Quando era miúdo, passava pelo menos três meses por ano na praia, ficava quase preto e um dos momentos altos em qualquer dia desse tempo era a altura em que via uma bandeira verde pendente, sem se mexer, no topo do poste.
Honestamente, poucas desilusões da minha vida de adulto se comparam com os dias em que via uma bandeira vermelha no topo daquele improvisado mastro de pau.
Depois os anos foram passando e, sinceramente, a praia começou a perder o interesse. Tirando ali uns anos em que o topless foi moda e eu tinha 14/15 anos e as probabilidades de encontrar uma miúda gira da escola com as maminhas ao léu na praia eram elevadas, comecei a ir cada vez menos í praia até que pura e simplesmente deixei de ir.
Então desde que me casei, em 98 e até o Tiago nascer em 2007 devo ter ido í praia menos de 10 vezes. E mais: das vezes que fui, cheguei, fiquei cerca de uma hora e fui invadido de um tédio tal que tive que me ir embora.
Agora que tenho um filho, isso mudou. Ir í praia voltou a ser divertido e no fundo, voltou a reflectir o que eu sentia quando era miúdo. Agora vou para a praia fazer alguma coisa em vez de não fazer nada (eu sou muito mau a não fazer nada, embora esteja sempre a dizer que era o que gostava de fazer na vida). Correr, cavar buracos ou “pisar as ondas”, é tudo um grande gozo e – não sei porque reacção química solar-marítima – uma sandocha ou umas batatas fritas sabem 20 vezes melhor comidas na praia.
Mas há uma coisa que permanece mistério para mim na relação do nosso povo com a praia. Eu até entendo que seja bom torrar ao Sol e – para quem consegue – não fazer nada. Percebo ainda melhor que seja giro ir para a praia com amigos, jogar í bola ou conversar; sei perfeitamente que é divertido mandar uns mergulhos e dar umas voltas í beira mar. Mas ir para a praia quando está mau tempo ultrapassa-me completamente.
Hoje fomos. O Tiago estava com uma cabin fever a roçar o insuportável e depois de ter pronunciado “gatinha” pela 53ª vez seguida (eu contei), decidi que tinha que o tirar de casa.
Preparámos tudo, arranquei a pobre da minha mulher gravidíssima de casa, metemo-nos no carro e fomos para a Costa. Mas, como acontece com frequência, estava vento.
Deixem-me sublinhar: estava um vento do caralho.
Ainda fizemos um pequeno esforço por ficar porque o Tiago, como sempre, despiu-se todo e já corria alegremente para cima e para baixo. Cavei um buraco junto í água e ele, todo satisfeito, saltou lá para dentro, correu í volta, enfim, o normal.
Mas o vento estava castigador e não parava; estava realmente muito desagradável e a piorar. Poucos minutos depois de termos chegado, o Tiago começou a chorar a pedir-me colo, “pai, o vento magoa!”
Estávamos literalmente a ser chicoteados com areia seca, apesar de estarmos na zona molhada. Enfim, to cut a long story short, estava absurdo, um dia horrível para se estar na praia e portanto voltámos para casa.
E então afinal o que é que eu não percebo na relação dos Portugueses com a praia?
É a dedicação quase religiosa í coisa da malta que lá estava. E não era assim tão pouca como isso. Estavam lá, sentados, sobrolho franzido, mãos a segurar o chapéu a cabeça para não voar, alguns tapando a cara com a mão para evitar levar com areia na tromba.
Cheguei mesmo a ver uma família inteira enfiada debaixo de um daqueles chapéus de Sol com resguardo de vento; quatro, metidos ali, de joelhos dobrados ao peito. Para quê? Não estavam a apanhar Sol, a passear, nadar, ler, conversar… não estavam sequer a descansar. Na verdade, estavam a sofrer!
Mas porra, não ir í praia é que não!