Tiálogos XXXI – Faquigárfo

Há demasiadas coisas que não ficam registadas, como a forma como dizes “friogorí­sco” em vez de frigorí­fico, ou como já desenhas cruzes cuidadosamente, porque as mudanças são tantas e tão rápidas, mas há pormenores que são maiores e não podem ficar por escrever.

Hoje, ao almoço, pediste uma faca e para surpresa colectiva pegaste nos talheres, seguraste a carne com o garfo e cortaste com a faca o teu próprio bife.

Não me parece que seja algo que tenha surgido do nada e por acaso, nunca tí­nhamos tentado ensinar-te a comer de faca, pelo que deduzo que tenhas aprendido na escola, no entanto, não deixa de ser um momento a registar.

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Tiálogos XXX. Loop.

Estás com três anos e meio, precisamente.

Para referência futura, aqui está uma conversa habitual entre nós, neste caso, durante um jogo de ‘Batman: Arkham Asylum’:

Tu: Pai, o que é que o Batman está a fazer?

Eu: Está a dar porrada nos mauzões.

Tu: Porrada nos mauzões?

Eu: Sim, porrada nos mauzões.

Tu: Sim?

Eu: Sim.

Tu: É?

Eu: É.

Tu: Porquê?

Eu: Porque são maus, o nome está mesmo a dizer.

Tu: São maus?

Eu: Sim.

Tu: Sim?

Eu: Pois.

Tu: Pois?

Eu: É.

Tu: É?

Eu: Sim, Tiago, é.

Tu: Porquê?

(ad infinitum)

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Tiálogos XXIX. Porcalhão.

Filho, aproximas-te dos 3 anos e meio cheios de coisas boas. A maneira como pronuncias a palavra “porcos”, quase com sotaque nordestino do Brasil, as histórias que inventas, a destreza com que completas puzzles, o í -vontade com que vais sozinho í  casa de banho… só te faltava mesmo aprenderes a limpar o rabo.

E já que falo disso…

Filho, não sei como são os outros miúdos de 3 anos e quase meio, não quero estar a extrapolar, mas creio que será razoavelmente seguro assumir que praticamente todos serão uns grandes porcalhões, como tu, meu filho.

Não sei quem que percentil de porcalhice te situas, mas acredito que andarás na média e que, portanto, tudo isto será normal para a idade.

A qualquer altura e qualquer momento, excepto imediatamente após o banho, as tuas unhas andam pretas (das mãos e dos pés), os dedos cobertos de gordura, a boca decorada com restos de papa ou chocolate; o ranho, vais limpando ao antebraço.

As tuas camisolas estão ensopadas de nódoas diversas e as calças cobertas de terra, as solas dos sapatos brancas de pó, porque, claro, insistes em arrastar os pés, particularmente quando o solo está coberto de gravilha. As tuas meias cheiram a crime ecológico e nem me apetece muito pensar com que aspecto ficam o interior dos teus crocs quando os usas.

É claro que ajuda bastante que aches que é boa ideia, após comer uma torrada com manteiga, passar lenta e repetidamente as mãos no cabelo, que te pareça adequado lambuzares-te com colheradas de manteiga de amendoim directamente do frasco ou que sejas um indefectí­vel praticante do nudismo doméstico.

O que vale, meu filho, é que na casa nova, vamos ter um terraço e nesse terraço, o papá e a mamã mandaram instalar uma mangueira. Achas que é para regar as plantas…? Pergunta-te, meu filho… já viste plantas cá em casa?

MUHAHAHAHAHAHAHAHA!

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Tiálogos XXVIII. Primeiro beijo.

…na tua irmã, entenda-se. Bom, para já é aquele que mais me interessa.

Depois de quase um mês em casa, a Joana não te tem despertado particular interesse. Felizmente não reagiste mal í  presença dela: a primeira semana foi mais complicada, é certo, houve birras quase todos os dias, mas agora que penso nisso, sinceramente, nem sei se foi pela Joana ter chegado, se pela Sónia estar fora.

A Sónia, a tua educadora, essa sim, a tua grande paixão, esteve de férias mesmo ali naqueles dias em que a tua mãe foi para o hospital e depois voltou com a tua irmã. Foi complicado para ti, mas assim que a Sónia voltou, as coisas mudaram.

Entretanto, o tempo foi passando sem que interagisses com a Joana: nem um toque, mas por outro lado, nenhuma agressão. O que também não é muito de espantar, porque não és particularmente agressivo; no entanto, como, quando te chateias, tens tendência para atirar com coisas (não sei a quem sairás… -_-‘), estávamos meio apreensivos quanto í  possibilidade da Joana vir a levar com algo contundente na sua permeável moleirinha.

Resumindo e concluindo: hoje, chorava a Joana – algo que faz fenomenalmente bem nesta idade – e tu explicavas que “não está tudo bem com a Joana”; perguntei-te o que estava mal e disseste-me: “tens que tirar a Joana do berço, para eu dar um beijinho”.

Tirei-a e tu, com todo o cuidado e delicadeza plantaste um beijo na bochecha gorducha da tua irmã.

Espero que seja o primeiro de muitos.

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Tiálogos XXVII. Chutos na bola.

Só para futura referência: ontem, dia 3 de Junho de 2010, trocaste comigo os teus primeiros toques de bola – como se diz nesse mundo – cheios de intencionalidade.

No meio de alguns pontapés na relva, deste bastantes na bola, com força e direcção; recebeste – não mataste no peito, mas colaste na relva, leste o jogo e deste seguimento í  jogada.

E, acima de tudo, em vez de olhares para o teu pai com um ar inquisitivo de “o que raio quer este gajo”, divertiste-te durante uns minutos a “jogar í  bola”.

Ah e já agora: notei que, apesar de seres destro, os pontapés na bola foram todos com o pé esquerdo; quando te sugeri que chutasses com a direita, a coisa correu mal.

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