Coloquei um post sobre a nova lei do tabaco, já de flak jacket e capacete, porque já sei como é. O meu pai, que é um fumador a sério (e não uma dessas bichas de cigarro a queimar na ponta dos dedos só para compor a pose), respondeu-me.
Logo aí, a coisa complica-se, porque o meu pai é um fumador exemplar: não o vejo fumarum cigarro há meses, porque não fuma ao pé de mim, porque sou asmático e/ou porque não gosto, não o vejo fumar nos restaurantes, nunca o vi sequer pensar em fumar ao pé do neto.
E o meu pai tem 54 anos e não é especialmente pateta a fumar – fuma e pronto. Mesmo assim, mantenho que fumar é pateta, assim como usar o boné com a pala para trás, ou os óculos escuros pendurados pelas hastes no pescoço. É um gesto que me parece pateta, que hei-de eu fazer?
Aqui vai o comentário e os meus pensamentos sobre o assunto:
“É conhecida a nossa divergência quanto a esta questão do tabaco. Ora aqui vai uma longa citação de um artigo de João Pereira Coutinho, publicado no Expresso de sábado passado:
“Em 1959, o filósofo Isaiah Berlin publicou um ensaio que se transformou em peça clássica do pensamento político. Intitula-se “Two Concepts of Liberty”
E pronto: liberdade. Não se pode falar de tabaco sem falar de liberdade. A liberdade… de quem fuma. Sempre a liberdade de quem fuma, nunca a de quem não fuma. O meu pai, que é uma pessoa invulgar (o oposto de vulgar), preocupa-se de facto com a liberdade de quem não fuma. Mas ele está tão sozinho que nem conta e é por isso que eu continuo a escrever textos sobre fumo e fumadores.
e, para resumir uma longa conversa, Berlin escrevia que, historicamente falando, é possível divisar dois conceitos de liberdade que, semelhantes na aparência, acabam por evoluir em sentido contrário. De um lado, o conceito de liberdade ‘negativa’, caro aos liberas clássicos (como Stuart Mill), e que procura definir o espaço onde eu posso agir sem a coação de terceiros. Do outro, o conceito de liberdade ‘positiva’, onde a precoupação já não está no espaço do agente, mas na acção do agente: uma acção considerada livre se for racional.”
Ora, tu consideras pateta fumar – logo, estás de acordo que o Estado imponha proibições a quem fuma.
Não é assim. Eu considero pateta fumar. Ponto. Essa percepção (que é recente), nada tem a ver com a minha posição em relação ao fumo ou sequer í lei anti-tabaco.
Mesmo que fosse completamente indiferente a quem fuma e onde, continuaria a achar o gesto de fumar, uma patetice. Como vestir coletes fluorescentes nos bancos dos carros ou usar bolsas de cintura ao pescoço.
Eu não estou de acordo com a acção do Estado neste caso. Eu acho que as coisas deviam ser auto-reguladas. Sinceramente, acho mesmo. E sou completamente a favor da despenalização da sociedade até ao limite do razoável (homicídio, por exemplo, parece-me pouco razoável que seja despenalizado). Também sei que o que é razoável é discutível.
Mas se há coisa que aprendi com o meu pai é: “este povo não presta”. E se me perguntares: então mas não estas contente que a lei tenha passado. Eu respondo: sim! muito! aleluia!
No entanto, consideras que não faz sentido, por exemplo, punir sacar coisas da internet porque também achas pateta a história dos direitos de autor.
Mais ou menos. Não acho pateta os direitos de autor, mas acho pateta as restrições impostas sobre os consumidores para os defender (aos direitos de autor). Uma coisa é ser ilegal copiares um disco para o venderes, outra coisa é não conseguires sequer tocar um disco que compraste, porque o teu leitor de discos não é do fabricante amigo da editora de música.
Mas essa é outra conversa, claro.
Quer dizer: o conceito de liberdade modifica-se, para ti, consoante a acção.
Errado. O meu conceito de liberdade mantém-se: a liberdade de eu estar, ser e agir como quero. E essa liberdade inclui ouvir a música que me apetece e inclui não fumar. Por um lado, alguém vai ter que inventar alguma forma de me fazer pagar pela música e por outro, alguém vai ter que apagar um cigarro.
