Subtil Arménio

Subtil Arménio era um coelho. Trabalhava numa fábrica de automóveis que havia falido seis anos antes. Subtil Arménio era responsável por soldar os fechos das portas de trás de todos os carros que só tivessem portas í  frente e era por isso um coelho muito ocupado.
Bizarma Constantino era um Alfredo. Gostava de fado e de vinho tinto. Jogava sueca na tasca do Laurelindo todas as terças e quintas, segundas e quartas, sextas sábados e quase sempre aos domingos.
Luzia Pernocas era fascista, mas muito bonita. Todos gostavam e não gostavam dela alternadamente consoante estivesse a mostrar as pernas ou a discursar em alemão sobre os malefí­cios da imigração. Era ela que fazia pastéis de bacalhau para a tasca do Laurelindo, que causavam furor entre os rapazes que se juntavam para jogar dominó todas as noites.
Um dia houve guerra entre os Normandos que eram a favor da implementação geral e os Armandos que eram completamente contra a normalização global.
Todos os rapazes foram chamados para a guerra e deixaram a Luzia a gerir a tasca. Foi nessa altura que Luzia começou a fazer pasteis de bacalhau só para arianos. Como não haviam arianos na aldeia, os pastéis não se venderam e quando os rapazes voltaram da guerra, todos mortos, ficaram bastante desiludidos por verem que a tasca tinha falido.
Ficaram todos sem sí­tio onde jogar dominó, o que acabou por não fazer diferença pois foram todos enterrados em caixinhas de madeira.
A Luzia foi trabalhar para o casino estoril, onde vende cigarros e distribui secretamente panfletos sobre como não se deevm servir carnes frias a judeus.
Subtil Arménio era um coelho, estava sentado ao seu posto, na fábrica de automóveis que havia falido seis anos atrás, com o seu maçarico em punho í  espera do próximo carro que só tivesse portas í  frente, para lhe soldar os fechos nas portas de trás.

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A intereferência sonolenta

É sabido que a controversa interferência sonolenta
Da almiscarada população castrense vespertina,
Que enormemente encorajada pela maltósia fervilhante
Atenta cuidadosamente na pormenorização do acampamento.

É bem conhecido da colossal massa populacional
A vontade intrinsecamente sorumbática apresentada
Por determinados sectores multi disciplinares do colectivo ambiental
Que examina cuidadosamente a possibilidade representativa imediata.

Não se podem queixar os violentamente desorientados,
A generalização incumbida de maravilhosamente oscular a maioria
Não se coí­be nem se admira, não se resolve, nem se inclina
É sinal indubitavelmente reverenciado do geotermismo determinado.

Conhece-se o avançar inadiável em termos práticos, inegável
Absorve-se a columbófila expediência da transmontana audiência
Coloca-se admiravelmente a advertência em colunas jónicas (dóricas e cretenses)
Aguenta-se a marcha lenta por respeito e reverência,
Tudo, pela interferência sonolenta.

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Dicionário de Masturbação

Aqui estamos, infalí­veis, para fornecer mais um serviço de valor perfeitamente incalculável e para o qual, sublinhamos, não recebemos qualquer subsí­dio do Estado ou patrocí­nio de entidade privada.
Não! A Branchless Monkeys Encyclopí¦dia actua independentemente do poder polí­tico e empresarial, numa missão nobre e incomparável de educar o povo!

E é assim que vimos novamente ao público falar de um assunto que, sentimos, necessitava urgente esclarecimento. A masturbação, essa arte milenar que Onan trouxe ao seu povo, numa altura em que não existia televisão, manifesta-se sob formas que se calhar o astuto leitor, por astuto que possa ser, ainda não absorveu completamente. E é por isso mesmo que a BME aqui está novamente, em socorro do Conhecimento.

Auto-masturbadores

Dirão, eventualmente, que auto-masturbadores são todos, afinal. Mas não é disso que se trata, aqui auto vem de automático, de automóvel, para ser mais exacto. Falamos dos masturbadores de automóveis.

Oh não há nada de tão maravilhoso como um masturbador de automóveis. Há-os de duas espécies: os lubrificados e os não lubrificados, claro.

