Durante muitos anos senti-me algo excluído: sempre fui um dos poucos que nunca partiu a cabeça.
Todos os miúdos contavam as suas histórias sobre partir a cabeça: fiz isto e aquilo e parti a cabeça, caí da bicicleta e parti a cabeça, já parti a cabeça três vezes.
E eu espantadíssimo… porra, é que a cabeça é rija! E como se não bastasse, uma fractura no crâneo não é uma brincadeira, lá está, de crianças. O que andavam a fazer todos estes putos para rachar a moleira a torto e a direito?
Depois de crescer, deixaram de ser as crianças com as histórias de cabeças partidas e passaram a ser os adultos: uns que contavam as suas próprias histórias e outros que falavam dos filhos: O Vicentinho lá partiu a cabeça, a Maria partiu a cabeça outra vez, aquela miúda põe-me doida!
Evidentemente, o ingénuo era eu. E fui-o durante muitos anos e só ao presenciar uma cabeça partida, há uns tempos atrás, me apercebi da verdade.
Pumba, lá foi o puto, de testa ao chão! “Já partiste a cabeça, Cristiano!”, exclamou o papá.
Era, como é evidente, um arranhão, uma ferida. Por vezes um lanho, quem sabe necessitando de alguns pontos, mas nunca, como é evidente, uma cabeça partida. Aprendi então, recentemente, que em Portugal, qualquer ferida ou golpe no corpo é… uma ferida ou um corte; mas na cabeça é uma fractura.
E assim sendo, com a cicatriz na sobrancelha para o provar e tudo… EU Jí PARTI A CABEí‡A!