Dicionário de cromos de centro comercial

A Branchless Monkeys Encyclopí¦dia orgulha-se de apresentar mais um dos seus mundialmente famosos dicionários. Os dicionários da nossa prestigiada publicação são artigos de valiosa referência para académicos em todo o Mundo. De Cambridge í  Ivy League, as maiores universidades do mundo não dispensam uma cópia ou mais (ou mais!), da nossa vasta e completa obra.

Agora que deixámos bem claro que somos bons, vamos avançar para um novo volume desta obra de valor incalculável: o dicionário de cromos de centro comercial.

Os cromos de centro comercial existem e não vale a pena ignorá-los, porque não se vão embora. É como o poema Zen da árvore que cai sozinha na floresta… se ignorarmos um cromo destes, será que ele deixa de existir? Não sabemos, porque é impossí­vel ignorá-los.

Mas podemos identificá-los e categorizá-los, como convém. E é para isso que aqui estamos!

Putos Betos

Abrimos este dicionário com uma categoria verdadeiramente assustadora de cromos do centro comercial. Os Putos Betos são uma categoria antiquí­ssima, juntamente com os Xungas, são, possivelmente das mais antigas, senão mesmo a mais antiga, das categorias, já de si antigas. Portanto, é um categoria antiga, é aí­ que queremos chegar.

Os tempos actuais são extraordinariamente propí­cios ao aparecimento de putos betos. Nunca houve tamanha abundância de parafernália beta para fornecer esta categoria e nunca os putos tiveram tanto poder de compra. Um qualquer passeio por uma qualquer centro comercial ajudará a constatar isso mesmo.

Os Putos Betos são fáceis de detectar: Pullover Tommy Hilfiger, Chinos caqui e, claro, camisa Sacoor.

Atenção que o telemóvel é absolutamente indispensável.

Viu alguém assim? Parabéns. Encontrou o seu primeiro puto Beto… tire-lhe o número e anote na sua caderneta. Mas note que a idade é importante: terá que ser um espécime entre os 13 e os 19 anos de idade, com uma cara semelhante a um pudim de framboesa que correu mal. Caso contrário poderá estar a olhar para um Adulto beto e se assim não pode ser nada porque não podemos estar agora aqui a misturar coisas.

As camisas da Sacoor são, dado garantido, a coisa mais hedionda alguma vez a ser posta í  venda desde o café americano e têm como único propósito fazer as pessoas parvas parecer completamente idiotas. Não sabemos de que outra maneira se pode explicar como pessoas que aparentemente estão vivas e conscientes do mundo que as rodeia, possam andar com uma camisa com um boneco de um rato, de uma qualidade absolutamente abaixo-de-d’Artacão, estampada nas costas… enorme ainda por cima.

Isto poderia explicar a razão de muitos putos betos usarem os pullovers Tommy Hilfiger, de preferência brancos e pelas costas. Para tapar o rato, entenda-se. Mas parece que não: o rato é usado com a ostentação provinciana de quem nunca usou roupa de marca e considera esse como o feito mais importante da sua vida.

Parece-nos uma coisa verdadeiramente triste, um adolescente que podia perfeitamente estar de jeans e ténis a perseguir miúdas giras das maneiras mais patéticas possí­veis de imaginar, está ali vestido í  palhaço, balouçando-se pelo Centro Comercial e nada mais acrescentando ao mundo, í  parte de assunto para mais um dicionário desta série.

Dreads

Os Dreads são, talvez, o oposto dos Betos.

Os Betos sempre foram Betos, os dreads já foram outras coisas: Hippies, por exemplo. Embora esta associação deva provavelmente irritar os Dreads… e os Hippies. Mas no bom estilo desta publicação… quero que se lixem.

Os dreads são uma daquelas espécies auto-reconhecidas. Isto é, adoram ser dreads e tratar-se por “dread” uns aos outros. Os Betos não gostam de ser chamados betos, embora sejam visivelmente betos e não se compreenda exactamente o que mais se lhes poderia chamar.

A expressão “dread”, originária da Jamaica, se não me falha a memória, ganhou já um significado mais lato… lato até demais, o que se pode tornar perigoso, como se pode ver pelo incidente do Lobo Risonho.

Não é difí­cil de detectar esta espécie: têm aquele look abandalhado de quem apenas passou 2 horas a arranjar-se para parecer abandalhado. Talvez dreadlocks, talvez não, talvez piercings na testa, talvez não. Roupas largas, calças descaí­das, ténis espessos. Tudo escolhido a dedo, para fingir que não foi escolhido. Tudo de marca, claro. E uma tatuagem, se não tiverem medo de agulhas, claro.

A tentativa vaga de “parecer diferente” que faz com que o dread seja efectivamente diferente de, digamos, um Beto, leva também ao paradoxo final de quem ser diferente: os dreads acabam por ser todos iguais uns aos outros.

Xungas

Uma vez Xunga… para sempre Xunga. O Xunga é o naí¯f deste grupo. É um estilo sem ser um estilo, é uma categoria, não categorizada. O Xunga é em si mesmo ele próprio, sem o ser, conscientemente.

É vê-lo de cabelo absolutamente empastado de gel, camisa aberta no peito (gerações, senhores, gerações!) e, dependendo da idade, se for jovem um brinco de ouro numa das orelhas (uma qualquer, não interessa), se for mais velho, um cordão de ouro ao pescoço. A fórmula é a mesma.

Mesmo que se lave, o Xunga não consegue deixar de ter aspecto de quem nunca toma banho, parece sempre sujo e a necessidade constante de cuspir no chão, não ajuda a compor a figura. O Xunga também se caracteriza pelas suas constantes dificuldades financeiras, que o levam a uma necessidade constante de pedir “uns trocos”.

