fazes uns sorrisos que deixam um gajo completamente desarmado.

Mas… meu filho… quando não me deixas dormir, só porque te apetece, há alturas em que, sinceramente, só me apetece apertar-te o pescocinho ou dar-te umas estaladinhas. Sim, porque não penses que isto de ser pai é só amor e poesia, há alturas em que me deixas í  beira de um ataque de fúria.

O que te vale é que te arranco da cadeirinha, pronto para te partir os bracinhos e tu páras de berrar e sorris-me com a boca toda  e eu fico completamente abananado e já não me lembro do que ia fazer a seguir (ia sovar-te, meu filho).

Meu grande porco, tão pequenino e já tão manipulador!

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