Tiálogos I. Introdução.

Tiago, ser pai é ser pateta. Não há nada a fazer. No momento em que nasceste, o meu ní­vel de patetice duplicou e mostra fortes tendências para continuar a aumentar.

Por isso, inventei esta coisa dos Tiálogos. Não para me redimir da patetice, repara… mas como reflexo dessa mesma patetice. Sempre achei que escrever notinhas, cartas ou – nestes dias – posts, para os filhos era uma grandessí­ssima patetice… e olha para mim agora.

Sempre que achar que há uma coisa importante e digna de nota, vou escrevê-la para ti, aqui, nesta categoria, na esperança de que, um dia, no futuro, que possas estar triste ou aborrecido as possas ler e rir-te um bocado í  custa do teu pai, assim alegrando o teu dia.

E pronto, é assim a introdução.

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Tiálogos – Prólogo. Como nasceu o Tiago.

Era uma vez, em 1988, dois adolescentes geeks, numa altura em que ser geek ainda não tinha piada nenhuma, que se conheceram na Escola Secundária Emí­dio Navarro. Ficaram amigos e passavam muito tempo juntos, sobretudo para evitar terem que se misturar com os outros adolescentes.

No dia 24 de Abril de 1989, por troca de cartas e cassetes românticas (eu avisei que eles eram geeks), começaram a namorar. O que significa, mais ou menos, que passaram a andar de mãos dadas pela rua. Era preciso ter calma.

Mas a calma foi-se perdendo e as coisas foram-se tornando interessantes, até que passou um ano e depois dois e quando deram por isso, estavam juntos há cinco anos e depois seis e sete… e por aí­ fora, até que em 1998 decidiram que era altura de saí­rem de casa dos pais e irem viver juntos e como pessoas práticas que eram, aproveitaram para se casar, pois na altura não tinham máquina de café.

Finalmente, no Domingo, dia 11 de Março de 2007, levantaram-se muito cedo e partiram para o Hospital Garcia de Orta, em Almada, para induzir o parto do seu segundo filho, í s 37 semanas e um dia.

Às oito e meia estavam na recepção da urgência de obstetrí­cia e pouco depois, ela estava de bata, pronta a entrar para o bloco de partos.

Por volta das 10:40, tomou dois comprimidos de prostaglandinas, mas o efeito não foi propriamente significativo, causando apenas fracas contracções.

Esperou-se.

Às quatro da tarde, entrou a ocitocina no I.V. e as contracções tornaram-se decididamente mais fortes. Por volta das cinco, o médico rebentou a bolsa de águas, que é um procedimento habitual em segundos partos e geralmente ajuda a acelerar o processo.

Infelizmente, passaram-se mais duas horas, sem alterações. Na última vez que o médico verificou, oito horas depois do iní­cio do processo, o Tiago ainda não tinha sequer encaixado.

Era preciso tomar decisões: ou se insistia na indução e se esperava, o risco sendo o processo continuar a não avançar, obrigando a uma cesariana; ou se partia imediatamente para a cesariana, eliminando outras oito, dez, ou mais horas de espera.

Às 19 tive que sair da sala de trabalho de parto e a Dee foi levada para o bloco operatório. Quarenta e quatro minutos depois, nascia o Tiago e í s oito da noite, finalmente, peguei no meu filho pela primeira vez.

Naquele momento em que a enfermeira Tina mo passou para as mãos, percebi que não é possí­vel que exista algo melhor do que isto. Segurar o meu filho nos braços é, sem qualquer reserva, incomparável e indubitavelmente a mais inacreditavelmente estupenda e inultrapassável sensação da minha vida.

É como se nada importasse e tudo importasse, ao mesmo tempo, naquele momento. É um sentimento para o qual não existe uma palavra. Não é descrití­vel, não é explicável.

Vi o Tiago pouco tempo e depois ele teve que voltar para dentro. Nasceu com 2800 g., um pouco menos do que a ecografia tinha levado a crer que tinha, mas ainda assim, jeitosinho. Para quem sabe o que isso quer dizer, teve um apgar 10 (logo boas notas, o rapaz!) e a cirurgia correu bem, apesar de ter havido um pequeno susto, com a Dee a perder sangue e a ter uma queda de tensão algo acentuada.

As quatro horas que se seguiram foram o equivalente a esperar que, um a um, todos os chineses do mundo se chegassem í  frente, de forma organizada e por ordem alfabética, e dissessem o seu nome a um microfone.

Na sala de espera, depois das 21, apenas podem permanecer dois acompanhantes por paciente. Nós éramos catorze.

Até que, enfim, mãe e filho saí­ram pela porta automática do bloco de partos. Em poucos segundos, a enfermeira que empurrava a cama, viu-se cercada pelo Artur, a Mila, a Marta, o Filipe, o Gustavo, a Inês, o Jorge, a Luí­sa, a Rita, o Pompí­lio, a Maria, o Pedro e a Ana. E, claro, eu.

Foram mais alguns breves segundos e depois a minha nova famí­lia foi levada para o quinto piso e eu tive que voltar para casa sozinho.

Foi um processo de dezanove anos e nota-se: o Tiago é simplesmente lindo.

…ou pensavam que tinha sido fácil?

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Um momento ‘no comment’

Tiago

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Tá quase

Faltam nove horas para irmos para o HGO. Esta casa nunca esteve tão arrumada (acho eu, claro, porque a Dee acha que podia estar melhor). O congelador está a abarrotar, tenho um pedaço de carne assada no frigo e a minha mamã fez-me mais coisinhas boas para eu me alimentar.

O saco está pronto, a minha mala tem os items mais fulcrais: óculos, caixa para lentes de contacto e livro do Terry Pratchett. O Merc está atestado com 50 litros de gasosa. Os telefones estão carregados e a Olympus também (embora eu não compreenda a obsessão de toda a gente com fotografias, eu quero é ver o meu filho, porra, logo o fotografo quando tiver tempo.

Está tudo limpo e lavado e pronto. Obrigado a todos os que deixaram comentários optimistas e de encorajamento!

Mais uma inspiração profunda… e… cá vamos nós.

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Domingo

Ficou combinado hoje, que no próximo Domingo, vamos estar no HGO í s 8.30 da manhã, para induzir o parto do Tiago.

Está combinado, vamos ver quanto tempo demora a indução; é imprevisí­vel, portanto não posso propriamente dizer que o Tiago vai nascer no dia 11, pode ser dia 12, logo se vê.

Prevê-se aumento significativo do abuso de substâncias no Concelho de Almada nos próximos dias.

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