Gostava de saber o que se mete na cabeça das pessoas que as faz achar que a privacidade da vida dos outros se torna alternativa quando há uma criança envolvida.
Já não bastam todas as senhoras que vêm ter connosco, no meio da rua, para nos avisar que o Tiago está com frio, ou que está desconfortável com a luz, ou que precisa de um chapéu. A presença do Tiago invalida, aparentemente, a nossa privacidade enquanto família.
Acho curioso porque quando se vê (e ainda se vê), pais a assentar estaladões nos filhos, ou mães a fazer desabar 3 ou 4 tabefes sobre a trombinha do seu rebento, ninguém se mete, ninguém diz nada, ninguém intervém.
Mas para pequenos detalhes, como o agasalho ou a protecção craniana, toda a gente tem uma opinão que deseja transmitir. Sinceramente, acho que sei vestir e proteger o meu filho; presto-lhe atenção, tento perceber se está confortável e certificar-me que não tem um casaco a menos ou a mais, não está a levar com o Sol na cara sem os seus óculos escuros e que, de uma maneira geral, tem um certo estilo e pose dignas que um Couto e Santos.
Ou por outras palavras: metam-se na vossa vida, muito obrigado.
Mas há alturas em que a situação adquire um colorido tal que honestamente me faz duvidar da sanidade colectiva deste povo.
Hoje de manhã íamos os três a caminho da escola, para deixar o Tiago quando um… chamemos-lhe “bacano”, se acercou de nós com um ar preocupadíssimo. E vai o bacano:
“Oh Sócio!” (excelente começo)
“Olhe que as crianças que andam viradas para a frente [no carrinho], ficam traumatizadas!”, exclamou. “Vire a criança para trás! Olhe que é verdade!”
Eu duvidei, honestamente, quando ele disse que as crianças que viajam em carrinhos, viradas para a frente, ficam traumatizadas. Tendo em conta que, digamos, 99% de todas as cadeirinhas de passeio para crianças com mais de um ano têm o assento virado para a frente e que o Tiago tem tudo menos aspecto de recém-nascido (os que, por vezes, viajam de facto virados para trás), duvidei…
Mas quando ele disse “Olhe que é verdade!”, reavaliei toda a minha vida. Afinal, se calhar, todos os meus problemas se cingem a um só: ando sempre virado para a frente.
A decisão ficou tomada imediatamente: a partir de amanhã, só ando virado para trás.