Doomed

Há cerca de 12 anos atrás, joguei um jogo absolutamente fantástico de uma assentada só. Depois de sete ou oito (ou mais?), horas a jogar sem parar, saí­ para passear o cão e senti-me tonto e um pouco fora da realidade… ao fim de cinco minutos na rua estava mal disposto.

O jogo chamava-se Doom e era a nova produção da id Software, a empresa que nos dizia “get psyched” antes de cada novo ní­vel do pioneiro Wolfenstein 3D. O jogo passava-se em Phobos e Deimos, numa base de pesquisa onde algo tinha corrido mal com experiências envolvendo teletransporte.

Em resumo, os cientistas tinham aberto um portal para o inferno e as mais variadas criaturas monstruosas populavam agora a base da United Aerospace Corporation, ombro a ombro com os zombies dos ex-guardas de segurança. O ano era 1993 e depois de jogar e re-jogar o Doom e, mais tarde, Doom II: Hell on Earth, comecei a ter cada vez mais convicção que os jogos podiam dar um excelente filme de ficção cientí­fica.

Doze anos depois, estreou nos cinemas o filme “Doom”. Não graças a mim, mas muito provavelmente, graças a muitas pessoas como eu no mundo inteiro que se tornaram fans incondicionais, não só de Doom, como da id software que, lado a lado com a Valve, continua a ser a melhor produtora de first person shooters do mercado, com a vantagem de ter introduzido o género.

Fui ver o filme.

Esse foi o meu primeiro erro.

O filme não é mau… é péssimo. Tirando a (curtí­ssima), sequência passada na primeira pessoa, que é original e transporta algum do sabor do jogo para o cinema, quase nada se aproveita.

Spoilers ahead.

O filme é baseado na série Doom, mais especificamente no último e absolutamente fantástico jogo da série: Doom III, mas ninguém diria… Uma das caracterí­sticas do jogo que qualquer pessoa nota imediatamente é a solidão do marine que tem que percorrer dezenas, senão centenas, de salas e corredores, em busca da vitória final sem qualquer ajuda. No filme, os produtores optaram por uma equipa de marines. OK… não digo que não seja um ponto discutivel… para o filme, um só personagem arrastando-se por corredores infinitos poderia perder o interesse, mas de que serve então uma equipa de marines que praticamente não faz nada o filme inteiro? Não percebi o que eles estavam lá a fazer.

Mas o mais importante não é nada disto… poderia perder-me em pormenores infinitos que não são importantes e que poderiam ter sido alterados para que o filme funcionasse melhor. Afinal, trata-se de uma adaptação e se o que queremos é o jogo então… mais vale ficar em casa a jogar.

O problema é que a base de toda a premissa do jogo… e essa premissa é bem simples, foi modificada de tal maneira que o filme bem podia ser chamado “Beastly creatures from Mars”. No jogo, os cientistas da UAC libertam as criaturas do inferno (ou de outra dimensão, se assim preferirem), que destroem completamente a base em Marte, matando quase toda a gente. No filme, cientistas da UAC conduzem experiências secretas de melhoramento da espécie através de cromossomas sintéticos!

Não é a mesma história sequer. No jogo, o marine solitário tem que combater criaturas infernais com um único pensamento em mente: matá-lo. No filme, acaba por se descobrir que, afinal, os monstros são apenas humanos que sofreram mutações.

O problema disto tudo é que eu sei perfeitamente porque é que o filme é assim: é porque para os americanos, a palavra “hell”, CENTRAL a toda a série de jogos chamados “Doom”, é dos piores palavrões que se podem dizer.

Vi, há algum tempo, uma entrevista com o realizador do filme “Spawn” que dizia que pelo simples facto do filme dele incluir a palavra “inferno” (para quem conhece o comic, sabe perfeitamente que o Spawn não pode existir sem o conceito de inferno), o rating subia imediatamente para maiores de 16 ou coisa do género.

Portanto, ao fim de 12 anos í  espera de um filme baseado no Doom, tive – sem grande surpresa, diga-se – uma desilusão. Quem sabe, talvez um dia alguém recrie a guerra contra os Stroggs do Quake 2 e 4, num bom filme… em vez de mau.

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4 comentários a “Doomed”

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