“Ei chavalo, orienta aí­ uns trocos”, é o seu cumprimento mais habitual.

Os Xungas também são facilmente distinguí­veis pelo facto de levarem a famélia toda para o Centro Comercial. Normalmente um “pai” e uma “mãe” Xungas trazem consigo dois ou três filhos Xungas, fora o filho Xunga Adolescente, que se movimenta sozinho, cobrindo a missão dos “trocos” e o filho Xunga-de-colo, que, escorrendo ranho, berra convenientemente nas alturas inconvenientes (i.e.: todas); a acompanhar o clã, normalmente, podem ainda ver-se um ou outro aví´-xunga ou avó-xunga, sempre em marcha lenta e com um odor levemente “curioso”.

Domingueiros

Os Domingueiros são Domingueiros em tudo o que fazem: é que o senhor (ou o Senhor, como é conhecido nalguns locais), disse que ao Domingo ninguém trabalha, ou coisa do género e, portanto, ao Domingo é preciso é ter calma. Assim, os domingueiros conduzem devagar, almoçam durante 5 horas e passeiam-se nos corredores do centro comercial como se de uma longa e demorada procissão se tratasse.

Os Domingueiros vestem-se para ir ao centro comercial… isto é, vestem os seus fatos de domingo, como é evidente… isto não implica que outros vão nús.

Assim, de fatinho de domingo, que antigamente servia para ir í  igreja ou ao futebol, os Domingueiros fazem a sua peregrinação ao centro comercial mais próximo. Mas o que vão eles comprar?

Mas… nada! Comprar?

Os Domingueiros vão para o centro comercial passear! Porque aquilo sim, são ares! E que vista!

Os corredores são amplos o suficiente para toda a famí­lia e mais os 12 carrinhos de bebé e, convenientemente, existem bancos de mármore aqui e ali para ir deixando a velharada enquanto os mais jovens continuam, alegres e contentes, a percorrer os corredores em ciclo, aparentemente, infinito.

Os Domingueiros deslocam-se, assim, em manada, lentamente… muito lentamente, ocupando, se possí­vel, toda a largura dos corredores do espaço comercial em questão e, se em número suficiente (normalmente assim é), cobrindo com membros do seu grupo montras inteiras, enquanto pronunciam frases como “isto aqui é tudo tão caro”.

Membros deste grupo são também conhecidos por praticar a tática de guerilla urbana conhecida como “parar para conversar bloqueando o único espaço de passagem possí­vel”, mas isso… é tema para um novo dicionário.

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Enciclopédia de Automobilistas Portugueses II

Bem vindos À segunda edição desta enciclopédia. Passou já mais de um ano sobre a primeira edição e urgia por no “papel” mais algumas informações fundamentais para quem se desloca nas estradas e ruas de Portugal.

Conduzir é uma actividade perigosa, mas o perigo aumenta exponencialmente sempre que não estamos sozinhos na estrada. Vejamos então mais alguns destes perigos sobre rodas e formas de lidar com eles:

Práticas Comuns do Automobilista Português:

Ultrapassar pela direita (O Dextroultrapassador)

O automobilista português gosta de ultrapassar. Este é o facto mais importante da sua vida: ultrapassar. Estar í  frente é tudo para este condutor latino, estar atrás, é o mesmo que ser um “maricas”, “nabo” ou “cepo”. No nosso paí­s, bem como na maioria do mundo civilizado, os condutores sentam-se do lado esquerdo do veí­culo, lado pelo qual se devem efectuar as ultrapassagens pela simples razão de a atenção e visibilidade do condutor ultrapassado serem melhores.

Mas que grande monte de tretas! O condutor português quer lá saber disso! Não é perigoso? Então qual é o gozo? A verdade é esta: se o condutor estiver atrás e quiser passar para a frente (e quem não quer?), qualquer dos lados serve, desde que haja uma nesguinha.

Há várias maneiras de se divertir com um dextroultrapassador. Por exemplo, certifique-se que nunca deixa espaço para que passe de qualquer dos lados, mude de faixa frequentemente, gorando sempre a tentativa de ultrapassagem por qualquer dos lados. Mas a minha favorita só pode ser efectuada na estrada: impeça que o condutor atrás de si o ultrapasse, mas conduza a um ritmo relativamente lento, despertando na sua ví­tima o intenso desejo de o ultrapassar, depois, impeça algumas vezes a ultrapassagem pela esquerda, mas dê espaço í  direita… se a ví­tima for um Verdadeiro Automobilista Português, não hesitará em aproveitar a deixa.

Certifique-se que apenas lhe dá passagem quando í  sua direita houver um precepí­cio. Quando a ultrapassagem for a meio… encoste-se levemente í  direita.

Perseguir outros condutores (O Motorista Persecutório)

O fenómeno ainda não está bem estudado, mas é verdadeiro. Os Automobilistas Portugueses gostam de perseguir outros automobilistas. Na estrada, na auto-estrada e mesmo na cidade esta constatação é verí­dica. Eu sei porque já me aconteceu e conheço pelo menos mais dois relatos fide-dignos.

Os Automobilistas Portugueses são, como já vimos na edição anterior, ases do volante… são condutores experientes, calejados… e o problema é mesmo esse: os calos. É que não se podem pisar os calos de um Verdadeiro Automobilista Português (VAP).

E como se pisam os calos do VAP?… Como diria o poeta: “…let me count the ways”. Circulando normalmente nas estradas de Portugal é quase impossí­vel NíƒO pisar pelo menos de vez enquando, os calos a um VAP. Uma ultrapassagem legal, uma buzinadela de aviso (tipo “olhe que leva a porta aberta”), um gesto que faça na privacidade do seu veí­culo e que possa ser interpretado como um insulto ao VAP ou até mesmo apenas entrar numa faixa de rodagem de forma perfeitamente legal e sinalizada mas… À FRENTE de um VAP. O que fazer?

