Tiálogos XVI. Dezoito meses.

Dezoito meses, puto… sim, ainda se mede em meses, mas basicamente é ano e meio, feito ontem, dia 11 de Setembro.

Terminas hoje a tua segunda semana de infantário e as coisas parecem estar a correr bem: já te integras mais com os outros miúdos, dormes bem e comes bem. No sweat.

Continuas a desenvolver-te em todas as frentes, sempre com especial detalhe para a destreza manual, o teu forte desde muito cedo. Gostas de montar e desmontar coisas, fazer pilhas e torres com vários objectos e começaste a divertir-te a tentar combinações diferentes para um look mais eclético.

Ao fim e ao cabo, um gajo tem que ter algum orgulho artí­stico, mesmo que seja apenas na construção de uma torre de brinquedos prestes a ser destruida ao pontapé.

A última surpresa foi ver-te fazer escalas e tentar tocar melodias simples nos teus brinquedos musicais. Ficámos um bocado aparvalhados porque, sinceramente, não estavamos í  espera, mas tu pegaste num autocarro que tem oito notas em botões coloridos e começaste a tocar, metodicamente, com o dedinho espetado: dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó. E depois ascendendo, sempre com muito cuidado.

Depois de brincar um bocado com escalas – se calhar estavas só a aquecer – começaste a tocar pequenas melodias; talvez ao acaso, talvez não – não cheguei a perceber – mas lá que é fantástico ver-te fazer estas experiências… é.

Falar é que não é contigo!

Como ainda por cima nós não somos daqueles pais que interpretam todas as sí­labas como palavras – “papapapapap” – Ele disse papa! Ele disse papa! – continuamos pacientemente í  espera que o teu repertório se expanda para lá de “dá!” e “bó!”. A maneira como já compreendes tudo o que te dizemos, mesmo algumas coisas mais retorcidas, faz-nos pensar que só não falas… porque não te apetece.

Mas nós somos pacientes, leva o tempo que precisares.

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Tiálogos XV. Dezasseis meses.

Passaram-se dez meses desde que escrevi um Tiálogo, o que é perfeitamente inaceitável tendo em conta a quantidade quase infinita de informação que o desenvolvimento de uma criança implica nesta idade.

Estás com dezasseis meses, que é uma coisa que já começa a aborrecer algumas pessoas, particularmente quem não tem filhos. Não a tua idade, mas o facto de a continuarmos a medir em meses.

A questão é que as diferenças de mês para mês e mesmo, í s vezes, de semana para semana, são tão marcantes que dizer que tens um ano é pouco descritivo.

Aos 16 meses já andas muito bem, aliás, já corres e tens uma predilecção por degraus: onde há degraus, estás tu a subir e descer.

Que mais?

Lavas os dentes sozinho, comes tudo com colher ou garfo (conforme a consistência da comida), entornando muito pouco. Percebes praticamente tudo o que te dizemos e conheces várias palavras que, no entanto, continuas a preferir não usar. Sai-te um ocasinal “bóu”, para “bola” e o “dá”, é prevalente, mas tirando isso, és um homem de poucas palavras.

O teu ví­cio mais recente é o Pocoyo, um desenho animado co-produzido por Espanhóis e Ingleses e que és capaz de ver, repetidamente, sem parar. Até podes nem estar a olhar para a televisão, mas ela tem que estar ligada.

É claro que os teus pais estão a tentar introduzir alguma espécie de regulamentação e tu, como é óbvio, não estás a gostar. Normalmente chegas í  sala e carregas em todos os botões da aparelhagem; desligas e desconfiguras os aparelhos todos, resultando precisamente no contrário do que tu queres.

A melhor maneira de obteres o resultado desejado é sentares-te no sofá e apontares para a TV dizendo “dá”. Tudo o resto, falha. Mas não duvido que em breve estejas a reconfigurar o comando universal e a fazer sugestões de reorientação do 5.1.