Ou seja, os simples, sem aditivos, aqueles que gostam simplesmente de se ouvir falar sobre pré-tensores, ABS e volantes reguláveis, por um lado; e os que gostam de extras e discorrem apaixonadamente sobre airelons, leds de capot e subwoofers, por outro.

A BME revela um segredo chocante: os automóveis são todos precisamente iguais! É verdade! Não existe qualquer necessidade para 130 modelos diferentes por marca. Hatchback, coupé, monovolume, break… não, não, não! Nada disto é preciso.

É preciso um motor, quatro rodas e um banco ou dois, vá… E pronto!
O problema aqui é que o mundo está repleto de auto-masturbadores que não conseguem viver sem saber de cor quantos cilindros tem cada um dos 690 modelos í  venda no mercado hoje em dia.

Ali�s, n�o � incomum ver homens adultos, com um ar de aparente boa sa�de mental, � beira de uma estrada balbuciando: 3, 4, 3, 4, 4, 3, 3 com 16 v�vulas, 4… � medida que os carros v�o passando.

As conversas masturbat�rias dos auto-masturbadores n�o t�m nenhum fim que n�o a sua pr�pria exist�ncia. “Ent�o e diesel? J� viste o novo Seat TDI? Tem um motor 1.9 com injec��o common rail e 100 cavalos. Bolas, aquilo tem um bin�rio do cara�as, logo �s duas mil rota��es”.

Viram este exemplo e j� compreenderam como nada aqui serve sen�o para o puro prazer do orador… dizer coisas como “common rail”, sem saber do que se trata ou “1.9, TDI com 100 cavalos” levam o auto-masturbador a um extase pr�ximo do que alguns monges budistas descrevem como a proximidade do Wuji (sem extremidades), o abra�o do nada, o regresso � origem.

E se assim � a “seco”, que far� se lubrificarmos o auto-masturbador? Oh que orgia verbal e visual!

N�o bastavam as v�lvulas e os cilindros, n�o! N�o bastava a injec��o, nem o Turbo de Geometria Vari�vel (que coisa linda), nem pensar! Era preciso mais. E mais surgiu com esta segunda categoria de auto-masturbadores: os oleados, os tuners.

Sen�o vejamos: s�o os airelons, as saias laterais e at� mesmo as MINI saias laterais (que er�tico!), s�o os leds no capot, os r�dios com carro � volta, s�o as biqueiras de escape largas (e cromadas, n�o esque�amos), as pedaleiras e manetes de mudan�as em alum�nio e… a maior de todas as masturaba��es autom�veis… os mostradores do tablier com fundo branco!

Porque isso SIM!! Isso muda com-ple-ta-mente a performance do carro!

Um carro que tenha mostradores no tablier em fundo branco anda MUITO mais, gasta menos e tem maior ader�ncia em curva. Para n�o falar no intenso prazer carnal que o seu dono ter� ao perguntar aos amigos… “o qu�, tu n�o tens mostradores com fundo branco?”.

Masturbadores Vitivin�colas

Mas que terreno prop�cio � masturba��o nos oferece o mundo do vinho e da vinha, perdoem-nos o trocadilho.

Baco foi realmente inteligente ao inventar o vinho. O vinho � f�cil de fazer, juntam-se um monte de uvas a tr�s ou quatro pares de p�s de agricultores e depois deixa-se apodrecer. � um princ�pio que s� poderia levar a conversas masturbat�rias compar�veis �quelas que acab�mos de descrever para os que se dedicam ao mundo autom�vel.

Sen�o vejamos! Em vez de comer e efectivamente beber, os masturbadores vitivin�colas preferem perder-se em longas verborreias sobre a bebida. E h� muito a considerar: que se vai comer? porque h� coisas que n�o se comem com tinto e outras que obviamente n�o se podem comer com branco. Qual � a temperatura da sala? O vinho deve vir na garrafa, ou ser� melhor deita-lo num frasco com um fundo achatado a que damos um nome estranho para fingir que serve para alguma coisa m�gica que altera as propriedades do vinho?

