Há 37 anos que Almada é governada por comunistas. É o Concelho vermelho. Desde o 25 de Abril que Maria Emília de Sousa é Presidente da Câmara.
Claro que o PCP nunca vai a votos. É, aliás, algo que nunca percebi: o PC parece precisar de se esconder em coligações e alianças – a boa e velha APU e a mais recente CDU. Ah e tal, os Verdes.
Mas adiante. Que Almada é um Concelho comuna, toda a gente sabe e eu agradeço. Agradeço porque a par da União Soviética, Almada é um grande exemplo de como o comunismo não funciona.
Uma vez alguém me disse que a corrupção não era muito grave nas Autarquias, que apenas existia nas Câmaras com departamentos de planeamento urbano. Claro que era um comentário sardónico: todas as Câmaras têm um departamento de planeamento urbano.
Acrescento agora eu que esse departamento poderá cair fora de moda com a criação dessas magníficas entidades que são as empresas de estacionamento.
Os Lisboetas e quem trabalha na Capital já há muito que se habituaram í EMEL, mas os Almadenses apenas há pouco tempo começaram a ter que lidar com a sua congénere da Margem Sul: a ECALMA.
A Câmara de Almada montou na cidade (talvez no Concelho, não conheço a realidade das outras cidades), uma das melhores golpadas da História, nos últimos cinco anos.
Comunistas, preocupadíssimos com o Povo e com os trabalhadores, espalhando pelo Concelho cartazes que acusam que o Orçamento do Estado é “um roubo!” do Governo, os Autarcas de Almada conseguiram, efectivamente, privatizar a grande maioria do espaço público da cidade, pondo todos os habitantes de Almada de joelhos perante a todo-poderosa ECALMA.
Com a grandiosa obra do Metro de Superfície, eliminou-se uma quantidade tão grande de lugares de estacionamento na cidade, que me é difícil fazer contas de cabeça para tentar dar uma estimativa da percentagem que desapareceu.
A esmagadora maioria das zonas de estacionamento que sobraram, foram convertidas em zonas de estacionamento exclusivas para residentes ou zonas de parquímetro.
A ECALMA “construiu” ainda parques e explora outros que já existiam. Pagos, claro.
Como eu disse, isto é perfeitamente comparável a uma enorme privatização de praticamente todo o estacionamento existente nas ruas de Almada.
Circular em Almada ficou extremamente dificultado com a introdução do Metro, qualquer Almadense poderá atestar isso mesmo; além disso, é também extremamente difícil estacionar.
O que me leva ao ponto seguinte: o dístico de residente.
Como recentemente me mudei e deixei de ter garagem por perto, chegou a hora de obter um cartão de residente para estacionar na minha zona. Bom, na verdade, deveria dizer na minha UOGEC. Sim, UOGEC – Unidade Operativa de Gestão do Estacionamento e da Circulação.
Sim, meus amigos, a Câmara de Almada chama Unidade Operativa de Gestão do Estacionamento e da Circulação a uma porcaria de um conjunto de ruas e bairros onde se passa e estacionam carros. Esta é apenas a ponta do iceberg que é a burocracia impenetrável da ECALMA uma empresa que existe, não tenho dúvidas, para nada mais do que sugar dinheiro aos Almadenses e aumentar a receita da CMA.
Fui um destes dias de manhã a Lisboa renovar a minha carta de condução para que dela constasse a minha nova morada e depois dirigi-me í ECALMA para obter um dístico de residente.
Levei o Cartão de Cidadão – um método de identificação com assinatura digital que prova a minha morada e a minha identidade – a minha carta de condução, que prova que estou habilitado a conduzir um veículo automóvel e o registo do automóvel, que prova que o mesmo me pertence.
Parece-me suficiente. Até me parece excessivo – não precisaria da carta de condução, já que o veículo poderia pertencer-me, mas ser conduzido por outrém.
Assim, o título de propriedade do veículo provaria que ele existe e está em meu nome e o meu cartão de cidadão identifica-me e contém a minha morada.
