Sobre o cristianismo

Vi recentemente um filme chamado “The god that wasn’t there“. É um documentário de um ex-cristão fundamentalista tornado ateu, Brian Flemming.

Eu não gosto muito destes ex-cristãos tornados ateus. São uns fracos. Mas o filme não deixa de ser interessante, embora não seja tão bom como a promoção leva a crer. O site compara o “The god that wasn’t there” ao “Bowling for Columbine” ou “Supersize me”, em termos de impacto nas respectivas áreas, mas este filme é bastante mais curto e menos profundo do que os outros dois.

Ou então é por não viver nos Estados Unidos que não senti o impacto do filme. Ao que parece, 44% dos americanos acreditam que Jesus Cristo voltará í  Terra e que tal acontecerá no seu tempo de vida. Portanto, digamos, nos próximos 30 anos.

O que acabei por achar mais interessante ainda foi o facto de que o filme faz uma coisa que já é pouco comum, hoje em dia: levanta dúvidas sobre a existência de Jesus, de todo.

Quem é cristão, está convicto que Jesus Cristo existiu e foi o único filho de deus na terra. Quem não é cristão muitas vezes diz que se calhar Jesus Cristo existiu e foi assim uma espécie de agitador de massas, mas nenhum messias, nem figura divina.

Mas Jesus pode bem é nunca ter existido como ser humano, mas apenas como figura mí­tica para fazer passar determinadas histórias e valores morais.

É o que eu acho e gostei de ver essa ideia transmitida no documentário. Para mim, a cristandade encerra dois propósitos básicos: a transmissão de valores morais e espirituais (chamemos-lhes assim), e a imposição de regras sociais e hierárquicas.

Como se explica que hoje em dia, algum ser humano possa ler de forma literal as passagens da bí­blia que falam do tratamento que os donos devem dar aos escravos? Ou dos deveres conjugais das esposas aos seus maridos?

As regras sociais referidas na bí­blia são textos escritos por homens que viveram cerca de 70 a 100 anos depois de Cristo e não fazem qualquer sentido hoje em dia. Lucas fazia lá ideia do que é a internet, um telemóvel ou um V8 Kompressor da Mercedes-Benz.

Se os textos da bí­blia são de facto divinos e inspirados pela graça do espí­rito santo, então não deviam ser tão especí­ficos em certas áreas do seu conteúdo. Ou, em alternativa, deus já deveria ter revisto e aumentado o texto e enviado novas edições para a Terra.

Mas não.

Aparentemente, Lucas, Mateus, Marcos e mais um ou dois, foram inspirados pelo espí­rito santo há quase dois milénios e desde então nunca mais ninguém foi inspirado de forma idêntica! Não terá deus mais nada para dizer?

Quanto í  transmissão dos tais valores morais e espirituais, como o amor ao próximo, a paz, a humildade e tudo isso, é um objectivo nobre. Mas porque precisa de ser acompanhado de misticismo? Ou será que sou só eu que acha que o céu, o inferno, a ressurreição, os anjos e os demónios é um monte de misticismo?

Não podemos amar-nos uns aos outros sem termos que acreditar na alma eterna? Sem precisarmos sequer de ter que alguma vez na nossa vida tentar conceber a ideia de uma alma eterna?

Nunca pensar nisso e fixarmo-nos apenas nas ideias de harmonia e paz? É que… para aprender a “dar a outra face”, não são precisas igrejas, capelas… e muito menos catedrais. Aliás, nem são precisos padres para nada. Basta ler um livro.

Por exemplo, na escola de artes marciais a que pertenço, a YMAA, aprendemos sobre a moralidade marcial. Basicamente, aspectos morais a que um indiví­duo que estuda artes marciais tradicionais chinesas deve esforçar-se por aderir. É simples: humildade, respeito, rectidão, confiança, lealdade, vontade, resistência, perseverança, paciência e coragem.

São valores básicos sem qualquer esoterismo ou misticismo. Não é preciso acreditar em nenhum deus ou profeta para compreender estes valores, as ideias por trás deles e como podem ser aplicados na nossa vida. Simples. Humano. E sem qualquer necessidade de tanga religiosa.

Mas, ao que parece, a mortalidade continua a assolar os humanos e portanto, a necessidade de uma figura divina, sobre-humana e redentora é muito forte.

Curiosamente, acho que enquanto as pessoas não se abstraí­rem da morte e largarem o conforto aparente da divindade, não vão nunca conseguir focar-se em si próprias e umas nas outras e, no fundo, seguir os ensinamentos morais das várias religiões que por aí­ andam.

Voltando ao filme, este refere uma coisa que eu desconhecia, mas que encaixou nuns textos que andei a ler sobre Osí­ris e a similitude entre a história deste deus Egí­pcio e a de Cristo. São quase iguais. E a maioria das pessoas não tem noção.

É como os feriados religiosos. Dia 25 de Dezembro: Nascimento de Cristo ou Solistí­cio de Inverno? Páscoa: Paixão de Cristo ou Equinócio de Primavera? Porque é que os acontecimentos maiores da religião cristã caem sobre antiquí­ssimas celebrações pagãs? Grande coincidência.

Ao que parece, Lord Raglan escreveu, em 1936, um livro entitulado «The Hero: A study in Tradition, Myth and Dreams», no qual estabelece uma espécie de scorecard para heróis mí­ticos.

É uma colecção de 22 acontecimentos arquetí­picos, baseados no mito de Édipo e que podem ser encontrados em maior ou menor quantidade, na vida da maioria dos grandes heróis mí­ticos da nossa História.

