iTunes Match

Há uns anos atrás, participei numas sessões de brainstorming e quando chegou a minha vez de mandar uns bitaites disse que o que eu queria era um sistema que me permitisse ter a minha música toda num servidor, permitindo-me depois ouvi-la em qualquer lugar, através de computadores ligados í  net, ou mesmo, talvez no telemóvel. Na altura, não existiam iPhones, nem iPads, nem nada disso.

Não quero com isto dizer que eu já tinha inventado o iTunes Match, quero apenas dizer que há muito tempo queria um serviço assim. Como, desconfio, a maioria das pessoas que cruzam um amor por gadgets com um amor por música. A ideia era, portanto, óbvia, mas a execução nem tanto.

Passaram os anos necessários, evoluí­ram as coisas que tinham que evoluir e agora há inúmeros serviços que permitem ouvir música online em streaming e há o iTunes Match, para quem preza a sua colecção de música acima de tudo.
O serviço chegou há cerca de uma semana a Portugal e eu aderi imediatamente. Custa 25 euros por ano e tem um limite de 25 mil músicas.

O processo é muito simples, desde que não corra mal (e pode correr, mas há soluções): Activa-se o serviço, para o que é necessária uma conta na iTunes Store. Paga-se os 25 euros que são renováveis automaticamente ao fim de um ano, sendo que se tem 24 horas antes da renovação para cancelar a subscrição. E o iTunes começa o processo: primeiro lê toda a biblioteca de música (meloteca?), e analisa-a – creio que usa o algoritmo do Genius – depois, envia os resultados para a Apple e compara-os com a música que existe na Store, finalmente faz o Match e termina fazendo upload das músicas que não sejam identificadas.

O resultado final é o seguinte:

  • Música que exista na Store fica disponí­vel no iCloud para ouvir em qualquer Apple device, iOS ou Mac OS, até um limite de 10 aparelhos (devidamente identificados com o login que fez o Match);
  • Música que não exista na iTunes Store, é carregada para o iCloud e fica igualmente disponí­vel;
  • Música muito curta (menos de 5 segundos, creio), ou codificada com um bitrate muito baixo ou variável (VBR), poderá ficar “ineligible”; alguns destes casos são solúveis (já lá vamos).

Vantagens

O serviço tem, para mim, três grandes vantagens:

Consolidação das minhas colecções de música.

Durante anos, geri duas colecções, uma em casa e outra no escritório, o que era uma trabalheira e acarretava sempre a frustração de me apetecer ouvir determinado álbum que acabava por constatar não estar na colecção presente, mas sim na outra.

Com o Match, passei a ter uma só colecção e agora posso dedicar-me a organizá-la e saber que as alterações se reflectem em todo o lado.

Substituição de velhos ficheiros de menor qualidade por versões legais em AAC a 256 kb

Quer seja música ripada doa nossos próprios CDs que já o foram há muitos anos, quando o armazenamento não se media em gigabytes e quando optar por 128 kb era uma questão de gestão desse espaço, quer sejam versões sacadas da net e codificadas por sabe-se lá quem e com que configurações, a verdade é que, tirando os tarados do FLAC, muita gente tem muita música codificada com pouca qualidade e/ou de origem duvidosa.

Com o Match é simples: nas opções de view, liga-se o ‘iCloud Status’ e ficamos com uma coluna que nos diz se a música está matched ou uploaded (e mais uns estados, já lá vamos). Uploaded significa que a faixa não existe na Store ou não foi identificada e por isso, o iTunes fez upload da mesma para o iCloud.

Matched é o que nos interessa. Isto significa que a faixa existe na Store e, como tal, podemos obter a versão oficial de 256 kb. Para isso, basta fazer delete da faixa no iTunes, evidentemente deixando desmarcada a checkbox que pergunta se também queremos apagá-la do iCloud. Depois dizemos que queremos apagar o ficheiro.

A faixa fica no iTunes, mas já não está no disco. Em vez disso, está no iCloud e surge com um í­cone de download í  frente. Click nesse í­cone e já está: a faixa fica do nosso lado. Podemos cancelar o serviço que as faixas assim obtidas continuam a ser nossas. Atenção í  tentação de partilhar estas faixas: o nosso nome e email ficam nas meta tags.

Só para ser absolutamente claro: sim, isto significa que, por 25 euros por ano, podemos legalizar toda a música pirata que possamos eventualmente ter no nosso disco e que tenha correspondência na iTunes Store. Eu não tenho música pirata, mas tenho amigos que têm e isso é com cada um.

