Novas experiências

Há quem diga que a vida é uma colecção de experiências, que é aquilo que acontece, quando estamos ocupados a fazer planos, que é feita de pequenos nadas.

Ora hoje vivi mais um desses momentos fabulosos de “tenta tudo uma vez”. Fui ao dentista e o prognóstico foi aquele que eu já esperava: “este dente tem guia de marcha!”

“Fora com ele, Dr.!”, exclamei confiante.

O que eu queria era o cabrãozinho fora da minha boca e o fim das dores. E aí­ está a minha nova e enriquecedora experiência: ter um dente arrancado.

É verdade: desde que tenho a minha dentição de adulto nunca precisei de ter um dente arrancado e quanto a isto só tenho a dizer: como eu amo a minha escova de dentes!

Este novel e maravilhante acontecimento não me fazia faltinha nenhuma, é a conclusão a que cheguei depois das sétima injecção de anestesia que não me tirou as dores.

E quanto a alicates: batatas.

Sempre vivi nesta doce ilusão de que os dentes eram arrancados com alicates. Alicates todos especiais, claro, cada vez mais hiper-tecnológicos e que arrancam dentes em nanosegundos e sem qualquer dor. Como diria o poeta: “o tanas!”

O meu dente foi arrancado com uma alavanca, nem mais nem menos. Mete daqui, mete dali, força mais um bocado e pop goes the weasel! Ou neste caso, the tooth.

Em suma: o dente podia ter sido arrancado com uma chave de fendas e um soco na tromba (para anestesiar, entenda-se). Doeu como o caraças e no fim, como não havia anestesia que me adormecesse o raio do dente, foi mesmo cor dor.

Mas acredito que a anestesia ajudou mesmo muito, apesar de no fim ainda ter sentido o dente a saltar fora do meu precioso maxilar inferior.

Agora tenho dois pontos na gengiva, passei o dia a engolir sangue e a aguentar com umas dores do camandro. É que ainda por cima, como era um siso, aquilo foi preciso uma certa dose de bracinho para me manter a boca aberta, a lí­ngua – completamente anestesiada – fora do caminho e ainda chegar a um dente onde eu não conseguia chegar com a escova de dentes (o que se tornou dolorosamente óbvio quando se lhe abriu um buraco onde cabia o Titanic).

Conclusão: a vida é feita de pequenos nadas e arrancar dentes é um dos nadas que se pode bem evitar. Portanto, meus queridos, lavem os dentinhos, usem fio dental e desinfectante e tentem evitar açúcar em excesso e assim… ao fim e ao cabo, é este o sentido da vida.

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Factóides

  • Desde quarta-feira passada (há cinco dias), que tenho uma dor de dentes.
  • Vou ao dentista amanhã.
  • Tenho-me aguentado com analgésicos, ou como diria um amigo nosso: “I NEED MORE PILLS!”
  • Desde quarta-feira há noite (há cinco dias), que não tomo banho.
  • É o meu record pessoal.
  • No entanto lamento informar que estou prestes a ir para a banheira :(
  • Estou a construir suportes para os meus monitores Fostex, comecei ontem a fase de acabamento, com a preciosa ajuda da Dee e o consultório técnico do Dr. Fafonso, sempre ao dispor.
  • Tenho tirado fotos de tudo, farei um documentário quando estiver pronto.
  • Depois de ver o Benfica jogar com a “Naval Primeiro de Maio” (isto é nome que se dê a seja o que for?), sugiro que se mude o cântico “ninguém pára o Benfica”, para “ninguém percebe o Benfica”.
  • Tenho dois pés.
  • Hoje estou de folga e vou fazer compras de natal
  • Estou a ficar um bocado farto do natal
  • É a primeira vez na minha vida que estou ansioso por ir ao dentista.
  • Se ele me quiser arrancar os dentes todos eu digo que sim.
  • E esta é, afinal, mais uma prova que deus não existe: porque é que a parte do corpo que usamos para morder coisas é das que nos causa mais dores?

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007

Desde a primeira vez que vi o trailer do Casino Royale que achei: “whoa!”. E toda a gente sabe que “whoa!” é a melhor reacção que se pode ter a um trailer. Primeiro, no trailer, não se percebia que a coisa era um filme do James Bond para aí­ até meio… quando a voz da Judi Dench fala em double-o status e é nessa altura que surge o segundo “whoa!”: isto é James Bond?!

É que parecia só porrada e mau viver, coisa que já ninguém associa ao 007 há muito tempo. Confesso que os últimos dois filmes do Pierce Brosnan já nem os vi. O homem até tinha estilo e tal, mas via-o mais como um comediante no meio de uma anúncio publicitário gigante, do que como o mais eficiente agente do MI6.

Daniel Craig veio mudar isso tudo. Não só ele, como, obviamente, as pessoas que decidiram que era altura de devolver a dignidade ao Bond. E é por isso mesmo que este filme é, muito provavelmente, o melhor Bond de sempre.

Sejamos realistas: toda a gente que gosta de Bond venera o Connery, mas os filmes são muito antigos e estão muito datados. Embora sim, de facto Sean Connery fosse o James Bond, a coisa já cheira um bocado a mofo.

No Casino Royale, o personagem é actualizado, mas esse não é o centro do filme, esse é mesmo a história. Isto quer dizer que não há Q neste filme, nem preciosos minutos passados num laboratório que parece um circo; há gadgets ultra-sofisticados, mas são usados apenas quando isso ajuda a avançar a cena e afinal, o kit de desfibrilhação que vinha incluí­do no Aston, tinha um fio desligado e tudo. Perfeito.