São os seguintes:

  1. A mãe do Herói é uma virgem real;
  2. o Seu pai é um rei e
  3. frequentemente parente próximo da sua mãe, mas
  4. As circunstâncias da Sua concepção são pouco usuais e
  5. Ele tem a reputação de ser filho de um deus.
  6. À nascença é feito um atentado í  sua vida, geralmente pelo pai ou aví´ maternal, mas
  7. Ele é misteriosamente levado e
  8. Criado por pais adoptivos num paí­s distante.
  9. Não sabemos nada da sua infância, mas
  10. Ao atingir a idade adulta ele regressa ou vai para o seu futuro reino.
  11. Após uma vitória sobre o rei e/ou um gigante, dragão ou animal selvagem,
  12. Casa-se com uma princesa, muitas vezes filha do seu predecessor e
  13. Torna-se rei.
  14. Durante algum tempo, o Seu reinado é pací­fico e
  15. Ele faz leis, mas
  16. mais tarde perde a aceitação dos deuses e/ou do seus súbditos e
  17. É afastado do trono e expulso da cidade, após o que
  18. enfrenta uma morte misteriosa,
  19. frequentemente no topo de um monte,
  20. Os Seus filhos, se sequer os há, não lhe sucedem.
  21. O Seu corpo não é enterrado, mas ainda assim
  22. Ele tem um ou mais santos sepulcros.

Édipo, em quem a escala é baseada, tem 21 dos 22 pontos. Jesus tem 18 ou 19, conforme as versões. Mas há mais… heróis mí­ticos que partilham uma parte significativa desta história: Krishna, Moisés, Rómulo e o Rei Artur; Beowulf, Buda e Zeus; Dioní­sio, Gilgamesh e Jasão. E, claro, James T. Kirk.

Este link tem a lista de vários heróis e é possí­vel ler uma explicação sobre cada um, escrita pelo Professor Thomas J. Sienkewicz, para as suas aulas de mitologia clássica. Infelizmente, Harry Potter está incluí­do, o que é lamentável.

Enfim, tudo isto para dizer o quê?

Que ali em baixo, em frente í  defunta Lisnave existem três estabelecimentos: o Mona Lisa, “danceteria”, de um lado; o “Sereia”, strip-club, do outro e no meio, uma igreja cristã. Isto não é desperdí­cio de um fantástico bar de alterne?

Já o Lennon dizia… “Imagine there’s no Heaven;it’s easy if you try;No hell below us;Above us only sky;Imagine all the people;Living for today”.

E olhem que o Lennon era o Walrus…

[tags]religião, cristianismo,jesus,cristo,mito,mitos,mitologia,heróis,ateí­smo[/tags]

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Carro

Estou a pensar comprar um carro.

Está na altura de dizer adeus ao Mercedes e também ao Smart. Um porque já tem 200 mil km e merece outra manutenção e cuidado do que a que lhe posso dar. O outro porque está parado numa garagem há cinco meses.

Ainda não pensei em como vou vender os carros, nem por quanto. Mas se alguém quiser um Mercedes C180 Esprit de 93 preto e/ou um Smart Coupé (fortwo), Passion, de 2001, azul… digam qualquer coisa.

Entretanto andei a dar uma vista de olhos pelo que existe por aí­ em termos de carros novos e, sinceramente, o que mais me atrai dentro de um valor possivelmente aceitável para mim (a confirmar), é o novo Civic. O meu pai comprou um e o carro é o sonho de qualquer geek, só na instrumentação. Além disso gosto muito do aspecto dele por fora e da ousadia que a Honda teve em não fazer mais um bloco de chapa igual aos outros todos. E, claro… é um Honda.

Outras hipóteses são um Golf, mas a VW é verdadeiramente careira, com o modelo mais básico a custar mais do que modelos intermédios e í s vezes de topo, de outros carros; e eventualmente um Astra.

Claro que se as minhas opções de crédito não forem tão optimistas como gostava que fossem, sou capaz de ter que descer um pouco as minhas expectativas. :-)

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Mais um corte no tempo

Na terça-feira fiz o percurso em 23’10”, hoje dei-lhe com mais força na etapa inicial e terminei em 22’54”.

Ainda não consegui fazer a Manuel Febrero toda a correr, mas lá chegarei. :-)

[tags]corrida,exercí­cio[/tags]

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Nip Tuck 4

Nip Tuck
Christian Troy e Sean McNamara, os personagens principais de Nip/Tuck

Acabámos agora mesmo de ver a season 4 do Nip Tuck, essencialmente, a série mais kinky desta última leva de séries de TV de alta qualidade.

A season 4 é mais suave que a 3 e também mais humana, mas nem por isso menos potente. Esta não é uma série para tenrinhos: entre as cenas de cirurgia realistas e de sexo explí­cito, a violência quase não se nota, excepto, claro, a carrada de socos emocionais e pontapés psicológicos que os episódios vão atirando na nossa direcção.

Faltavam ainda algumas coisas no corolário do Nip Tuck e a season 4 trata disso (spoilers daqui para a frente): sexo com anões, sexo com mulheres grávidas (mais do que uma), religião (cientologia, neste caso) e relações inter-raciais. Continua a droga, promiscuidade, adultério, assassí­nio e cirurgia plástica, claro.

Esta season não bate – nem tenta – a kinkiness da season 3, mas não é uma season pior por isso. É equilibrada por bons episódios stand-alone e episódios para dar continuidade í s múltiplas histórias desta season, bem como a pontas soltas de seasons anteriores.

No fim, todas as linhas narrativas que vinham de trás são fechadas e o futuro fica em aberto, noutra cidade – LA – para a season 5 desta excelente série. E é por séries como Nip Tuck – adulta e (praticamente) sem censura – que torço sempre o nariz quando alguém diz que Lost é a melhor série de sempre.

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