Dez posts de bem dizer

Há uns dias atrás escrevi um post sobre como diversos sistemas de transportes públicos na Capital poderiam ser melhorados. Mas escrevi-o com tal tom de crí­tica que surgiram alguns comentários fazendo-me ver que noutros paí­ses da UE, mais ricos e, teoricamente, avançados que o nosso, a situação é bem pior: ou não existem passes, ou outras formas de acesso facilitado a vários transportes, ou não são possí­veis operações para nós mundanas com pagar contas no multibanco.

Tudo isto deixou-me a pensar sobre um velho tema. É o tema do produto nacional. Na minha opinião, o principal produto nacional é o queixume. É o que mais se produz em Portugal: queixas. Toda a gente se queixa. Também se produzem muitas opiniões, mas aí­ a coisa já é mais partilhada: pode parecer que toda a gente tem uma opinião, mas a verdade é que duas ou três pessoas têm opiniões e todo o resto da população pede essas opiniões emprestadas.

Mas queixas, toda a gente tem, pelo menos uma e, na maioria dos casos, montanhas delas.

Eu sou português e, portanto, sofro do mesmo mal: o mal de dizer mal. Isto já não é novidade nenhuma para ninguém, devem ter sido escritos volumes sobre este assunto; mas deu-me uma ideia: então e se eu tentasse escrever, digamos, dez posts, apenas dizendo bem de Portugal?

Seria um grande desafio! Dez posts, que não precisam de ser consecutivos, mas que façam todos parte de uma série em que eu me dedique a elogiar uma qualquer faceta do nosso paí­s.

E não vale a pena elogiar Portugal como território… isso seria fácil e pateta demais: ah as praias isto, as montanhas aquilo. Nada dessas pieguices. Terei que encontrar motivos para elogiar uma qualquer faceta do paí­s, enfim, da Nação, sem recorrer ao Sol e aos verdes prados.

Será possí­vel? Stay tuned.

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A promessa de refeições organizadas

Este ano, vai fazer dez anos que me casei e saí­ de casa dos meus pais. Nestes quase dez anos, nunca consegui manter uma rotina alimentar organizada, coisa que a minha mãe sempre fez, sem falha.

Não sei como ela conseguiu, todos aqueles anos, nem sei como continua a conseguir hoje, já sem os filhos em casa.  Mas de certeza que não é fácil.

Eu nunca consegui e a minha gaja é como eu nesse aspecto e também não consegue – e ainda cozinha menos que eu. Passámos anos a comer comida pré-feita, congelada ou de pacote, entremeada com pizza ou chinês e a ocasional refeição cozinhada por nós.

As horas das refeições também sempre foram coisas totalmente aleatórias e a rotina de comer sentado í  mesa nunca existiu; comemos quase sempre sentados no sofá, com tabuleiros, a ver TV.

O problema é que, com o Tiago, as coisas não podem ser assim. Ele tem que comer, sempre, comida “como deve ser” e, de preferência, a horas razoavelmente certas. Porque está ainda a aprender a comer, a conhecer os alimentos e as rotinas, convém que as coisas se vão repetindo de forma organizada, para que haja pouca interferência no processo de aprendizagem.

E é verdade que com o Tiago, as coisas encaixaram imediatamente. Menos, claro, para nós. Connosco, a blabúrdia continua a mesma: chegamos í  hora de jantar e não há nada para comer… é preciso inventar. Um come uma massa 4 Salti qualquer, o outro come ovos mexidos; talvez se faça qualquer coisa com atum.

E agora, que o miúdo começa a olhar para os nossos pratos com curiosidade, começa a aproximar-se a altura da refeição em famí­lia ser instituida. Para comermos todos juntos e todos a mesma coisa í  mesma hora, porque o exemplo é provavelmente a forma mais importante de aprendizagem para ele.

Mas ainda não conseguimos. Acabámos de almoçar, desta vez conseguimos estar todos í  mesa ao mesmo tempo, mas eu comi ovos estrelados com arroz e a Dee acabou uns restos de chinês que estavam no frigorí­fico de ontem í  noite – já que, como não havia jantar, ela foi ao restaurante comprar umas gambas e arroz chao-chao.

A última tentativa que fiz, no final do ano passado, foi o costume: começo por fazer uma lista de refeições que nos agradem aos dois e que, eventualmente o Tiago também possa vir a comer; depois faço uma lista dos ingredientes necessários para cozinhar essas refeiçõesque vamos comprar ao supermercado.