Dois documentos.
Sabem quantos documentos são precisos?
Oito.
O cartão de cidadão ou BI, o título de propriedade do carro, o seguro do carro, o selo do carro, o certificado de inspecção do carro, uma carta das finanças ou declaração de domícilio fiscal, cartão de eleitor e a carta de condução.
Oito.
Todos os documentos devem ter a nova morada. Eu repito: todos.
O meu pedido foi imediatamente recusado porque o título de propriedade do carro não tem ainda a morada certa. Embora o Cartão de Cidadão tenha a morada certa, a ECALMA não dispõe de leitor de cartões. Eu tenho um, comprei-o, nem foi caro. Mas a ECALMA não tem um. O mesmo se aplica ao cartão de eleitor, claro.
Conveniente.
A carta de condução tem a morada actualizada, a carta das finanças tem a morada actualizada, mas isso não chega. Ah e, claro, não levei o selo, o seguro, nem o certificado de inspecção porque não consigo conceber sequer em que situação qualquer desses documentos seria necessário para eu obter um cartão para poder estacionar perto de casa.
Pedi í senhora da ECALMA que então me passasse uma declaração provisória que me permitisse estacionar (lembrem-se, fiz prova da morada e de titularidade do veículo, não era um pedido í toa), o que me foi negado.
Pedi então que me sugerissem onde estacionar. “Fora da zona de residentes”.
Repeti: então onde sugerem que estacione?
É que com a cidade completamente loteada pela ECALMA, estacionar fora da zona de residentes significa pagar para estacionar numa zona de parquímetros – explorados pela ECALMA – ou num de vários parques explorados (nem todos, mas…), pela ECALMA, claro.
Para ter um lugar para estacionar perto da minha casa – e eu nem sou dos paranóicos que tem que ter o carro í porta, não me importo de andar um bocadinho a pé – tenho que apresentar sete documentos, em condições de actualização específicas e, claro, pagar.
O cartão é renovável, mediante pagamento, todos os anos.
A ECALMA não me fornece um dístico temporário enquanto trato da papelada depois de ter acabado de me mudar, mas certamente que para me multar, não hesitarão, í primeira oportunidade. Como tratar de actualizar os documentos leva tempo tenho três hipóteses apenas: vendo o carro e passo a andar exclusivamente a pé, servindo-me do Metro do qual já fui passageiro e que tem um serviço tão execrável, que desisti; estaciono no parque do Pingo Doce, pagando 70 euros por mês desnecessariamente porque na zona onde vivo até há lugares para estacionar; ou estaciono ilegalmente.
Passando na minha rua, percebe-se bem a realidade: apenas cerca de 50% dos carros tem dístico de residente. De vez em quando alguém é multado (eu como até agora saio de manhã cedo e volto í noite, ainda não fui), mas é de vez em quando e ao acaso.
A ECALMA não ajuda a melhorar a circulação na cidade, nem a eliminar estacionamento abusivo. São capazes de multar malta perfeitamente bem estacionada, porque estão numa zona de residentes sem dístico (e olhem, se calhar até vivem ali í frente!), mas na zona onde vivia, em Cacilhas, diariamente vários carros bloqueavam a passagem em várias pracetas sem qualquer intervenção deste magnífico orgão regulador.
No escritório da ECALMA vi pessoas a agir como se de vassalos se tratassem. Pedem desculpa, solicitam esclarecimento, dizem que já colocaram no tablier o papel X com a as alíneas A e B sublinhadas a vermelho, lamentam não saber que o dístico tem que estar a 15 cm da margem inferior do pára-brisas e sacam da carteira para pagar a multinha.
Quando percebi que não ia ter direito ao meu dístico, olhei para a senhora que estava a ser atendida ao meu lado e que percebi já não ser a primeira vez que lá ia, que me devolveu um sorriso e um encolher de ombros resignado.
They say jump. We ask: “how high?”