E o ano? O ano, senhores, o ano! � infid�vel o n�mero de sess�es masturbat�rias que estas pessoas conseguem montar, discutindo minuciosamente como o mesmo vinho, produzido em 84 ou em 85 era completamente diferente e tudo isto, pensamos n�s, devido a uma caracter�stica particular do vinho: � que o vinho � uma bebida alc�olica, pelo que � perfeitamente compreens�vel os efeitos que tem em quem o bebe,

Quem nunca viu dois masturbadores vitivin�colas desafiando-se mutuamente a tentar identificar o tipo de uvas, apenas provando o vinho? Ou a discutir se preferem o alentejano ou o da beira? O que � isto? Isto, meus senhores, � sexo! Entre dois alc�olicos, nada mais.

E saiba tamb�m o leitor, que em Portugal, o vinho � a sexualidade dominante.

Pe�a uma sevenup num restaurante e ver� como olham para si espantados e balbuciam “bicha”, como quem n�o quer a coisa.

Masturbadores Restaurantistas

Num pa�s de gordos e b�bados, n�o seria de espantar que depois dos Vitivin�colas, viessem os Restaurantistas.

O Masturbador Restaurantista est� desejoso de poder praticar a sua arte diante do maior n�mero de pessoas poss�vel, pelo que � conhecido por arrastar toda a sua fam�lia, amigos e conhecidos para os locais mais improv�veis, em busca de um restaurante.

Um restaurante? N�o! Um restaurante BOM!
Porque n�o h� nada t�o satisfat�rio como conhecer de cor a localiza��o de todos os restaurantes e saber sem hesita��o qual o seu prato especial. Quais as doses habituais de sobremesas em cada restaurante e que tipo de entradas s�o disponibilizadas � tamb�m de suma import�ncia.

E enquanto se alambaza, o Masturbador Restaurantista faz o que mais lhe d� prazer: discursa, masturbatoriamente (claro), sobre outro restaurante qualquer.

N�o � invulgar ouvir “este salm�o n�o � mau, mas haviam de experimentar a Solha no Albertino, em Carcanhas de Baixo!”. Ou seja, h� sempre outro, noutro s�tio, que tem um prato melhor ainda. E claro, o ciclo n�o acaba.

O prazer ineg�vel que o MR tem em juntar um restaurante a tudo o que faz � not�rio num teste duplamente-cego (e surdo de um ouvido), que a BME fez, aqui h� uns tempos em condi��es perfeitamente controladas.

Tratou-se de um simples teste de associa��o livre, em que eram dadas ao MR diversas frases, palavras ou express�es, pedindo-lhe que nos dissesse a primeira coisa que lhe viesse � cabe�a. E invariavelmente a resposta confirmava o nosso diagn�stico.

Eis um excerto da entrevista:

BME: Alguidares
MR: Ameijoas � Bulh�o Pato, no T�nel, em Portalegre

BME: Submarino
MR: Choco frito � Setubalense, na Casa da Ti Alice, em Set�bal, claro.

BME: Conquista de Lisboa aos Mouros
MR: Bezugo na braza com batatas e azeite de alho, no Chefe Alfredo, em Aveiro.

BME: Fale de outra coisa.
MR: Torned� especial � Labrego, no Restaurante Santo Ant�nio em Lisboa.

BME: Voc� � um porco!
MR: Leit�o � Bairrada, no Mestre Leit�o. Na Bairrada, claro.

BME: Enfermeiro, leve-o, por favor.
MR: Gambas Tigre de Mo�ambique, grelhadas com lim�o, no Vista do Mar, em Loul�!!

Depois de alguns traquilizantes inject�veis, o MR conseguiu ainda balbuciar qualquer coisa sobre Jaquinzinhos com Arroz de Tomate, aparentemente no Escondidinho da Vila, em Sines.

Compreenda o leitor que as refei��es orgi�sticas destes indiv�duos n�o se devem ao seu gosto por comida, mas sim ao seu gosto por conhecer restaurantes! � esse gosto intenso, que liga as tr�s categorias apresentadas: conhecer, ter dados na mem�ria e debit�-los a quem passe. � assim como todos e o pr�ximo grupo n�o � excep��o.