Geralmente, faço a primeira e segunda refeições da lista. Fiz um bacalhau cozido, fiz umas ervilhas com chouriço. Creio que foi aí­ que parou: as ervilhas eram muitas e ficaram para o dia seguinte, o que fez com que já não pensasse essa refeição.

Algures aí­ a meio fomos almoçar fora ou encomendámos pizza, que depois dura mais dois dias, no fim dos quais ainda há o resto das ervilhas… A coisa prolonga-se e nunca mais volto a pensar na tal lista de refeições. Os ingredientes vão ficando no congelador, mas nunca nenhum de nós se lembra de o tirar, para estarem cozinháveis no dia seguinte.

De vez em quando, comemos uns bifes de perú, feitos um bocado í  pressa, já com o Tiago sentado í  mesa a jantar. Hamburgers é também uma coisa sempre í  mão, é só meter na George Foreman e depois dentro de um pão e está a andar.

Muitas vezes jantamos já depois do Tiago estar na cama.

Continuo sem saber como fazer isto para que funcione. Suponho que seja uma das batalhas do dia a dia da maioria das pessoas: ter o frigorí­fico abastecido, organizar as refeições, descongelar comida, cozinhar no próprio dia ou de ante-mão. Mas no que me toca, é uma batalha perdida.

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Dez meses

O Tiago faz hoje dez meses. Está, portanto, a dois de completar um ano de idade e embora possa parecer lugar-comum: ainda me custa a acreditar a velocidade com que o tempo passa.

Agora começa a por-se de pé e a tentar activamente repetir o que dizemos, farta-se de brincar e já goza um bocado; tapa a cara e se nos pusermos a chamar por ele, o fulano ri-se, tipo sacaninha, com a cara tapada, como quem diz “estou aqui escondido e eles não sabem de mim”.

O principal problema neste momento é que ele não cabe no fraldário, nem nada que se pareça: fica com as pernas penduradas, pelos joelhos e nós já não temos onde o despir e vestir e proceder a todo o ritual pré e pós-banho. Penso que teremos que começar a fazer tudo em cima da nossa cama e ver se corre bem.

E pronto, só mais 206 meses até que seja maior de idade!

[tags]tiago,10,meses[/tags]

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Lentidão no coração

Incomoda-me ver as coisas andar devagar; tendo em conta que vivo em Portugal, estou num estado de incómodo quase permanente.

Até compreendo que algumas coisas andem devagar porque não podem andar mais depressa: coisas que até se podiam modernizar, mas não se modernizam porque não há dinheiro, por exemplo. Mas há outras coisas que me deixam sempre a pensar que é só falta de capacidade de pensar um bocadinho mais no assunto.

Há uns anos atrás, foi introduzido em Lisboa um cartão electrónico para circular nos transportes – o Lisboa Viva. Passados alguns meses, esse cartão começou a ser válido na Transtejo.

No entanto, durante algum tempo, foi preciso colar o selinho autocolante no cartão. Porquê? Aparentemente, porque os revisores da TT não tinham como validar o passe e demoraram mais uma molhada de meses a ter aparelhinhos para ler o conteúdo do chip e confirmar que o mesmo se encontra válido.

Fico na dúvida: será que não houve dinheiro para comprar imediatamente os ditos aparelhos? Ou será que alguém se esqueceu do assunto?

Andar com um cartão electrónico onde depois é preciso colar um selo todos os meses é completamente pateta, parece-me. Bem como ter que me dirigir a um guichet para carregar o dito cartão.

Assim que recebi o meu cartão, a primeira coisa que me ocorreu foi: porreiro, acabaram-se as bichas para o passe: com um cartão electrónico, devem haver por aí­ máquinas onde faço o meu carregamento quando me apetecer.

Mas, claro, não havia.

Havia de passar mais um aninho ou dois antes de aparecer máquinas onde eu posso colocar o meu cartão para o carregar, evitando bichas idiotas em frente a guichets estúpidos.

Ainda hoje usei uma das ditas máquinas. Aproximei-me e verifiquei que tinha um slot para colocar o meu passe, o que fiz. O passe foi reconhecido e foi-me dada a opção de o renovar por €22,20.

Primeira tentação é, evidentemente, puxar do cartão de débito. Mas calma, porque as coisas não podem funcionar assim tão depressa e o pagamento por multibanco não se encontra disponí­vel nestas máquinas. Será, certamente, preciso esperar mais uns largos meses.

Peguei então numa nota de 20, mas percebi rapidamente que a máquina não tinha noteiro. Não aceita notas, não aceita MB, mas aceitou o meu passe. Como esperam que eu pague mais de 20 euros? Em moedas?