Continuas a gostar de música e de dançar. Já sabes ir ligar o piano eléctrico para tocar e também vais dedilhar o baixo, as guitarras e dar uns toques na bateria de vez em quando. Os tambores já estão dominados.

Entretanto ontem tentei ensinar-te a dizer sixaxis. Não correu bem, mas não é de espantar, tendo em conta que praticamente ninguém no mundo consegue dizer sixaxis como deve ser. Mas não faz mal, não precisas de dizer nada, desde que aprendas a usar um.

O teu paizinho continua í  espera.

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Tiálogos XV. A evolução.

A última vez que escrevi, tinhas feito há pouco tempo seis meses. Agora, aproximas-te perigosamente dos nove, sem grande piedade.

De um dente tí­mido, passaste a quatro, bem visí­veis e funcionais: já dás conta de uma bolacha quase inteira, usando habilmente os dentes para lhe arrancar pedaços.  Bom, eu consigo comer uma bolacha inteira de uma só vez e tenho trinta e tal dentes. Mas não vamos por-nos com estas rivalidades pai-filho já.

Parece, portanto, que comer, para ti, é assunto arrumado. Mas não é.

Na sexta-feira passada, depois de teres passado uma semana a vomitar quase diariamente, pelo menos uma das refeições, decidiste que comer já não era para ti. Assim, de um dia para o outro deixaste de querer comer. A sopa, que nem sempre era fácil, admitamos, recusaste. A papa – de que nem desgostavas – cuspiste fora. E a fruta, que nunca sequer pensaste recusar, mandaste-a comer í  tua mãe.

No Sábado fomos a casa dos teus avós paternos, para festejar o aniversário da tua tia Marta e tu, que já tinhas rejeitado a sopa e a fruta em casa, emborcaste arroz de frango e cí´dea de pão, como se fossem os teus pratos favoritos.

Segundo a tia Luí­sa, educadora de infância há várias décadas, não é incomum putos da tua idade fartarem-se de ser alimentados í  colher e passarem a comer muito melhor se lhes for dada comida sólida, de preferência com a opção de serem eles próprios a alimentar-se.

E foi precisamente isso que se passou: primeiro meti-te uma cí´dea de pão na mão, com a qual te foste alimentando e depois a tua avó Mila e a tua prima Inês estiveram a cortar-te e dar-te pedacinhos de frango com arroz, í  mão.

E contigo parece ser assim: quando aprendes uma coisa, desistes imediatamente do que era hábito até aí­. Aprendeste a sentar-te sozinho e desde aí­, ter-te deitado de costas é quase impossí­vel – chegas mesmo a fazer uma grande birra quando te deito para trás no banho para lavar o cabelo. Coisa que costumavas aceitar bem.

E agora isto. Passaste a querer alimentar-te sozinho, portanto ai de quem se aproximar de ti de colher em punho.

O resultado, evidentemente, é que tens comido bastante pior durante o dia e depois -  oh joy – precisas de acordar duas vezes durante a noite para mamar. Que bom. Duas e meia da manhã: Tiago a berrar. Seis da manhã: Tiago a berrar.

Tendo em conta que há que tempos que dormes a noite toda, esta mudança é uma violenta surpresa para os teus paizinhos.

Mas pronto… já percebemos: estás em fase de aprendizagem e até perceberes como comer mais comida do que a que espalhas pelo chão, roupa e cabelo, as coisas vão voltar um bocadinho atrás.

As últimas refeições têm sido uma diversão, portanto. Agarras peixe e batatas do prato que tentas levar í  boca, raramente com sucesso. Nós tentamos entretanto dar-te colheradas de sopa que tu umas vezes aceitas e outras rejeitas ofendido. No fim, é um totoloto: ficará a (pouca), comida no estí´mago ou virá toda parar cá fora?

Como ainda tens pouca experiência com comida sólida, í s vezes engasgas-te e para te livrares do engasganço: tau – vomitas tudo.

Aconteceu ainda há pouco, com o jantar.

