Antes & Depois

O tempo passa e as coisas mudam. Antes, não teria comprado um novo Windows, teria sacado da net (ou mesmo arranjado uma cópia em diskettes, de um amigo). Com um serial gamado, instalava, dava erro, tentava de novo, dava erro, crashava durante a instalação, mudava o hardware, fazia update í  BIOS, passava dois dias de volta disto e a minha cópia piratada do Windows ficava a funcionar.

Agora, compro.

Saco a aplicação que analiza o computador, que diz que sim senhor, posso fazer upgrade para Windows 8. Pago. Faço o download, a instalação começa e falha imediatamente. Leio uns foruns, diz para desligar todas as apps do startup, faço-o, a instalação corre mas no fim, falha novamente.

Desisto, faço restore í  versão anterior e mando um mail í  Microsoft exigindo o meu dinheiro de volta.

Ah e aconselho toda a gente a piratear o Windows 8, se quiserem, não desperdicem dinheiro, já que vão ter que desperdiçar tempo. Ou, provavelmente o melhor: comprem um Mac.

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Porque fui

Ontem, dia 15 de Setembro, fui í  primeira manifestação da minha vida. Imagino que tenha andado por umas durante o PREC, mas não me lembro.

Não fui chamar nomes ao governo, não fui protestar contra a troika, fui, porque simplesmente tinha que ir. Senti-me compelido a ir e aprendi uma coisa, aprendi o valor destes acontecimentos. Quando são assim, organizados por “ninguém”, sem partidos, sem sindicatos, sem uma agenda polí­tica definitiva, são a forma que temos de falar ao paí­s. Nós, cidadãos comuns, não temos tempo de antena, não somos entrevistados por jornalistas no telejornal, não escrevemos editoriais em semanários; nós, cidadãos comuns, não temos outra maneira de passar a nossa mensagem.
Em Lisboa, parece que foram 500 mil pessoas. E eu não gosto muito de pessoas, mas senti-me bem ali. Andámos e pouco mais, deslocámos-nos do ponto A para o ponto B. Alguns gritaram, cantaram, alguns levaram cartazes. Alguns, claro, não perceberão nada do que se passa e acharão que a solução para o paí­s é apenas deixar andar e pronto. Outros estarão mais informados ou terão melhor conhecimento para achar que tem que se fazer algo, mas que esse algo tem que ser outro algo que não o que o governo está a fazer.
Eu fui porque achei que a mensagem tinha que ser grande, tinha que se fazer ouvir e a única maneira para eu contribuir para isso, era ir. E levei um pedaço da mensagem, da minha mensagem. Eu não digo Passos gatuno, governo fora, nem sequer que se lixe a troika. Eu digo chega deste paí­s, chega deste sistema partidário que se governa a si mesmo, antes de governar quem o sustenta.
Para mim, o essencial do que se passa em Portugal, é que fomos longe demais depressa demais. Quisemos demais – estádios, estradas, mega-eventos desportivos e culturais, condomí­nios fechados, carros potentes, férias e mais – quisemos tudo e deixámos que quem mais tinha a ganhar com isso, ganhasse. Que se fizessem contratos brutais, obras inacreditáveis e não só se gastasse o dinheiro necessário para as executar, mas o dobro, o triplo, vinte vezes mais.
Somos, há tempo demais, governados por um punhado de pequenas organizações cujos principais objectivos incluem o bem estar e sucesso pessoal dos seus membros, bem como a entre-ajuda dos mesmos. Organizações, chamadas partidos polí­ticos, que pouco ou nada realmente se importam com os portugueses e que portanto gerem o paí­s dia a dia, sem plano, sem responsabilidade, sem consequências para si próprios. Essas, ficam para nós.
Eu quero um paí­s novo. Quero um paí­s governado por pessoas cujo objectivo seja governar o paí­s para que este tenha sucesso, como se governa uma empresa para que esta seja lucrativa. Quero pessoas que sejam competentes naquilo que fazem, que governem em áreas em que são especialistas e que defendam a sua equipa, nós, perante todas as outras: alemães, holandeses, chineses, seja o que for, troika ou sem troika.
Não fui lá ontem para que o governo caia e eu vote no PS. Não votarei no PS, não votarei no PCP, nem no BE, não votarei nos partidos actualmente no governo e não consigo imaginar, para já, um futuro em que um partido polí­tico volte a receber o meu voto. Eles são o que está errado na liderança do nosso paí­s neste momento e não imagino que outro sistema surja entretanto.
Agora, espero que o governo se aguente, mas que reveja as suas medidas, que pense melhor, que se lembre não só dos mercados e do trabalho dantesco que tem pela frente (que acredito que seja difí­cil), mas dos cidadãos do paí­s que até acho que são malta para aguentar uns tempos se lhes mostrarem que a seguir vem algo melhor, se lhes mostrarem o plano. Onde está o plano? Pedro Passos Coelho, onde está o teu plano de negócios para Portugal?

