Depois de meses e meses a aturar uma vizinha de cima completamente histérica, que grita com o marido e grita com as filhas de manhã, í noite e de madrugada, resolvi que era altura de fazer alguma coisa.
A cena passou-se na segunda-feira passada. Depois de termos decorado a sala para o aniversário do Tiago no dia seguinte, fomo-nos deitar, perto da meia-noite. Não demorou muito para que se começasse a ouvir aquela voz que já se tornou para nós insuportável.
Ouve-se quase sempre apenas a mulher. Raras vezes ouvimos a voz do seu suposto interlocutor – ela domina amplamente, em termos de volume.
O tom foi subindo, o tempo passando e nós sem conseguir dormir. Por volta das vinte para a uma da manhã já se percebiam as palavras: “se quer dinheiro me pede, não tira da minha bolsa”, “você tá mentindo, não mente p’ra mim!”
Quase í uma, qual velhinha, peguei no meu bastão de bambu e bati repetidas vezes no tecto, sem qualquer efeito. Voltei a deitar-me, mas estava a fervilhar. Não sei como é que aquela família aguenta aquela mulher – eu já a tinha empurrado da janela do nono andar abaixo, como quem não quer a coisa.
Os gritos continuaram até passar da uma, sempre acompanhados de passos de um lado para o outro da casa, daqueles que é preciso estar a fincar os pés no chão para ecoar daquela maneira. Ocasionalmente batia uma porta ou era arrastada uma cadeira.
Qualquer coisa no meu cérebro fundiu; peguei na chave e saí porta fora. Enquanto subia a escada, a senhora gritava, ouvindo-se no prédio inteiro: “eu não tou gritando! eu não tou gritando!”.
Cheguei lá acima e bati na porta com alguma violência (justificada, parece-me). Nem dois segundos passaram sem que tivesse ouvido praticamente todos os insultos possíveis de formular usando apenas a língua portuguesa e um sotaque sul-americano. A porta nunca chegou a abrir-se e depois de me ter sido insultada a mãe e sugeridas práticas sodomitas a senhora lá se justificou: “não vê que eu estou nervosa?!”
Bom, foi isso que ela disse ou “Não vê que eu estou nervosa, seu cabrão!”, algo nessas linhas.
Ah bom! Está nervosa! Pois claro… quem sou eu para estar incomodado com a gritaria diária da senhora, das seis í s duas da manhã se ela está, evidentemente, nervosa? Que falta de respeito a minha.
Voltei para baixo sem abrir a boca. Confesso que a coisa decorreu precisamente como eu esperava. Aquela gente é ralé digna da favela e não compreendo como estão a viver num bairro residencial pacato de Almada. Só não esperava que lhe faltasse a coragem para abrir a porta.
Na altura devia ter dito qualquer coisa de volta, provavelmente, mas a verdade é nem consegui reagir. Passados alguns minutos a tipa lá se acalmou e ouvi-a abrir a janela da varanda, provavelmente para ir apanhar ar a ver se lhe passavam os nervos.
No dia seguinte as coisas estiveram calmas, mas na quarta-feira de manhã acordei novamente í s sete com aquela voz nojenta aos gritos. Termina todas as frases com um “tá?” ou um “viu?” e, pelos vistos, vive na ilusão de que não grita, apesar de se ouvir na escada toda.
Ontem foi dia de reunião de condomínio onde a Dee foi, enquanto eu dava banho ao Tiago e, ao que parece, toda a gente se queixa dos nossos vizinhos favoritos: as duas gémeas adolescentes só fazem porcaria, a sua doce mãezinha é uma besta gritadora e toda a família parece gostar de atirar lixo pela janela. E por lixo não estamos a falar de sacudir uma toalha de mesa: são mesmo sacos de lixo que são lançados pela janela.
Elegante.
Aconselharam-me, há tempos, a ir lá acima falar com a senhora, educadamente. Para não criar imediatamente conflitos, tentar resolver a coisa diplomaticamente. Já fui. Segue-se a PSP.
Pode ser que da próxima vez que grite “filho da puta”, através da porta, esteja um polícia do outro lado. Acho que os polícias gostam í brava de ser chamados nomes.
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