Depois de muito esforço, tinhas comido um montinho de peixe com cenoura e batata e meio boião de sopa, mas o último pedacinho de peixe encalhou e pumba: tudo para fora outra vez. É desesperante. Mesmo sabendo que ainda estás a aprender, não deixa de ser frustrante imaginar que aquela comidinha toda já lá estava e afinal voltou toda para trás.

E este teu gosto por abraçar imediatamente a nova etapa evolutiva, negando a anterior significa que pegar uma colher para te voltar a tentar encher o estí´mago, está fora de questão.

E os boiões de fruta, que só de sentir o cheiro te faziam abrir a boca í  espera de uma colherada? Népias, nem isso.

Mas pronto, tudo bem: já tens um pratinho térmico, montes de colheres e o teu próprio lugar í  mesa. Já percebeste que a comida se agarra com a mão e se mete na boca. Agora olha… safa-te!

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Tiálogos XIV. Seis meses.

E zás, assim sem mais nem menos tens meio ano.

Não é de agora, que já é dia 17 e já tens seis meses e seis dias!

E que ganhaste tu no último mês, perguntar-te-í s? Bom, para já, desde ontem que tens um dente! É o incisivo esquerdo inferior que já tem a pontinha de fora, pronta a fazer estragos. Não se pode dizer que andes muito mal disposto com o assunto, mas de vez em quando a coisa incomoda-te.

Também já te aguentas sentado sem grande problema, embora ainda precises de uma ajudinha a chegar lá e aprendeste, na semana passada, a rebolar.

Ou seja: além de te pores de barriga para baixo – que já fazias há uns tempos – agora consegues voltar a por-te de costas. Resultado: barrel roll!

Podes aprender desde já que fazer um barrel roll é solução para muitos problemas da vida.

E essa, meu filho, é a melhor lição que tenho para te dar hoje.

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Tiálogos XIII. Uma questão de lí­ngua.

Provavelmente ainda não percebeste muito bem que os teus pais falam duas lí­nguas contigo. Espero que isto não te confunda minimamente e, pelo contrário, te dê algum gozo sobretudo quando fores um pouco mais crescido.

Este Sábado conheceste o teu primo Daniel, que tem dois anos e meio e se entende bem tanto com o português como com o inglês, sendo que os pais viveram muitos anos na ífrica do Sul e mudam entre as duas lí­nguas com naturalidade.

Mas os teus pais não viveram muitos anos em lado nenhum senão no condado e não têm nenhuma explicação muito lógica para te oferecer que explique porquê esta expressão bilingue, a não ser que lhes dá gozo.

E depois… epá, há certas coisas que não dão muita hipótese, como por exemplo, as tí­picas músicas infantis.

Por um lado temos uma coisa como o “Row your boat”:

Row, row, row your boat, gently down the stream… etc

Inofensivo. E depois o hallmark das músicas infantis portuguesas:

Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu.

Tendo em conta que partilhas a casa com seis felinos, acho que prefiro ensinar-te canções sobre estrelinhas e barquinhos em vez de versos sobre matar gatos í  paulada.

Será que, por esse Portugal fora, nunca nenhum paizinho se apercebeu o que versa esta canção?

Outra canção infantil que eu nunca compreendi, nem quando era puto, é o “Ai ai ai, minha machadinha”. Sinceramente… para começar demorei anos a saber o que raio era uma machadinha e quando finalmente percebi o que era, fiquei ainda mais confuso.

Quem escreve um verso infantil sobre roubo de ferramentas?

Completamente incompreensí­vel, pelo que acho que, pelo que me toca, vou manter o meu reportório: Pink Floyd e Jimi Hendrix. A tua mãe trata das músicas infantis e quem quiser que te ensine sobre “alecrim aos molhos”; nem que passes anos a fio sem perceber o que é ou com que se parece alecrim nem porque faz chorar.

E entretanto, vai apanhando o que puderes de ambas as lí­nguas, que não tens nada a perder. E cá para mim, se í s vezes já tenho a certeza que tentas dizer “olá”, não tenho dúvidas que noutras ocasiões já te sai uma tentativa de “hello”.

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