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Distracções

A Apple e a Samsung têm negócios conjuntos, nomeadamente na produção de hardware dos coreanos para os americanos.

Há algum tempo, a Apple processou a Samsung, por infracção de patentes e esta, por sua vez, contra-processou a primeira mais ou menos pelas mesmas razões.

Esta semana, a Apple ganhou o processo em tribunal e a Samsung promete retaliar.

O plano é perfeito. A Apple e a Samsung acabam de se afirmar como as duas grandes marcas de smartphones e tablets no mercado. Os fãs da Apple ficaram mais fãs ainda, porque podem apoiar-se na decisão do tribunal para provar que a Samsung copiou os seus dispositivos preferidos enquanto que os fãs da Samsung se apoiarão na injustiça do sistema de patentes americano e reforçarão a ideia de que a Apple é fací­nora e se inspira noutros incólume enquanto impede em tribunal que terceiros se inspirem em si.

O mercado fica ainda mais marcadamente dividido entre iDevices e a famí­lia Galaxy. Para ajudar í  festa, não há jornal, site e revista que não exiba, em destaque, magní­ficas fotos de um iPhone ao lado de um Galaxy para ilustrar um artigo sobre o assunto.

Os outros fabricantes dissolvem-se no ruí­do de fundo. LG, Nokia, Sony, HTC, RIM, é como se não existissem.

A Apple e a Samsung saem ambas reforçadas e cada uma reforça a sua posição de mercado e afirmam-se como “as” escolhas para quem quer este tipo de dispositivo, deixando os outros nas covas. E tudo isto com dezenas de milhar de palavras em publicações da especialidade e da generalidade: marketing grátis.

Genial e imbatí­vel.

Eu, que já fiz a minha escolha há uns tempos, fico aqui a comer pipocas, já que nem um nem outro me pagam para vender os seus produtos.

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Michelle

Por volta do fim do Verão de 1992, saí­ de casa para ir buscar a minha namorada e ouvi miar insistentemente. Quando voltei com ela, os miados continuavam e tentámos perceber do que se tratava.

Era uma gata minúscula, enfiada na suspensão de um carro. Uma outra rapariga que passava enfiou as mãos lá dentro e tirou-a, entregando-ma. Aquele momento em que podia ter deixado a gata na rua ou tomado a decisão que acabei por tomar, marcou os 20 anos seguintes da minha vida.

A Michelle tinha pulgas. Muitas pulgas. Há um ví­deo da famí­lia toda de volta dela, a catá-la. Um video feito com uma camcorder do tamanho de um autocarro, foi há muitos anos, eu tinha 19, vivia com os meus pais e durante os cinco anos que ainda vivi com os meus pais depois disso, a Michelle dormiu comigo todas as noites.

Depois saí­ de casa e a Michelle foi comigo. Entretanto, tornou-se uma de seis gatos na nossa casa, mas foi sempre a Michelle. Era a mais inteligente deles todos e mesmo quando começou a envelhecer, ainda impunha respeito nos mais jovens.

Nos últimos dois ou três anos a Michelle envelheceu marcadamente. Perdeu toda a gordura e muita massa muscular; o pêlo perdeu parte da suavidade e um sacana de um pólipo com que já lidava há muito tempo, num ouvido, proporcionou-lhe otites atrás de otites incomodativas.

Desenvolveu uma insuficiência renal, problema tí­pico nos gatos. Durante umas semanas, dei-lhe medicação diária e injectei-a subcutaneamente com soro. Até que desisti. Achei que a Michelle já não ia viver muito tempo e que aquela meia-hora diária de agulha espetada nas costas, com ela a tentar fugir, a agulha a soltar-se e eu a ter que voltar a espetar, na esperança de lhe melhorar a qualidade de vida, estava na verdade a piorar-lhe a qualidade de vida.

Aceitei que ela não duraria muito mais, mas que as injecções de soro eram pior desconforto do que simplesmente deixá-la em paz.

Acho que fiz bem. Mas contra todas as expectativas, a Michelle viveu mais dois anos. E esteve bem, activa, reivindicativa. Entretanto mudámos de casa e ela rapidamente aprendeu o padrão de exposição solar. De manhã, por volta das 10 já estava encostada ao muro do terraço, porque sabia que o sol não tardava muito a bater ali.

No fim de semana passado, notámos que a Michelle estava muito prostrada. Apesar de já estar muito, muito velha, com um aspecto muito degradado, a verdade é que ainda assim notámos que estava pior.

Fizemos-lhe uma cama e um caixote afastada dos outros, na cozinha e foi onde passou os últimos dias. Tal como a nossa velhota gata, Pantufa, que morreu com 16 anos, a Michelle desistiu ao fim de dois dias e simplesmente ficou deitada, recusou comida e água e morreu durante a noite de quinta, para sexta-feira, 27 de Julho. Calculamos que teria acabado de completar 20 anos, ou estaria perto disso, o que é uma longa vida para um gato. Gosto de pensar que foi uma vida longa e feliz.