É quase impossí­vel dizer o que se pode fazer quando se encontra um VAP com a mania da perseguição (não confundir com paranóia, estou mesmo a falar da mania de perseguir os outros), pois as variáveis são imensas. Poderá fugir-lhe por caminhos alternativos, poderá deixa-lo passar e persegui-lo você, poderá talvez mesmo chamar a polí­cia.

Não sei explicar porque alguns VAPs metem na cabeça perseguir outros condutores. Não compreendo, porque no dia-a-dia nas ruas, a pé, não se vêem pessoas a perseguirem-se umas í s outras, por esta ou aquela indelicadeza. Se algum dia se vir perseguido por um VAP… improvise. Meça bem a situação e faça o que o instinto lhe mandar, mas faça os possí­veis por fazer o VAP sofrer uma qualquer consequência do seu acto imbecil: tente fazer com que se estampe, siga por um caminho que não pretendia seguir, mas que seja longo e aborrecido, leve o Motorista Persecutório atrás de si até que se farte. Finalmente, a melhor hipótese depende da sua capacidade de arrear. Se for bem dotado e souber bater, deixe que o Motorista Persecutório o apanhe e saia do veí­culo atrás de si, saia também, mas não fale, não se mexa, não se desloque… aguarde apenas a sua chegada. Depois, dê-lhe um enxerto de porrada.

Fazer corridas nos semáforos (O Schumacher dos Sinais)

É outro facto: os VAPs gostam de corridas. Os semáforos são para um VAP uma verdadeira grelha de partida de um grande circuito mundial e eles têm a pole position. Primeiro olham para si de lado, como que a confirmar a corrida, depois dão uns toques no acelerador, fazem o carro avançar um pouco e depois um pouco mais… sempre naquela actividade tão portuguesa de “picar”.

Este génio da ciência automóvel acha que arrancar a chiar os pneus, acelerando o mais que lhe é possí­vel no meio de uma cidade é uma actividade que o faz subir vários pontos na escala de produção de testoesterona do seu bairro ou sociedade filarmónica local.

Se tiver uma mota então, vai deparar com muito mais Michael Schumachers dos Sinais Luminosos, isto porque como são dotados de um QI baixí­ssimo, os VAPs acreditam que o seu carro em particular consegue “ganhar” a uma mota. Não consegue.

Como agir? Fácil: nunca ceda. Nunca entre na corrida. Mas faça de conta que sim… entre na dança, acelere, engrene o carro e dê-lhe arranquezinhos… e depois, quando o verde surgir, fique alegremente para trás. Arranque o mais lentamente que lhe seja possí­vel sem atrasar o trânsito do semáforo. Se possí­vel, vire na primeira transversal, indicando que nem sequer pretendia seguir em frente.

Deixe o Schumacher seguir sozinho… de qualquer maneira, é sempre ele que ganha.

Usar as faixas fechadas, Seguir nas faixas do bus, Ultrapassar as filas e entrar � frente de toda a gente & Seguir na berma evitando as filas. (O Ultrapassador de Filas)

Estes quatro comportamentos são agrupáveis porque todos se prendem com uma ideia muito comum entre os Verdadeiros Automobilistas Portugueses: “sou mais esperto que os outros”.

Não é segredo para ninguém que por vezes se formam filas de automóveis. Existe um atraso, um acidente, uma obra, uma faixa encerrada por motivos desconhecidos, ou simplesmente carros a mais e estrada a menos e forma-se uma enorme fila de carros, uns atrás dos outros, andando uns escassos metros de cada vez. Mas se observarmos o comportamento dos VAPs nestas alturas, chegamos rapidamente í  conclusão que, afinal, as filas são para os tansos. Senão vejamos…

Existe uma fila para uma portagem, demasiados carros a parar para pagar a sua passagem e seguir em frente causam uma natural acumulação de trânsito. A fila apenas não existe em frente í s cabines de portagem que não estão em funcionamento, por razões óbvias: ali, ninguém passa, a cancela está fechada. Oportunidade de ouro para o VAP! Para quê ficar meia-hora numa fila para chegar í  portagem? Nada disso! O VAP coloca-se assim que pode na faixa encerrada e segue até í s cabines de portagem a alta velocidade… já poupou meia-hora! Claro que agora precisa de se enfiar na portagem aberta mais próxima, mas isso não é problema, porque ele é um VAP e os outros são todos “cepos” das filas. Mais tarde ou mais cedo o VAP vai conseguir meter-se no princí­pio da fila e vai deixar para trás os outros. Ele é de facto mais esperto. Quem diz portagens fechadas diz faixas de bus.

Verifica-se uma situação semelhante quando saí­mos ou entramos em autoestradas, por exemplo… normalmente a via de acesso tem duas faixas que fecham numa só. Este facto está bem explí­cito em sinais de trânsito e sinalização horizontal (leia-se “setinhas no chão”) e portanto, os condutores respeitadores encostam í  direita e formam uma fila, normalmente um pouco lenta, para, um a um, entrarem na via que se segue.

NABOS!

Qual é o problema da faixa da esquerda deixar de existir? Se não há lá carro nenhum, é mesmo por lá que o VAP vai! E a alta velocidade, de preferência… os outros que esperem pela sua vez. O VAP não tem tempo e chegado ao fim da faixa, trepa separadores se for preciso, ele tem é que chegar lá AGORA e não daqui a pouco.

Outra situação são as longas filas que se geram, normalmente em regressos de longos fins de semana de papo para o ar. O trânsito é dolorosamente lento e levam-se horas a chegar seja onde for… a menos, claro, que se seja um VAP… porque o VAP não hesita em usar a berma! Sim, a berma! Mas porque raio há-de o VAP estar parado numa fila infindável de “nabos” quando pode perfeitamente seguir a 100 í  hora pela berma, que ainda por cima é larga e bem alcatroada? Quando for preciso voltar í  estrada não há problema nenhum, há sempre um tanso que se desvia para deixar passar sua alteza.