Masturbadores FC

Os membros dos Masturbadores FC s�o aqueles cujo maior gozo adv�m de saberem os nomes de todos os jogadores de todas as equipas na III Divis�o, por Distrito, mesmo os que n�o jogam e incluindo todos os clubes que representaram at� a� e o que pensam vir a representar na �poca que se segue.

Falamos de futebol, claro.

Por exemplo, em que clube iniciou Figo a sua carreira? E em que ano foi para o Sporting? Onde nasceu Roger, quantos test�culos tem Jo�o Pinto e qual o n�mero de telefone de Ricardo s�o tamb�m aspectos a discutir, mas nunca t�o importantes como onde jogaram, quantos golos marcaram, em que ano, contra que equipa e… quem era o treinador?!

Os Masturbadores de autom�veis, vinhos e restaurantes t�m muito por onde falar e n�o lhes falta a g�ria, mas n�o os h� em grupos t�o vastos e dedicados como os membros do MFC. � que existem os iniciados, infantis, j�niores, equipas A e equipas B, e at� mesmo outras variantes que a BME ainda n�o conhece! Existem campeonatos locais, distritais, nacionais, internacionais, nunca acaba! S�o dezenas de milhar de equipas e provavelmente centenas de milhar de jogadores por todo o planeta!

H� que conhec�-los, saber se j� passarm pelo Locomotiv de Moscovo antes de irem para o G�tborg e se fizeram a� boa carreira, valendo a pena assim virem para o Pa�os de Ferreira, antes ou depois do meio da �poca.

Tudo isto � j� material masturbat�rio mais do que suficiente, n�o fossem ainda os treinadores, o seu background, os �rbitros, de onde s�o e o que faz a sua m�e nas horas vagas e os comentadores desportivos (tanto da r�dio e televis�o, como dos jornais). Mas h� ainda um manancial de puro prazer auto-er�tico para estes praticantes: os jogos.

Os jogos s�o acontecimentos de 90 minutos que fornecem assunto para dias a fio! E h� dezenas de jogos todas as semanas, nos campeonatos nacionais e internacionais dos diversos escal�es. S�o infind�veis as possibilidades, � como se para um Auto-Masturbador, sa�sse um novo Honda a cada dez minutos com duas diferen�as no motor.

Quando dois membros do MFC se encontram e ainda por cima s�o de clubes diferentes, n�o h� limites! � pura pornografia! Foi ou n�o penallty? Quem jogou melhor? O �britro empatou ou fez um bom trabalho? O treinador devia ser despedido? Qual deles?

Ficam t�o enredados na sua conversa masturbat�ria que o mundo em seu redor deixa pura e simplesmente de existir. Afinal, como acontece com todos os esp�cimes referidos. � assim que se pode provar por A + B que, diariamente, pessoas por todo o pa�s se masturbam, �s vezes mutuamente, sem qualquer pudor, em pleno p�blico!

E o caro leitor? Qual � o seu f�tiche? Equipamento hi-fi? Hardware de computador? Talvez m�sica pop ou cinema…? N�o pense que � um caso � parte, porque a BME tudo v� e tudo sabe… e em breve ser� a sua vez!

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O banho monárquico

«ALGUIDARES!» gritou o Rei batendo com a mão na tábua da mesa
«Alguém me traga uma celha para darmos um banho a esta bela Princesa!» A Princesa era bela de facto, gostosa de olhar e suave ao tacto
Mas o cheiro era insuportável e naquele cabelo piolho era mato

Enfiou-se a princesa no pote, pegou-se na escova e esfregou-se com jeito
Mas depois de muito esfregar, aquele bedum… nada feito
O rei decidiu então abrir um concurso para a banhada
Casaria com ela o prí­ncipe valente que a deixasse lavada

Logo veio, belo e formoso, o prí­ncipe do pais vizinho
O rapaz meteu mãos a obra e cedo se viu que tinha jeitinho
A princesa que não se importou e até gostou de assim ser esfregada
Para o belo prí­ncipe se virou e a todos gritou «estou apaixonada!»