Portabilidade da minha colecção de música

Esta última vantagem tem-se mostrado algo escorregadia. É, de facto, uma vantagem: no iPad, tenho zero espaço ocupado com música e no entanto, tenho acesso a mais de 13 mil faixas da minha colecção privada. Como estou em Wi-Fi, posso por música a tocar quando e onde me apetecer, a mesma é lida do iCloud e tocada no meu dispositivo numa de duas versões: se é ‘Matched’, toca a versão 256 kbit original da Store, se é ‘uploaded’, toca a versão que foi enviada para os servidores da Apple pelo Match.

A parte escorregadia tem sido no iPhone quando quero desligar a rede para não consumir o meu plano de dados. Basicamente, escolho uma playlist e faço “download all” em Wi-Fi, depois, nas opções do Match, desligo o ‘use cellular network’ e o ‘show all songs’ e fico apenas com as faixas de que fiz download visí­veis na app de música. No entanto, não sei porquê, muitas vezes a app de música engasga completamente e pára de tocar. Isto acontece, sobretudo, quando tenho o iPhone montado no carro. Parece-me que, embora a app esconda a música que só está no iCloud, na verdade, mostra a música toda ao auto-rádio e depois tenta tocar alguma da música que não está no dispositivo e, como não tem rede, morre.

Com as opções de rede e mostrar toda a música ligadas, o Match funciona na perfeição no iPhone, desde que haja rede 3G. Tal como no Wi-Fi, toda a colecção de música fica disponí­vel para ouvir no telefone em qualquer lugar. Mas, claro, consome dados móveis.

Como prezo muito a música durante as minhas viagens de transportes públicos, desisti de usar o Match no iPhone e voltei ao velho método de fazer sync de uma playlist especí­fica para o dispositivo, para ouvir offline.

Espero que isto venha a ser melhorado para voltar a usar no iPhone. Até lá, entre o computador do escritório e o de casa, bem como o iPad, o iTunes Match está a valer cada cêntimo dos 25 euros por ano que se pagam. Com a grande vantagem de que, se me apetecer desistir, ainda fico com as versões de melhor qualidade de muita da minha música.

Algumas dicas

Crash do iTunes durante o Match

No Mac, o Match correu muito bem, mas no Windows, onde tinha uma colecção de música mais antiga, com vários ficheiros “estranhos”, a coisa correu pior. O iTunes ficava a mastigar durante horas e depois crashava, obrigando a recomeçar o processo do iní­cio. Este problema é reportado por várias pessoas nos fóruns da Apple, quer em Windows, quer em Mac, pelo que é mesmo uma dificuldade do Match a lidar com alguns ficheiros.

O problema é saber que ficheiros. No meu caso, resolvi o problema fazendo o seguinte: corri o iTunes várias vezes, começando o processo de Match do iní­cio de cada vez que havia um crash. De cada vez que corria, o Match lá fazia upload de mais umas quantas das minhas faixas que não tinham correspondência com a Store. Com muita paciência, repeti este processo ao longo de um fim de semana e de cada vez faltavam menos faixas. Até que chegou a um ponto em que só faltavam 7 faixas e o iTunes não passava dali.

Nessa altura, matei o iTunes, corri de novo o Match (o processo corre sempre todo desde o iní­cio, o que é uma seca), mas interrompi-o, mesmo quando estava prestes a começar o passo 3 – upload. É uma questão de atenção e rapidez no click, mas eu consegui í  primeira.

O Match pára, mas a colecção de música fica classificada. Vai-se então a view > view options e liga-se a coluna ‘iCloud Status’, ordena-se a música por esta coluna e vai-se í  procura das faixas que dizem error. No meu caso, tinha um mix de dubstep com uma 1h25m. Como era um mix de um álbum que tinha em faixas separadas, apaguei-a e pronto. Daí­ para a frente o Match ficou ligado no iTunes sem mais problemas.

Ineligible Tracks e faixas que deviam ser Matched, mas estão uploaded

Algumas faixas não serão aceites pelo Match e ficarão marcadas como Ineligible. Na esmagadora maioria dos casos, isto deve-se a um bitrate muito baixo ou a VBR (variable bit rate). A solução é simples: converte-se a faixa para um AAC de 128 kb, ficando-se assim com duas versões da mesma faixa, depois, apaga-se a original e na nova versão, right-click > add to iCloud. Muitas vezes, o primeiro resultado é que o iCloud Status fica ‘removed’, mas repetindo o add to iCloud, das duas uma: ou passa a uploaded, ou matched. Se for matched, podemos novamente apagar a faixa de 128 kbit e, como descrevi acima, fazer download da versão 256.