Bem, todos estes comportamentos tâm apenas uma solução: não deixe entrar. Repito: NUNCA deixe um ultrapassador de filas entrar. Ele que sofra, ele que bata, se quiser, é ele que paga. Quando deixa um ultrapassador de filas entrar é o mesmo que o deixar ir a sua casa, sentar-se no seu sofá, virar-se para si e dizer: “você é um grande imbecil, eu sou, pelo menos, 100 vezes mais inteligente que você, sua besta”, pense nisto da próxima vez que vir um a tentar meter-se.

Se estiver no trânsito e vir passar ultrapassadores de fila na berma, ligue para o 112, certifique-se que avisa logo que não se trata de uma emergência, para não abusar do serviço. Depois avise que está parado na estrada tal e que há fulanos a circular na berma. Em pouco tempo estará lá a brigada da GNR, acredite, eles adoram ultrapassadores de filas.

Quando passar pelos VAPs parados a serem multados, ponha a cabeça de fora e grite “Pela lei e pela grei!”. É o lema da GNR. Vai fazê-los sentir mais zelosos.

Falar ao telemóvel enquanto conduz (Atendedores Crónicos de Telemóveis)

Já quase toda a gente atendeu uma chamada enquanto estava ao volante. É proí­bido, mas já quase toda a gente o fez. No entanto não é dessa categoria de condutores que falamos… mas sim dos Atendedores Crónicos de Telemóveis. Os ACT existem por todo o lado… nunca deixam de atender uma chamada, quer seja o Dalai Lama ou o filho mais novo a pedir pastilhas elásticas quando voltar para casa, todas as chamadas são importantes, todas as chamadas são urgentes, em qualquer lugar, a qualquer altura.

Os ACT atendem chamadas na rua, no emprego, nos transportes, na biblioteca, em concertos, em lojas, no hipermercado/centro comercial (habitat natural) e até mesmo ao volante. É vê-los a alta velocidade, largamente acima do limite legal e com um grande sorriso estampado no rosto, tal é a alegria de terem um pequeno telefone entalado entre o ombro e a bochecha para poderem dizer algumas trivialidades a uma pessoa com a qual provavelmente não falariam em condições normais.

A verdade é que o ACT conduz bestialmente mal… podemos ver o seu veí­culo a descrever zig-zags pela estrada fora, a efectuar acelerações e desacelerações incompreensí­veis… o ACT passa sinais de stop sem sequer os ver, ignora perdas de prioridade, passa com o semáforo vermelho e esquece-se de arrancar no verde. Tudo porque está ao telefone e nem se apercebe o quão distraí­do está.

Todos os ACTs pensam que estar ao telefone não os distrai e é isso que os torna perigosos; ficam tão alheados da realidade que se tornam um perigo assassino para todos nós.

O que fazer? Nada como um valente reality check. Arranque o ACT do seu edí­lico telefonema com buzinadelas fortí­ssimas e sinais de luzes, passe por ele e faça um ar alarmado, melhor, faça um ar de verdadeiro desespero e aponte vigorosamente para as rodas do ACT, deite uma mão í  cabeça se puder e grite, grite muito, mas nada que o ACT compreenda, inclua apenas algumas palavras compreensí­veis, como “pára-choques”, “roda de trás” ou “panela do escape”.

Deixe-o entrar em pânico, deixar cair o telefone para debaixo do banco, imaginar dezenas de problemas graví­ssimos que se passem com o seu veí­culo… ele não terá a certeza se está a meter-se com ele, pois vinha tão distraí­do com o telefonema que não se vai lembrar se por acaso terá atropelado uma velhinha que ainda trás agarrada ao châssis do carro. Pode ser que da próxima deixe o telefone em casa.

E é tudo por esta edição. Esperamos que, em conjunto com o primeiro volume, esta obra possa ser útil aos nossos leitores. Ainda não está planeada uma terceira edição, mas nunca se sabe o que o futuro guarda.

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Enciclipédia de Automobilistas Portugueses I

Bem vindos í  primeira edição da Enciclopédia de Automobilistas Portugueses, uma útil referência sobre as diversas estirpes desta praga que são os portugueses ao volante. Identifique-os, saiba como evita-los, aprenda a defender-se ou mesmo a contra-atacar.

1. O Senhor Cento e Quarenta

O Sr. Cento e Quarenta é um dos mais abundantes condutores nas auto estradas de Portugal. Julgando-se um verdadeiro í s do volante (aos poucos veremos como praticamente TODOS os condutores se acham ases do volante…), este espécime anda, na sua opinião, “a abrir”, sempre a 140, não se chega a aperceber que na verdade não vai especialmente depressa. Claro que andar a 140 não é nenhum pecado, é uma boa ideia, para quem segue pacificamente na faixa da direita. Mas o Sr. Cento e Quarenta, considera-se um verdadeiro devorador de alcatrão, imagina-se sempre rasgando o traço contí­nuo de sinuosas pistas de pilotagem e considera 140 uma velocidade verdadeiramente alucinante, pelo que não hesita em seguir pela faixa mais í  esquerda, muitas vezes lado a lado com outros condutores nas faixas da direita.

Como proteger-se: Coloque-se í  frente do Sr. Cento e Quarenta e desacelere. Obrigue o Sr. Cento e Quarenta a descer a sua velocidade, digamos, para 100. Espere que este verdadeiro Schumacher comece a ficar impaciente e nessa altura ponha a tábua no chão e faça-o comer o seu pó. Mostre ao Sr. Cento e Quarenta, que os automóveis que andam realmente depressa… andam… REALMENTE depressa.