No meio de tanta comoção, canções, festas e palmas
Os cavaleiros do prí­ncipe tomavam o castelo nas calmas
A princesa casou, o prí­ncipe tomou a coroa na mão
O rei destronado, triste e roubado foi dar banho ao cão…

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É estranho lembrar

É estranho lembrar-me assim de coisas que ainda não aconteceram.
Normalmente isto não se passa, mas de vez em quando tenho memórias ní­tidas de coisas que nunca aconteceram e que suponho sejam visões do futuro.
Não acredito em fantasias de vidência ou horóscopos, percepção extra sensorial e cartomancia. O que é facto é que sou assaltado, se bem que ocasionalmente, por estas imagens etéreas de acontecimentos que acredito serem futuros.
Não são acontecimentos particularmente importantes nem esclarecedores, são só cenas isoladas de pessoas que não conheço a fazerem coisas vulgares em sí­tios onde nunca estive. Mas vou lá estar. Não seria possí­vel a minha memória guardar recordações de coisas e lugares que não conhecerei.
Não fiz nada de especial hoje e isso irrita-me.
Passei o dia todo em branco. Fartei-me de ver televisão, o que, para mim, é a actividade mais inútil do mundo, não saí­ í  rua nem por um minuto.
Não é estranho?
Não sair, de todo, í  rua?
Nos dias em que não saio í  rua e também não faço nada de especial em casa parece-me que não existi. Como se tivesse consciência do meu próprio corpo, uma consciência maior das suas necessidades, da fome, do sono, da vontade de urinar, mas não uma consciência de mim próprio. Como não sou religioso, esotérico, cientí­fico ou coisa nenhuma, a não ser, eventualmente, céptico, não consigo explicar bem o que sinto. Como não tenho (na minha opinião), alma ou espí­rito ou self ou seja o que for, não consigo definir bem aquilo de que não tenho consciência. Por isso digo que não tenho consciência de mim próprio e acho que se percebe bem o que quero dizer.
Agora são para aí­ cinco da manhã e estou outra vez acordado, sem fazer nada.
A diferença em relação a um dia normal é que não estou a alambazar-me com comidas excessivamente gordurosas que aumentam a minha autoconsciência fí­sica, nunca fazendo nada, porém, para alimentar qualquer sensação de mim próprio.
Continuo a não existir.
No fundo é um grande incómodo, é como ter um aborrecido animal de estimação ou um aví´ muito velho, que esteja dependente de nós 24 horas por dia. Tenho que tratar do meu próprio corpo, sem compreender porquê, uma vez que não consigo jurar a pés juntos que eu de facto exista.
Parece-me que estou a ficar com sono.
Não tenho amigos. Não se trata de auto-piedade, simplesmente constato um facto: não tenho amigos.
Será que me sinto só?
Solitário?
Nesse caso, será que a solidão tem alguma responsabilidade neste meu não existir?
Às vezes ponho-me a pensar nas coisas mais estranhas e fico aborrecido porque não arranjo resposta para as minhas perguntas. Porque será que os escritores escrevem em capí­tulos? Não era preciso. É estranho pí´r capí­tulos assim nas coisas, nas histórias e nas vidas dos personagens e das famí­lias e amigos deles. E inimigos, também, í s vezes há inimigos.
Se calhar se tivesse alguém com quem conversar não passava tanto tempo a pensar nestas coisas. Mas são preocupantes, acho eu. Acho que mesmo uma pessoa rodeada de gente com quem falar provavelmente se preocuparia com esta coisa dos capí­tulos e outras coisas com que também me preocupo.
São seis e meia e detesto ver o Sol nascer.
O tempo é realmente uma coisa que não se recupera, não volta para trás e frases-cliché desse género. Mas choca-me profundamente aperceber-me de que perdi uma noite. Que ela fugiu.
Sento-me, espantado, na beira da cama e olho lá para fora para aquele elipsóide amarelado que surge lentamente no horizonte e não me parece possí­vel que a noite já tenha chegado ao fim, afinal, onde se meteu?
Vou vestir a gabardina e pí´r o chapéu que me deu a minha avó, que é capaz de estar frio a esta hora. Acho que vou dar uma volta pela cidade.
Mas se calhar não é boa ideia. Enfim, corro os meus riscos, vou mesmo…

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