Mas o que a indústria discográfica e os fumadores partilham, esses dois grupos de fachos sem vergonha, é a velha máxima “estás mal, muda-te”. Não consegues tocar os nossos discos protegidos? Compra o nosso novo leitor. Não gostas de fumo? Vai-te embora.
Continua JPCoutinho: “um dos exemplos mais explícitos do abuso está, naturalmente, no combate ao tabaco (…)
“Naturalmente”, para o JP Coutinho que, sou quase capaz de apostar, é fumador. Ou será apenas um grande defensor da liberdade?
E não é por acaso que a Alemanha nazi – um regime totaltário e ateu – se notabilizou nas campanhas anti-tabágicas, que sobreviveram ao Reich e são hoje repetidas por papagaios sem vergonha.
Xiça! Já vamos nos Nazis! Lá está o espírito de Fumador Revolucionário Oprimido de que o J.P. Coutinho, obviamente, sofre. Os não fumadores são Nazis e infiltram-se nas mais altas esferas do Estado, para fazer passar leis opressivas, anti-tabaco.
Lérias.
Tou-me bem cagando para se os Nazis eram anti-tabaco, porque eles acima de tudo eram uns hipócritas de merda. Odiavam judeus, mas depois tinham a Joy Division e tinham relações sexuais em barda com judias. Afinal, já não eram assim tão impuras que não merecessem um pouco de bockwurst germânica.
Mas o combate aos fumadores, e as medidas iliberais que o Parlamento aprovou sem um espirro de hesitação, é também a forma mais velha de negar aos seres humanos o que é autenticamente deles: a possibilidade de viverem por sua conta e risco, assumindo as rédeas da sua própria mortalidade”.
É sim, senhor, ou como diz o meu amigo Gustavo: não devia ser obrigatório o uso de cinto de segurança, porque se tu quiseres arriscar-te a morrer num embate a 50 km/h, tens todo o direito. É por isso que acho que o Estado não deve proibir nada: nem o álcool, nem o tabaco, nem as drogas e aliás, até devia ser possível entrar numa farmácia e comprar qualquer medicamento, sem receita médica. Olha que porra, se eu quiser tomar um medicamento, porque é que tenho que ter um papelinho passado por um especialista qualquer na matéria?
Continuo a insistir, porém: eu não gosto de fumo de cigarros, menos ainda de charutos e cachimbos e gostava muito de nunca mais, em toda a minha vida, os ter que inalar.
E não é só fumo: maus cheiros, por exemplo. Mas o que se pode fazer? Instituir uma lei do duche obrigatório? Olha… se calhar era preciso, tendo em conta a quantidade de pessoas, inteligentes, cultas, educadas e profissionais com que me cruzo diariamente e que cheiram a suor retoiçado de cinco dias.
O Estado deve obrigá-las a tomar banho? Não.
Eu ficaria feliz se eles fossem obrigados a tomar banho? Sim.
Eu não me sinto mal por ter estas ideias contraditórias? Não.
Por mim, repito o que já digo há muito tempo: o facto de ser o Estado a decidir o que faz bem ou mal í minha saúde, é muito perigoso.
Não se pode, depois, pedir que o Estado não se meta nas nossas vidas privadas.
É isto que está em jogo com as leis proibicionistas (do álcool, do tabaco, dos bons costumes, da sexualidade ‘normal’, etc, etc).
Estamos, afinal, de acordo. Mas eu continuo a achar que:
- Fumar é pateta
- Pessoas que têm acesso í imprensa e podem escrever artigos de opinião sobre o que lhes der na gana já me enjoam. Porque é que me há-de interessar a opinião do J.P. Coutinho, se ele se está cagando para a minha?
- O Estado não se deve meter na vida de ninguém, decidir sobre a vida e a morte, a saúde e a doença
- Fumo de tabaco é incómodo, desagradável, mal cheiroso e irritante
- Os fumadores não são capazes de falar sobre tabaco de uma forma isenta e raramente vêm o ponto de vista dos não fumadores. Além de que são incapazes de não referir as palavras nazismo, fascismo, liberdade e a preferida: “direitos”.
- Não sei qual é a solução para esta desavença entre fumadores e não fumadores, mas sei que talvez haja alguma verdade nos métodos do velho oeste e do duelo ao meio-dia.
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