Desacelere quando já não vir o Sr. Cento e Quarenta no espelho. Com sorte ele perceberá mais tarde ou mais cedo que conduz devagar e que o seu lugar é na faixa da direita, com a ocasional ultrapassagem… a 140.

2. O Senhor Halogéneo

Ah, o Sr. Halogéneo! Como o adoramos. Faróis novinhos, super potentes, de preferência em número nunca inferior a quatro, dois “normais” e dois de nevoeiro. Sim, porque Portugal � um pa�s conhecido mundialmente pelo seu nevoeiro. H� que equipar o ve�culo com potentes far�is para quando o nevoeiro vier, n�o v� atropelar-se o D. Sebasti�o, por n�o se ver um palmo.

Ainda n�o foi poss�vel a esta Enciclop�dia compreender porque � que o Sr. Halog�neo acende sempre os seus far�is de nevoeiro, quer esteja ou n�o, de facto, nevoeiro, ou mesmo dentro da cidade. A sua condu��o nocturna comp�e-se de tr�s passos iniciais b�sicos: entrar no carro, rodar a chave, ligar os far�is de nevoeiro, n�o v� o Diabo tec�-las…

Mas nem s� de noite o Sr. Halog�neo usufrui do seu h�bito t�o prilampesco! N�o, claro que n�o, durante dias de sol brilhante � extremamente importante circular com os m�dios ligados, para que os outros condutores, obviamente com problemas de vis�o, os vejam aproximar-se (de prefer�ncia na faixa da esquerda), a, pelo menos, 5 kms de dist�ncia. O Sr. Halog�neo por vezes acumula fun��es como Sr. Colas (ver � frente), dando libertino uso aos seus encadeantes m�ximos para afastar da frente outros ve�culos de classe inferior ao seu.

Como proteger-se: Se se cruzar com um Sr. Halog�neo na estrada, � simples, deixe-o ultrapassar e coloque-se imediatamente atr�s dele. Ligue os m�ximos e n�o o perca de vista nunca, nem deixe a dist�ncia aumentar mais do que 2 metros. Siga-o at� casa, mesmo que n�o seja nem perto do seu destino original. Durma no seu carro, � porta dele, com os seus far�is apontados � janela do quarto.

3. O Senhor Colas

O Sr. Colas nunca ouviu falar da dist�ncia m�nima de seguran�a. O carro do Sr. Colas est� equipado com modernos sistemas de travagem que nunca lhe trar�o problemas e, mais a mais, o Sr. Colas � um condutor t�o fabulosamente ex�mio que consegue prever exactamente quando � que o condutor da frente vai travar e precaver-se reduzindo a sua pr�pria velocidade de forma imediata!

Bom, pelo menos o Sr. Colas est� convencido disto.

N�o � um bonito espect�culo quando vemos um autom�vel passar na faixa ao lado da nossa, imediatamente seguido de 3 outros, todos a nunca mais de 20 cent�metros de dist�ncia uns dos outros? � sem d�vida uma arte popular que n�o se pode perder. � tamb�m agrad�vel olharmos pelo nosso espelho e apercebermo-nos que nem que se atravesse na estrada todo o coro infantil de Sto Amaro de Oeiras, poderemos sequer tocar no trav�o, pois o Sr. Colas entrar� imediatamente pela mala do nosso carro a dentro.

O Sr. Colas tamb�m tem esp�rito de Sr. Halog�neo (e vice versa, como referido acima) e consegue melhorar a sua actua��o fazendo frequentemente sinais de luzes ao carro ao qual vai colado, para o caso deste n�o ter ainda notado o simp�tico que segue a 10 cent�metros da sua traseira.

O Sr. Colas � um homem mau, zangado e perigoso, provavelmente com graves problemas em afirmar a sua masculinidade que apenas consegue provar atirando para fora do seu caminho todos os carros que lhe apare�am pela frente.

Como proteger-se: O Sr. Colas anda depressa, muito depressa, porque tem que chegar ali � frente j�, porque daqui a bocado vai ser tarde demais. Por isso � f�cil de detectar, quando vir um aproximar-se, mude para a faixa dele e coloque-se rapidamente lado a lado com outro ve�culo que siga na faixa do lado. Mantenha a sua velocidade igual � do ve�culo do lado e, a menos que a estrada tenha 3 faixas, o Sr. Colas n�o ter� hip�tese sen�o… colar-se a si. Aguente firme, n�o fique nervoso. Coloque os �culos escuros para poder ignorar os sinais de luzes do Sr. Colas e siga alegremente o seu caminho.

Quando achar que o Sr. Colas j� est� farto e talvez um pouco distra�do… trave.

4. O Sr. Saxo

� um fen�meno da natureza, mas nunca se tinha visto um carro t�o reles ser t�o torturado pelo seu condutor. Se ouvir uma lata a desconjuntar-se e uma caranguejola a dirigir-se para si a uma velocidade desumana, � provavelmente o Sr. Saxo. Se lhe parecer que aquele pequeno Citr�en est� a arriscar-se a virar-se nas curvas… � porque est� mesmo. Se achar que aquele n�o � um carro de f�rmula um, n�o parece um carro de rally e n�o tem nem um pingo de stock car… tem toda a raz�o.

N�o se compreende o que leva os condutores de Saxos serem t�o aceleras. N�o se compreende o que leva os aceleras a comprar Saxos. Mas desconfia-se que ainda n�o perceberam que n�o � um Citr�en Sexo, mas sim Saxo… talvez assim, possam dizer que t�m um granda saxo, com montes de kil�metros.

Como proteger-se: n�o pense duas vezes, deixe-o passar, quer � v�-lo ao longe, n�o vai querer estar perto quando ele finalmente capotar.

