Este ano, vai fazer dez anos que me casei e saí de casa dos meus pais. Nestes quase dez anos, nunca consegui manter uma rotina alimentar organizada, coisa que a minha mãe sempre fez, sem falha.
Não sei como ela conseguiu, todos aqueles anos, nem sei como continua a conseguir hoje, já sem os filhos em casa. Mas de certeza que não é fácil.
Eu nunca consegui e a minha gaja é como eu nesse aspecto e também não consegue – e ainda cozinha menos que eu. Passámos anos a comer comida pré-feita, congelada ou de pacote, entremeada com pizza ou chinês e a ocasional refeição cozinhada por nós.
As horas das refeições também sempre foram coisas totalmente aleatórias e a rotina de comer sentado í mesa nunca existiu; comemos quase sempre sentados no sofá, com tabuleiros, a ver TV.
O problema é que, com o Tiago, as coisas não podem ser assim. Ele tem que comer, sempre, comida “como deve ser” e, de preferência, a horas razoavelmente certas. Porque está ainda a aprender a comer, a conhecer os alimentos e as rotinas, convém que as coisas se vão repetindo de forma organizada, para que haja pouca interferência no processo de aprendizagem.
E é verdade que com o Tiago, as coisas encaixaram imediatamente. Menos, claro, para nós. Connosco, a blabúrdia continua a mesma: chegamos í hora de jantar e não há nada para comer… é preciso inventar. Um come uma massa 4 Salti qualquer, o outro come ovos mexidos; talvez se faça qualquer coisa com atum.
E agora, que o miúdo começa a olhar para os nossos pratos com curiosidade, começa a aproximar-se a altura da refeição em família ser instituida. Para comermos todos juntos e todos a mesma coisa í mesma hora, porque o exemplo é provavelmente a forma mais importante de aprendizagem para ele.
Mas ainda não conseguimos. Acabámos de almoçar, desta vez conseguimos estar todos í mesa ao mesmo tempo, mas eu comi ovos estrelados com arroz e a Dee acabou uns restos de chinês que estavam no frigorífico de ontem í noite – já que, como não havia jantar, ela foi ao restaurante comprar umas gambas e arroz chao-chao.
A última tentativa que fiz, no final do ano passado, foi o costume: começo por fazer uma lista de refeições que nos agradem aos dois e que, eventualmente o Tiago também possa vir a comer; depois faço uma lista dos ingredientes necessários para cozinhar essas refeiçõesque vamos comprar ao supermercado.
Geralmente, faço a primeira e segunda refeições da lista. Fiz um bacalhau cozido, fiz umas ervilhas com chouriço. Creio que foi aí que parou: as ervilhas eram muitas e ficaram para o dia seguinte, o que fez com que já não pensasse essa refeição.
Algures aí a meio fomos almoçar fora ou encomendámos pizza, que depois dura mais dois dias, no fim dos quais ainda há o resto das ervilhas… A coisa prolonga-se e nunca mais volto a pensar na tal lista de refeições. Os ingredientes vão ficando no congelador, mas nunca nenhum de nós se lembra de o tirar, para estarem cozinháveis no dia seguinte.
De vez em quando, comemos uns bifes de perú, feitos um bocado í pressa, já com o Tiago sentado í mesa a jantar. Hamburgers é também uma coisa sempre í mão, é só meter na George Foreman e depois dentro de um pão e está a andar.
Muitas vezes jantamos já depois do Tiago estar na cama.
Continuo sem saber como fazer isto para que funcione. Suponho que seja uma das batalhas do dia a dia da maioria das pessoas: ter o frigorífico abastecido, organizar as refeições, descongelar comida, cozinhar no próprio dia ou de ante-mão. Mas no que me toca, é uma batalha perdida.