Finalmente, no meio de alguns álbuns, notarão que está tudo matched, menos uma faixa ou duas. Este é conhecido como o Bathroom Window bug, já que um caso facilmente reproduzí­vel por muita gente é no álbum Abbey Road, dos Beatles, em que todo o álbum é matched, mas a faixa She Came In Through The Bathroom Window é uploaded.

Ainda não se conhece solução para este problema, que acontece com a maioria – mas não todas – as cópias deste disco.

Em suma: para quem tem música espalhada por vários sí­tios e gosta de ter uma biblioteca bem organizada, para quem gosta de ouvir a mesma música em todo o lado e tem vários dispositivos iOS e/ou iTunes, o iTunes Match vale a pena.

Para quem tem pouca música, ou apenas um dispositivo com iTunes ou quem prefere um serviço de subscrição de música tipo rádio – como o Music Box – apologies to @celso :), ou para quem tenha mais de 25 mil músicas que pretenda sincronizar (thanks, Eduardo), o iTunes Match não vale a pena.

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18 comentários a “iTunes Match”

      1. Se tentares avisa, que é coisa que ainda não consegui descobrir sobre o Match… Gosto de poder fazer sync de podcasts ou alguma coisa nova no trabalho e em casa synco TV Shows… Tenho o iTunes todo syncado pelo Dropbox.

        1. Hum, quando tento fazer sync, ele avisa-me logo que me vai apagar o iPhone e substituir pelo conteúdo deste iTunes. Embora, teoricamente, esteja tudo in sync, não me apetece arriscar ficar sem sem as minhas apps que estão todas organizadinhas.

  1. Para além dos “tarados do FLAC” entre os quais me incluo (embora no meu caso seja tarado do ALAC (Apple Lossless), há mais gente para quem o serviço não serve. Os que têm mais de 25000 músicas. Eu tenho o dobro disso

  2. Ainda há o Google Music. Que no fundo faz quase tudo isto com um limite de 20.000 músicas e… FREE :) A grande diferença é o sincronismo bilateral (passe a redundância)

  3. ehehehe li o post todo (não significa que o tenha percebido todo), mas logo aloi ao princí­pio percebi que não era serviço que me interessasse….. só no fim vim a referência ao Eduardo. E para quem tem mais de 25.000 músicas?

    É que 25.000 músicas, nos dias que correm (maior produção, maior capacidade de aquisição) não é assim tão difí­cil de ter.

    Eu acho que a tua geração (vá, mais uma, abaixo da tua) ainda adoptaá este tipo de serviços, mas a miudagem prefere as vantagens de serviços como o Spotify ou o Music Box (assim que tenham tempo para os compreender).

    1. :-) gostas muito de me tratar por “a tua geração”, como se tivéssemos 10 anos de diferença.

      O Match e o Spotify ou Musicbox são coisas completamente diferentes, é como comparar um iPad com um Kindle. Sim, dão ambos para ler livros, mas não são o mesmo tipo de dispositivo.

      Quanto í s 25 mil músicas, permite-me discordar, mas ainda só me cruzei com duas pessoas cujo problema era terem mais de 25 mil músicas.

      Eu tenho discografias inteiras, de vários artistas, de várias épocas e tenho 13 mil. Claro que não tenho todos os meus CDs ripados, mas sinceramente, quem é que ouve 50 mil músicas?

      E sou capaz de apostar que as gerações mais jovens ainda menos música têm.

      1. “quem é que ouve 50 mil músicas”

        Ninguém. Eu não ouvi ainda as minhas 50000. Tenho uma playlist das que me apetece ouvir e essa playlist muda com muita frequência. Quantas vezes não fui buscar ao baú (leia-se long tail das 50000) coisas que já não me lembrava e que por uma razão ou outra redescobri. Não digo que venha a ouvir todas mas elas estão lá por alguma razão.
        O argumento do “quem ouve 50.000 músicas” aplica-se a 13.000, 10.000, 5000 right? :)

        1. Sim, claro que sim. Bom, se calhar passei a ideia que recomendo o Match a toda a gente, mas nem é o caso. Para mim é muito bom, diria que se ajusta na perfeição í s minhas necessidades, mas não é um serviço para toda a gente. Aliás, basta teres uma colecção de música ripada e organizada por ti para o Match já não ter servir para nada.
          Mas kudos pelas 50 mil. Eu considero-me apreciador de música e acho que mesmo que ripasse os meus CDs todos, não chegava a 50k.

  4. Os mais novos têm menos música porque têm necesidades diferentes. Para eles a posse da coisa não tem tanta importância como para nós. Para eles é mais importante o usufruto.

    E nós somos de gerações diferentes, independentemente da idade. Não vimos os mesmos desenhos animados quando éramos miúdos, e não ouvimos a mesma música na adolescência :)