5. O Sr. Seat

Independentemente de quem constr�i o carro, de quem faz o motor ou de quem � dono das f�bricas, o Seat � um carro espanhol. Os modelos t�m nomes de cidades espanholas. O Sr. Seat � claramente um traidor � p�tria. S� pode! De que outra forma acha que pode comprar um carro espanhol e com ele passear-se em estradas lusitanas? Parece imposs�vel.

Como proteger-se: compre tinta em spray para grafitti, antes que o Paulo Portas a torne ilegal; espere pelas tr�s da manh� e depois percorra a sua rua escrevendo “traidor” no capot de todos os Seat que encontrar. Vai ver que se sente mais patri�tico pela manh�.

6. O Sr. Topo de Gama

O Sr. Topo de Gama n�o paga impostos, v�-se logo pelo dinheiro que gastou no carro. Normalmente � um Audi, um BMW ou um Mercedes, topos de gama, claro, por vezes um Volvo ou um Saab. Todos estes modelos fabulosos v�o dos 0 aos 100 em 236 segundos, que � o tempo que o Sr. Topo de Gama leva a acelerar. Quando nos colocamos atr�s de um destes condutores, na esperan�a de que abram caminho pela encosta de Monsanto acima, rapidamente nos apercebemos que o Sr. Topo de Gama n�o tem qualquer inten��o de usar qualquer um dos 325 cavalos do seu motor.

Come�amos a pensar que o Sr. Topo de Gama poderia perfeitamente estar ao volante do nosso Fiat ou Opel Corsa enquanto n�s seguiamos alegremente, fazendo coisas t�o bizarras para o Sr. Topo de Gama como levar as mudan�as at� � redline, fazer ultrapassagens em terceira ou mesmo… sei l�… andar depressa!

Como proteger-se: n�o pense duas vezes, este � um caso claro de ultrapassagem urgente. Mesmo que tenha que ser pela direita. N�o hesite, ultrapasse. E acredite, quanto mais reles e barato for o seu carro, melhor se vai sentir ao ultrapassar o Sr. Topo de Gama.

E fica por aqui este primeiro volume da Enciclop�dia de Automobilistas Portugueses. Esperemos que tenham gostado.

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Dicionário de fumadores

Não sou nem nunca fui fumador, nem nunca quis fumar, nunca me interessou. Não sou purista da saúde, nem evangelista dos malefí­cios do tabaco. Mas nunca tive o menor interesse na coisa. Aliás, contrariamente ao que se passou com a maioria dos putos, mesmo aqueles que acabaram por não dar em fumadores, nunca sequer experimentei um cigarro. Não tenho a menor das ideias a que sabe, como se sente, o que é.

Mas convivo com fumadores, como todos convivemos. E eu não sou anti-tabaco. Não sou anti-tabaco como não sou anti alcóol, marijuana e diria mesmo, ecstasy, coca ou seja o que for que queiram snifar, beber, ingerir ou absorver rectalmente, para parafrasear o George Carlin. Desde que NíƒO ME CHATEIEM!

E aí­ está um problema! Chateiam-me!

É que, enfim, se ser do Sporting é uma doença que afecta apenas um determinado tipo de pessoas (sportinguistas), fumar pode afectar qualquer um… Tanto fumava o Fernando Pessoa, como fuma o Fidel Castro; tanto fuma o Zé Cascalho, estivador no porto de Setúbal, como dá umas passazinhas o Professor Doutor Moreira Cunha e Sá, Excelso Anatomista e Director Daquela Coisa Grande com Camas e Janelas.

Ou seja, não quero que ninguém se ofenda com as minhas generalizações – embora tenha a certeza que muita gente se ofenderá, porque ofender-se com o que os outros dizem é um modo de vida – mas já não passava mais um dia sem escrever o meu dicionário de fumadores, espécie que é quase tão ou mais enfuriante que um Automobilista Português.

O Fumador Elevatório

O Fumador Elevatório é uma espécie extraordinariamente abundante nos centros populacionais mais densos, como são exemplos os bairros suburbanos. Quando mais altos os prédios, maiores as possibilidades de enconrtar um Fumador Elevatório. Ao que parece, fumar um cigarrinho é um acto tão compulsivo, que este espécime é totalmente incapaz de esperar 30 segundos para acender o seu Marlboro.

Mesmo quando apenas dois ou três andares separam este animal da rua, ele não pode deixar de dar as primeiras passas no seu cigarrinho dentro do espaço exí­guo do elevador. Que se lixe quem vem atrás… respirar uma boa nuvem de fumo não deve fazer mal nenhum e muito menos incomodar.

Da próxima vez que subir – não descer, subir – com um destes espécimes num elevador, dispa-se rapidamente até ficar todo nu, explique ao seu educado vizinho que vai tomar banho assim que chegar a casa e embora a banheira esteja a um minuto de distancia, você já não pode esperar mais para se começar a despir… se por acaso tiver um sabonete consigo, peça-lhe que comece a lavar-lhe as costas.

O Fumador Restaurantista

Eis um assunto controverso!

Quando se toca em “fumar ou não fumar em restaurantes” todos os fumadores são “Fumadores Revolucionários Oprimidos” (ver mais í  frente). Aqui não é o prazer de um cigarrinho depois do café que está em questão. Não, nada disso! Em questão está a LIBERDADE! Sim, esse valor humano por tantos desejado e tão poucas vezes alcançado. A liberdade de lançar baforadas para cima da refeição dos outros, a liberdade de empestar o ar com cheiro a tabaco, a liberdade de apagar beatas em cascas de melão e restos de baba de camelo! Precisamos de manter viva a chama da Liberdade!

O fumador restaurantista não tem vergonha. Aliás, os fumadores raramente têm vergonha, sejam de que tipo forem. Mas este espécime não tem qualquer problema em misturar o seu ví­cio sujo com a comida das outras pessoas.