A última foto que tirei da Michelle, mesmo quando começámos a notar que estava a ir-se abaixo.

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Estado da Nação

Será muito difí­cil formar um Governo? Encontrar as pessoas certas para os lugares certos, que não se importem de tirar 4 anos das suas vidas para fazer um bom trabalho numa área especí­fica? E mais: será muito complicado escrever um programa de Governo?

Tenho a certeza de que não é fácil governar, especialmente em paí­ses como Portugal, onde mesmo quando se fala para uma plateia e se diz “tenho esta ideia, acham bem ou mal?”, ninguém diz nada ou aplaudem. Mas depois, nos cafés, toda a gente tem algo a dizer e poucos aplausos para dar.

E eu sou daqueles que acha que os polí­ticos não são bem pagos. Não são. Se fossem, não roubavam, não passavam legislaturas inteiras a tratar do seu futuro em administrações de empresas, para ganharem muito bem e recuperarem o dinheiro perdido no tempo em que foram ministros.

Há algum tempo que defendo a ideia de que o paí­s não precisa de um Primeiro Ministro e um Governo, mas de um CEO e um Conselho de Administração. Executivos altamente bem pagos, com motivação para fazerem um bom trabalho, ou serem despedidos pelos accionistas (nós, claro).

Funciona muito bem em muitas empresas, acho que podia funcionar para um paí­s. E pensem bem: se o CA de Portugal fosse extremamente eficiente a gerir o nosso capital, não seria de todo um desperdí­cio de dinheiro, pagar-lhes bons salários, equiparáveis aos que ganhariam na iniciativa privada. Em vez de Presidente da República, terí­amos um Chairman of the Board.

Um paí­s não devia ser particularmente difí­cil de organizar, é preciso recolher algum dinheiro de toda a gente para fazer obras e fornecer serviços que beneficiem todos; deve apoiar-se quem deseja fazer negócio que gere riqueza e emprego e quem tenha a iniciativa de vender para o exterior e deve proteger-se quem não tem capacidade de se manter a si próprio, por não poder ou conseguir ganhar dinheiro (trabalhando, ou de outra forma). Deve ter-se cuidado para não sobre-taxar em quem não tem mais do que dinheiro para sobreviver durante duas semanas ou dois meses, sem também se taxar exageradamente quem tem mais dinheiro, ao ponto de os tentar a levar o dito para fora do paí­s (dica: mais vale receber 10% de muito dinheiro, do que 40% de dinheiro nenhum porque foi tudo para uma off-shore).

Não tenho opinião definitiva sobre o fornecimento de alguns serviços: há quem se insurja contra a EDP ser privatizada, mas hoje o acesso í  Internet é fornecido por empresas privadas e ninguém se preocupa. E se estão a pensar que a electricidade é essencial e a Internet não, esperem uns anos (e já não vão ser precisos muitos).

Outras coisas, como água, que é, efectivamente, um elemento essencial í  sobrevivência, já acho que deve haver controlo do Estado.

Mas lá está, basta aplicar bom senso: água, faz sentido, os humanos dependem dela para viver; estradas, pontes e transportes diversos fazem sentido porque são centrais í  Economia; saúde e educação de qualidade e gratuitas fazem sentido, porque uma população bem educada e saudável é mais produtiva; apoio í  maternidade faz todo o sentido, porque uma população rejuvenescida é mais activa; protecção do património e História nacionais faz sentido, porque são parte da nossa identidade.

E quando digo que faz sentido, nem defendo que tudo isto seja Nacional a 100%, algumas coisas podem ser, outras podem ser contratadas pelo Estado a empresas privadas. O erro não está nos contratos e nas parcerias, está na forma como os mesmos estão feitos e são geridos.

Depois de fornecer um bom apoio aos cidadãos, segurança, saúde, educação, formas de se deslocarem e exercerem as suas actividades para bem de todos, o Estado deve deixar as pessoas em paz. E as pessoas devem parar de exigir tudo ao Estado. É uma relação co-dependente que está ultrapassada e tem que acabar.

O Estado mete o nariz em tudo, com licenças, normas, coimas, impostos, verificações e taxas, poder central, poder regional, poder local e os cidadãos olham sempre para o Estado quando uma coisa corre mal: querem imputar-lhe culpa, querem subsí­dios, querem apoios, querem condições e ajudas.

Isto são ideias simples, talvez mesmo simplistas. Fazer um programa de Governo e um plano de governação é infinintamente mais complexo, não tenho dúvidas, mas í s vezes, quando olho para o estado da Nação, gosto de fantasiar que é fácil e nessa fantasia, imagino-me a fazê-lo nem que seja apenas para mostrar que, afinal, é possí­vel.

 

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