Tiálogos II. Primeiras impressões.

Tiago, a primeira reacção das pessoas é sempre que és um bebé lindo. Claro que as pessoas gostam muito de mentir, sobretudo quando vêem o teu pai e se questionam se ele lhes aplicará uma sova, caso digam que tu és feio.

Mas tu és de facto lindo.

Tiago with eyes open (4 days old)

Não só és lindo, como és a cara chapada do teu pai, com uns pózinhos essenciais da tua mãe, claro.

Repara… há recém-nascidos que parecem ratazanas: saem todos tortos, cheios de rugas, demoram semanas a desinchar e, bom… nalguns casos são mesmo feios. E tu és uma pequena maravilha.

Não só és bonito, como és um pacifista. Calmo e paciente e com um gosto apaixonado por dormir. Isto é o mesmo que dizer que só dormes. É a tua principal gracinha: dormir.

Já cá vieram a casa o Nelson e a Catarina, o Gus e a Xana, a Marta e o Flip, o Pedro e a Ana, os teus tios, avós e mesmo bisavós! E o que fizeste tu? Dormiste.

E fazes muito bem, porque dormir é mesmo muito bom e vastamente preferí­vel, por exemplo, a carregar com sacos do supermercado cheios de pacotes de fraldas (hint, hint).

No teu primeiro dia em casa foste logo dar duas voltas: uma ao posto de saúde do Monte da Caparica, onde trabalham os teus avós Artur e Mila, para a enfermeira Paula te fazer o teste do pézinho. Reclamaste um bocado, é certo, mas não deitaste a casa abaixo com berros lancinantes. Isto é outra maneira de dizer que te portaste bem e que não és um choramingas.

À tarde foste í  tua primeira consulta no pediatra: o Dr. Silva Sequeira. Um médico de 70 anos, com um estofo do caraças como pediatra e que te achou bestial.

A conclusão do dia foi que, apesar de teres perdido 300 gr. em quatro dias, por não saberes ainda bem mamar, nos dois dias seguintes ganhaste 80 gramas, o que é obra. O leite da tua mãe é, provavelmente, enriquecido com Snickers e a gente agradece.

Outra coisa que agradeço – e agora numa nota pessoal – é que obrigues a tua mãe a despir-se constantemente. É que tu gostas das maminhas dela há seis dias, mas eu levo-te dezanove anos de avanço, puto.

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Tiálogos I. Introdução.

Tiago, ser pai é ser pateta. Não há nada a fazer. No momento em que nasceste, o meu ní­vel de patetice duplicou e mostra fortes tendências para continuar a aumentar.

Por isso, inventei esta coisa dos Tiálogos. Não para me redimir da patetice, repara… mas como reflexo dessa mesma patetice. Sempre achei que escrever notinhas, cartas ou – nestes dias – posts, para os filhos era uma grandessí­ssima patetice… e olha para mim agora.

Sempre que achar que há uma coisa importante e digna de nota, vou escrevê-la para ti, aqui, nesta categoria, na esperança de que, um dia, no futuro, que possas estar triste ou aborrecido as possas ler e rir-te um bocado í  custa do teu pai, assim alegrando o teu dia.

E pronto, é assim a introdução.

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Tiálogos – Prólogo. Como nasceu o Tiago.

Era uma vez, em 1988, dois adolescentes geeks, numa altura em que ser geek ainda não tinha piada nenhuma, que se conheceram na Escola Secundária Emí­dio Navarro. Ficaram amigos e passavam muito tempo juntos, sobretudo para evitar terem que se misturar com os outros adolescentes.

No dia 24 de Abril de 1989, por troca de cartas e cassetes românticas (eu avisei que eles eram geeks), começaram a namorar. O que significa, mais ou menos, que passaram a andar de mãos dadas pela rua. Era preciso ter calma.

Mas a calma foi-se perdendo e as coisas foram-se tornando interessantes, até que passou um ano e depois dois e quando deram por isso, estavam juntos há cinco anos e depois seis e sete… e por aí­ fora, até que em 1998 decidiram que era altura de saí­rem de casa dos pais e irem viver juntos e como pessoas práticas que eram, aproveitaram para se casar, pois na altura não tinham máquina de café.

Finalmente, no Domingo, dia 11 de Março de 2007, levantaram-se muito cedo e partiram para o Hospital Garcia de Orta, em Almada, para induzir o parto do seu segundo filho, í s 37 semanas e um dia.

Às oito e meia estavam na recepção da urgência de obstetrí­cia e pouco depois, ela estava de bata, pronta a entrar para o bloco de partos.

Por volta das 10:40, tomou dois comprimidos de prostaglandinas, mas o efeito não foi propriamente significativo, causando apenas fracas contracções.

Esperou-se.

Às quatro da tarde, entrou a ocitocina no I.V. e as contracções tornaram-se decididamente mais fortes. Por volta das cinco, o médico rebentou a bolsa de águas, que é um procedimento habitual em segundos partos e geralmente ajuda a acelerar o processo.

Infelizmente, passaram-se mais duas horas, sem alterações. Na última vez que o médico verificou, oito horas depois do iní­cio do processo, o Tiago ainda não tinha sequer encaixado.

Era preciso tomar decisões: ou se insistia na indução e se esperava, o risco sendo o processo continuar a não avançar, obrigando a uma cesariana; ou se partia imediatamente para a cesariana, eliminando outras oito, dez, ou mais horas de espera.

Às 19 tive que sair da sala de trabalho de parto e a Dee foi levada para o bloco operatório. Quarenta e quatro minutos depois, nascia o Tiago e í s oito da noite, finalmente, peguei no meu filho pela primeira vez.

Naquele momento em que a enfermeira Tina mo passou para as mãos, percebi que não é possí­vel que exista algo melhor do que isto. Segurar o meu filho nos braços é, sem qualquer reserva, incomparável e indubitavelmente a mais inacreditavelmente estupenda e inultrapassável sensação da minha vida.

É como se nada importasse e tudo importasse, ao mesmo tempo, naquele momento. É um sentimento para o qual não existe uma palavra. Não é descrití­vel, não é explicável.

Vi o Tiago pouco tempo e depois ele teve que voltar para dentro. Nasceu com 2800 g., um pouco menos do que a ecografia tinha levado a crer que tinha, mas ainda assim, jeitosinho. Para quem sabe o que isso quer dizer, teve um apgar 10 (logo boas notas, o rapaz!) e a cirurgia correu bem, apesar de ter havido um pequeno susto, com a Dee a perder sangue e a ter uma queda de tensão algo acentuada.

As quatro horas que se seguiram foram o equivalente a esperar que, um a um, todos os chineses do mundo se chegassem í  frente, de forma organizada e por ordem alfabética, e dissessem o seu nome a um microfone.

Na sala de espera, depois das 21, apenas podem permanecer dois acompanhantes por paciente. Nós éramos catorze.

Até que, enfim, mãe e filho saí­ram pela porta automática do bloco de partos. Em poucos segundos, a enfermeira que empurrava a cama, viu-se cercada pelo Artur, a Mila, a Marta, o Filipe, o Gustavo, a Inês, o Jorge, a Luí­sa, a Rita, o Pompí­lio, a Maria, o Pedro e a Ana. E, claro, eu.

Foram mais alguns breves segundos e depois a minha nova famí­lia foi levada para o quinto piso e eu tive que voltar para casa sozinho.

Foi um processo de dezanove anos e nota-se: o Tiago é simplesmente lindo.

…ou pensavam que tinha sido fácil?

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