E quando se chama a atenção o que acontece? “Estou no meu direito!”

A velha frase, que faz de tantos Fumadores verdadeiros Che Guevaras. O ideal nestes casos é exibir bem perto do FR uma das suas funções corporais… Pegue numa taça de mousse de chocolate já comida e urine lá para dentro. Aaaaah, que alí­vio, não é? Soube tão bem… se alguém se queixar é fácil: “Estou no meu direito! Sabe-me tão bem uma mijinha depois do café, como a si um cigarrinho!”

Os Fumadores de Concerto

É proí­bido fazer 520 coisas em concertos. E no entanto toda a gente faz. Tirar fotografias, levar garrafas de água… fumar.

Tirar fotografias ou beber um golinho de água do luso não faz mal a ninguém (ok, as garrafas podem servir para arremessar, mas isso é outro assunto), agora os cigarros… como dizer isto…

Será possí­vel que alguém precise de fumar ao ponto de não aguentar duas horas de um concerto? Será possí­vel que seja assim tão difí­cil que valha a pena transformar o recinto numa espécie de câmara de gás, a maioria do público com menos 3 ou 4 brí´nquios e correr o risco de pegar fogo í  alcatifa, matando rapidamente milhares de pessoas?

E mesmo que essas pessoas decidam que vale a pena correr o risco de causar um acidente grave numa sala a abarrotar de pessoas… o que as fez decidir que EU quero correr esse risco? E já sei qual é a desculpa… É que “um concerto sabe muito melhor com um fuminho”.

A solução passa por levar um cesto, uma daquelas tradicionais alcofas, cheia com estrume bem fresco. Pode sempre justificar-se dizendo que “um concerto sabe muito melhor com um cheirinho”.

Os Fumadores Inadiáveis

Trinta segundos? Não posso! Vinte… Dez segundos?? Não! Não! Não pode ser, não posso esperar, tenho que fumar AGORA!

São os fumadores inadiáveis… São aqueles que quando toda a gente está a pensar em sair do cinema, do autocarro, do avião… eles estão a pensar em acender um cigarro.

Ainda vamos no corredor de saí­da do Coliseu ou na porta levadiça do Cacilheiro e já estamos a receber na tromba as primeiras baforadas de três ou quatro cigarros… estamos a 40 metros da rua, do ar livre, do espaço aberto, mas os fumadores inadiáveis são assim mesmo: inadiáveis! O cigarro não pode esperar.

Da próxima vez que assistir a esta triste cena roube os cigarros ao que estiver mais próximo de si, vê-lo-í  imediatamente desatar a correr atrás de si em desespero. No fim entregue-lhe os cigarros com uma expressão de piedade nos olhos.

Os Charutistas Unidos

O charuto foi uma forma que alguns povos arranjaram de enrolar merda com uma folhinha de tabaco para poderem espalhar o seu cheiro nauseabundo por uma distância maior. Nem mais, nem menos.

Os crónicos fumadores de charuto em público, são, quase sempre, uns bardamerdosos pomposos com cara de cu, a quem só apetece dar bofetadas. Há quem aprecie o seu charuto em casa com os amigos, há quem tenha o culto do charuto, enfim, há coisas que ninguém compreende, mas que continuam a atingir certas pessoas e por nós… tudo bem.

Mas na maioria dos casos, quem se estira na cadeira do restaurante após uma boa refeição e acende um charuto que vai levar 45 minutos a fumar, só pode ser um palerma sem qualquer respeito por absolutamente ninguém, a não ser por si próprio. O cigarro incomoda, irrita e cheira mal… o charuto é ainda pior, cheira horrivelmente, causa ardor na garganta e nos olhos e pode despoletar crises de dificuldades respiratórias muito rapidamente, como eu próprio já tive oportunidade de comprovar.

O que fazer?

Dirija-se ao agressor, arranque-lhe o charuto da boca e diga-lhe: “Lembra-se da Monica? Tem 10 segundos para se por na alheta antes de eu lhe mostrar como ela gostava de usar os charutos do presidente.”

É vê-los correr.

Se não resultar, abra-lhe a cabeça com pancada.

Os Cachimbeiros de Espaços Fechados

Fumar cachimbo não serve para nada a menos que se seja o Popeye.

Se ao fumar um charuto se está a tentar dizer: “sou um novo rico, uso pulseiras de ouro e conduzo um BMW topo de gama em que nem sequer sei meter a quinta”, quando se fuma um cachimbo, normalmente tenta fazer-se claro que se é um intelectual, mentalmente evoluí­do, que já leu todos os horrí­veis livros do Saramago e já se aturou todos os filmes inaturáveis do Oliveira.

Claro que muitas vezes, as pessoas que são, não precisam de tentar mostrar que são, pelo que os que fazem grandes esforços para se mostrarem ser… geralmente… não são. Compreendem…

O cachimbo não cheira tão mal como o charuto, mas cheira pior que o cigarro. Mas tem um problema acrescido! Como é “elegante” e “evoluí­do” fumar cachimbo, os Cachimbeiros tendem a não ter qualquer puder em fumar em qualquer lado, mesmo que seja uma sala de provas num pronto-a-vestir, onde o ar vai ficar irrespirável durante 6 horas.

Se conhecer um Cachimbeiro que teima em fumar em espaços fechados, prepare uma caixinha com um pouco de água e detergente da loiça. Quando apanhar o Cachimbeiro com a arma do crime atrás das costas (gesto habitual, para dar ênfase ao ar doutorado), despeje um pouco da sua mistura no cachimbo.

Fique a ver o espectáculo de bolinhas de sabão, quando ele se engasgar.