Desisti dessa máquina que percebi que estava ali apenas para vender bilhetes simples (apesar de aceitar o meu passe), passei í  seguinte. Multibanco também fora de serviço, mas noteiro a funcionar. Só que exige a quantia exacta.

Exigir a quantia exacta para pagamento de passes de transportes públicos é muito pouco prático, mas não dizer completamente idiota. Já me aconteceu não conseguir comprar o passe porque apenas tinha 30 euros na carteira. Por acaso hoje tinha, efectivamente, €22,20, pelo que consegui comprar o passe.

No final, a máquina pede-me que retire o tí­tulo e o recibo… mas não saiu nenhum recibo. Acrescento, como informação importante que, a TT avisa nas estações que o recibo é essencial prova de compra do passe e poderá ser pedido pelo revisor.

Este mês, não tenho recibo.

É claro que, enquanto a TT instalou, há escassos meses, máquinas para carregar cartões electrónicos; e implementou a duração de 30 dias para carregamentos, eliminando a história do passe de cada mês, eu já estou a pensar noutra coisa mais interessante: contas de utilizador online, onde eu posso associar o meu cartão de crédito ao meu tí­tulo de transporte.

Aí­, poderia consultar todas as viagens que fiz e pagá-las convenientemente. Isto seria extremamente prático pelas mais diversas razões: nunca mais precisaria de trocos para pagar bilhetes, máquinas, guichets e bichas. Além disso, com um só cartão, poderia viajar em qualquer transporte, as vezes que me apetecesse, pagando a conta no fim do mês. Poderia ter descontos se adquirisse viagens num qualquer formato pré-pago, etc, etc, etc.

Porque é que eu não hei-de poder meter-me num autocarro, em Lisboa, se me der jeito? Tenho obrigatoriamente que ter dinheiro no bolso e ainda por cima, convém que seja trocado ou perto disso. É uma idiotice, quando eu até tenho, no bolso, um cartão que é aceite pela Carris.

É, no fundo, como a Via Verde. Uma excelente invenção norueguesa, em uso em Portugal desde 1991, é uma ideia extremamente prática que devia ser adaptada o mais rapidamente possí­vel a todos os sistemas em que pessoas e veí­culos tenham que passar por uma cancela.

O sistema existe desde 1988, há 20 anos, e no entanto, além das auto-estradas, é pouco usado: existe nalguns parques de estacionamento, mas não todos e nalguns postos de abastecimento da Galp.

Eu sou grande adepto dos débitos directos e nunca me dei mal com nenhum: pago a electricidade, água, gás, internet e televisão directamente da conta bancária e ainda me custa a crer que haja gente que tenha paciência para ir para lojas, tirar senhas e esperar horas a fio para pagar uma conta.

Mesmo pagar as contas no multibanco é uma seca: é mais fácil esquecermo-nos e deixarmos passar, além de que entope a bicha do multibanco e é extremamente irritante quando alguém quer apenas levantar dinheiro.

Que bom seria, se o meu cartão Lisboa funcionasse como via verde: podia usar os transportes que precisasse e, no fim do mês, a conta era paga sem me chatear.

Mas bem posso esperar mais 20 anos, antes que algo como isto exista, efectivamente. É sempre tudo tão lento…

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Mais uma ida ao pediatra

Hoje foi dia de ida ao pediatra. Consulta dos dez meses, apesar de faltarem 3 dias para que se completem os ditos. Detalhes.

A consulta foi como tem sido nos últimos tempos: entra a berrar, berra o tempo todo, sai calado, mas só depois de eu o vestir e lhe pegar ao colo.

Houve ali uma altura, a meio da sua carreira clí­nica em que decidiu que já não achava piada í quilo. Grita como se o estivesses a torturar e é muito difí­cil estar ali a assistir a tudo aquilo sem poder nem conseguir fazer nada. A mãe lá o consegue acalmar um bocadinho, mas pouco, porque se segue a espátula para ver a garganta ou o otoscópio e ele não gosta mesmo nada.

Está com 8,55 kg., o que não é nada de mais e cai no percentil 25, mas a altura é que é o seu grande forte: 77 cm, o que corresponde ao percentil 90. Nós bem achamos o gajo grande; está mais alto do que alguns putos de um ano de idade.

De resto, tudo no sí­tio, tudo na boa. Vai começar a comer carne de vaca, entre variadí­ssimas outras coisas de onde apenas se excluem o porco e os espinafres que, ao que parece, fazem o cocó ficar muito ácido e o rabo todo lixado. E ninguém quer o rabo lixado.

[tags]tiago, pediatra[/tags]

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