O Bond de Craig é implacável: espanca e mata, sem qualquer problema e até, talvez, com algum gosto. Deixa-se torturar brutalmente enquanto ri e pede ao seu carrasco: “oh sim, sim, mais para a direita!”. É frio, mas apaixona-se: não é uma máquina, é um homem, mas é muito bom no que faz.

Os olhos azuis absolutamente penetrantes e o fí­sico imponente do homem quase me fizeram pensar em tornar-me gay, mas as maminhas saltitantes da namorada ajudaram um bocado a resistir e o jogo de poker é um centerpiece muito bem explorado que marca o ritmo do filme entre cenas tensas de jogo e intervalos para a mijinha que acabam com cadáveres diversos.

Um granda filme, bem merecedor de vários “whoa!”. O único problema foi o bando de putos que se instalou num canto da sala a conversar. E não estou a falar em sussurros, estavam a conversar de viva voz. A comer pipocas e constantemente a acender e apagar as luzes dos seus telemóveis. Uns levantavam-se e saí­am da sala, voltando minutos depois, outros punham-se de pé, outros ainda tinham os pés sobre o encosto de cabeça das cadeiras da frente.

Claro que lhes mandaram uns ineficazes “chiu” e que a menina do cinema foi lá pedir-lhes para tirarem os pés, mas sem grande resultado.

Numa cena em que a Vesper está dormindo no seu magní­fico quarto em Veneza e o silêncio do filme fazia ressaí­r ainda mais a barulheira dos ranhosos, aproveitei para impor um “calem-se caralho!”. E quando falo em impor, falo em gritar para ser bem ouvido.

Ficaram chocados, claro. E depois riram-se e tal. Mas a verdade é que baixaram um bocadinho a bolinha durante o resto do filme.

O que é que estes pirralhos vão fazer para o cinema? Putos de 13 ou 14 anos que não se calaram nem pararam de mandar SMS durante as duas horas e tal que tem o filme; deixaram um chiqueiral inacreditável de pipocas e papeis no chão e levantaram-se e sairam da sala várias vezes durante a fita.

O que é isto? Quando eu era puto, havia gajos que iam para o cinema para desestabilizar. Era mesmo assim: iam de propósito para mandar bocas e divertir-se com isso. Isto é diferente: estes putos estão ali como se estivessem na rua ou em casa de um deles a ver um filme no DVD e não percebem (não percebem mesmo), que estão a chatear o resto das pessoas que se calhar gostam de ver um filme em paz e silêncio.

Se calhar estou a ficar velho, mas isto parece-me tudo muito estranho. É que apesar de tudo, um bilhete de cinema custa mais de cinco euros… parece-me um preço um bocado caro para ir fazer uma coisa que podiam fazer de graça num banco de jardim.

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Não acredites no que lês na net

Há uma tendência mais ou menos generalizada hoje em dia para utilizar conteúdos tirados da internet como curiosidades, na imprensa escrita, como, digamos, enchimento de chouriços.

Quando uma página de revista está por encher, dá jeito colocar citações retiradas de blogs para fazer uma colunazinha e compor a coisa.

Paralelamente, é mais ou menos do conhecimento comum que não se deve acreditar no que se lê na net. Mas porquê? Porque é que os conteúdos escritos por todos nós na web são ou curiosidades ou de pouca confiança?

Esta ideia ganha mais força quanto mais os ditos conteúdos se aproximam de versar sobre temas que rondem uma qualquer indústria estabelecida. Por exemplo… sobre suplementos alimentares: não acredites no que lês na net. Sobre medicamentos: Não acredites no que lês na net. O mesmo sobre exercí­cio fí­sico ou economia, por exemplo.

A verdade é que há muita trampa na net. Mas há tanta ou mais na imprensa. Mas a imprensa é “acreditada”. Aquele magní­fico termo idiota, a “acreditação”. Ou seja, há bullshitters profissionais que são pagos para dizer algumas verdades e algumas aldrabices, sem grandes distinções entre umas e outras e depois há uma vasta cambada de inúteis que escreve apenas aldrabices, online (nós).

Inúteis porque não têm carteira profissional de jornalista, inúteis porque são anónimos, inúteis porque não sofrem pressões de lobbies nenhuns.

A verdade é que não sei distinguir uma patranha de um blogger ou de um poster de um qualquer forum, de uma patranha de um jornalista com 20 anos de carreira. Sou incapaz de distinguir e portanto desconfio de ambos e não apenas do que leio na net.

Mais: quando vou í  net ler sobre produtos que me interessam, geralmente acontece algo interessante: consigo trocar ideias com pessoas que usam os produtos, usaram os produtos ou pensam usar os produtos. Consigo obter informação variada, de um grupo de pessoas variado que têm pontos de vista variados sobre os produtos.

Interessa-me mais ler que comer amendoins pode causar cancro, escrito por um jornalista experiente que se calhar foi pago por um produtor de caju ou ler cinco mil experiências diferentes de pessoas diferentes que comeram efectivamente amendoins?

Talvez algumas dessas pessoas mintam, é verdade. Talvez algumas garantam que cortar as unhas dos pés desenvolve os peitorais em duas semanas – e talvez isso seja mentira. Mas também talvez seja verdade. A diferença é que na net, posso sempre pesquisar por outra opinião, ou mesmo entrar em discussão com essa pessoa.

Na imprensa, levamos sempre com os mesmos gajos, mamamos sempre com as suas opiniões e pontos de vista, que nunca sabemos bem por quem são patrocinados e também não temos qualquer garantia de que estejam a dizer a verdade.

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