Os Fumadores Revolucionários Oprimidos

Muitos fumadores pertencem aos FRO. Sinceramente, de todas as atitudes dos fumadores, a que mais me irrita é esta. Ao que parece, pedir a alguém que apague o cigarro na mesa ao lado num restaurante ou no banco da frente do autocarro é estar a atropelar as suas liberdades pessoais.

Interditar o fumo em edifí­cios públicos ou locais fechados, hospitais ou repartições, restaurantes e transportes públicos é um atentado imoral contra os direitos dos fumadores.

Os fumadores a quem se pede por favor que não fumem estão a aser espezinhados pelas forças reaccionárias do fascismo que querem tolher-lhes o individualismo e o direito í  expressão! O fumador que não pode sacar de um cigarro e lançar sobre todos as suas núvens de fumo está a ser sujeito a repressão polí­tica do mais alto ní­vel, comparavel apenas í quela levada a cabo por Salazar, Pinochet e, sei lá, talvez mesmo Hitler!

Se alguma vez tiver o azar de pedir a um FRO que apague o seu cigarro, prepare-se para ouvir um discurso que poria em vergonha qualquer dirigente anarco-sindicalista sul americano! Prepare-se para ouvir falar de direitos básicos, liberdades individuais e como o FRO também não vai “a sua casa, dizer-lhe o que fazer” (isto, claro, independentemente de toda a cena se passar num local público onde você está a ser forçado a respirar uma coisa que não quer).

Sinceramente ainda não encontrei a melhor maneira de lidar com os FRO, sobretudo porque eles estão por todo lado e não há nada mais fenomenalmente irritante do que uma pessoa que nos está a incomodar ficar ofendida quando lhe pedimos que pare de o fazer.

Em caso de se deparar com uma destas situações, e se estiver para isso, dê um aviamento de porrada no cabrão, provavelmente não é boa pessoa de qualquer maneira e assim pode ser que perceba o que é realmente ser reprimido.

Conclusões

Todos conhecemos fumadores. Há muitos fumadores. O problema com o fumo é que é uma coisa externa. Não fica com o fumador, assim como o alcóol fica com o alcóolico ou a pancada fica com o tipo que levou a tareia… o fumo vem para cima de nós.

E é aí­ que a proverbial porca torce o proverbial rabo. Todas as pessoas fazem coisas que guardam para a sua privacidade, sejam relacionadas com hábitos ou higiene pessoal, tentamos que os nossos gases e odores não sejam públicos… a excepção vai para quem fuma, cujo gás do tabaco carburado é não só público, como é forçado í s outras pessoas. Sejam conscientes, ninguém quer impedir ninguém de fazer nada, mas também ninguém quer ser obrigado a fazer coisas que não quer.

Caso contrário temos molho!

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Noite de paz

Levantei-me í s seis, ainda faltava um pouco para o Sol nascer. Vesti-me rapidamente, para não deixar que o frio levasse a melhor e calcei as minhas docs como se de um ritual antigo se tratasse.

Fui ao armário do hall buscar a mala da Remington, enquanto mastigava qualquer coisa para afugentar a fome. Abri a mala e verifiquei que estava tudo em condições. Puxei pela alça e a SR8 soltou-se suavemente do poliestireno. Coloquei-a í s costas.

Acabei de beber o café, dei um beijo í  minha mulher que dormia suavemente, rodeada de gatos e inspirei profundamente. Noite de paz… não é o que diz a canção?

Subi ao telhado onde já tinha deixado as coisas preparadas ontem… uns baldes, umas ferramentas, umas telhas soltas. Não excessivamente encenado, mas no geral, uma boa imitação de uma qualquer obra a decorrer, abandonada na véspera de Natal pelos construtores, que se juntaram í s famí­lias para comer bacalhau e trocar prendas.

O oleado era perfeito para me esconder. Fiz deslizar a Remington para a minha frente e soltei a alça, que pus de lado para não atrapalhar. Coloquei o carregador, suavemente, por baixo e deixei que a minha mão se deleitasse com o prazer indescrití­vel de mover o ferrolho para trás, sentir a primeira bala a colocar-se e voltar a fechar a câmara, com lentidão e precisão.

Tapado pelo oleado, deitei-me sobre as telhas frias e esperei. Visto de longe a minha presença era imperceptí­vel. Passaram duas horas, o Sol nasceu e um dia de céu branco desenhava-se í  minha frente. Paciente, continuei a esperar… sabia que o velho fazia sempre uma passagem de manhã para verificar o terreno, antes da grande entrega.

Passados apenas mais uns minutos, a minha espera revelava-se frutí­fera: ao longe, quase indistintos, mas reais aos meus ouvidos, os guizos chocalhavam com a sua melodia habitual.

Preparei melhor a Remington, pus um olho contra o anel frio da mira, deixei que a minha visão se habituasse í  estranheza de um olho normal e outro com ampliação e miras desenhadas. Em pouco tempo, o trenó estava ao meu alcance.

Reduzi a respiração. Coloquei a mira no local mágico, aquele ponto mesmo por trás da orelha, onde o barrete vermelho deixava ver fartos caracóis grisalhos.

Inspirei profundamente. Deixei que o meu dedo se afundasse no gatilho, percorrendo lentamente metade do caminho. Deixei sair o ar dos pulmões, naturalmente, sem pressa…

Disparei.

O velho estremeceu e caiu para a frente. As Renas entraram em pânico e numa manobra desesperada aterraram mesmo no meu telhado.

Puxei o ferrolho da Remington e a bala utilizada saltou, quente, e aterrou com um tilintar melodioso nas telhas. Fechei a câmara e pousei a arma.

Levantei-me.

Dirigi-me ao Rudolph e entreguei-lhe o dinheiro combinado. Acho que ficámos amigos.

Correu tudo bem. Já tenho o fato do velho e as Renas concordaram em fazer mais um serviço.

Vemo-nos mais logo…

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