Há uns meses atrás, apercebi-me que, quando voltava para casa í noite, ao atravessar uma praceta, tinha que espreitar por trás de uma carrinha branca para ver se vinha algum carro. Aquilo era um bocado irritante, porque a carrinha enorme tapava completamente a visibilidade do trânsito e era preciso especial cuidado para atravessar.
De início nem reparei muito quantas vezes isto acontecia, mas depois comecei a achar estranho… a carrinha estava ali muitas vezes.
E quando reparei que a carrinha estava ali muitas vezes, comecei a reparar que isso não era verdade; a carrinha não estava ali muitas vezes: a carrinha estava ali sempre.
Mais um carro abandonado – foi o que pensei – numa área onde arranjar estacionamento é uma dor de cabeça, a menos que seja domingo í tarde e o pessoal esteja todo na praia.
Como vivemos perto do terminal de barcos e autocarros de Cacilhas, muito bom habitante da margem Sul, vem deixar os seus carros nas nossas ruas e pracetas, para ir depois apanhar o transporte para Lisboa. Claro que há parque de estacionamento, mas são pagos, portanto os gajos que chegam primeiro, afiambram-se aos lugares dos moradores que estão, eles próprios, a sair de carro para o trabalho.
O resultado são carros que ocupam lugares dos moradores durante o dia inteiro, enquanto os seus donos estão em Lisboa, a trabalhar. É praticamente impossível estacionar o carro aqui na zona, durante o dia e portanto um carro abandonado a ocupar um lugar, é um incómodo considerável. Pior ainda: esta carrinha ocupava dois lugares de estacionamento.
Uns dias depois reparei que a carrinha já lá não estava. Afinal, não estava abandonada.
Quando um gajo não tem mais nada para fazer nas idas e vindas do trabalho, entretém-se com estas idiotices. Não pensei mais no assunto.
Não pensei mais, isto é, até voltar a ver a carrinha no mesmo sítio. Desta vez pensei que este gajo tinha uma sorte do caraças, de ter voltado a encontrar o mesmo lugar.
Depois nada de carrinha. E depois, novamente carrinha.
E a coisa começou a repetir-se de forma matematicamente impossível. Até que resolvi ver que carro estava no lugar da carrinha, quando a carrinha lá não estava. Era este:

Comecei a ficar ligeiramente obcecado e, nos dias seguintes, estava sempre a carrinha no lugar do costume. Os dias passavam e eu, quando saía de manhã e voltava í noite, só queria ver se estava o VW naquele lugar. Mas tudo o que eu via era isto:

Até que, finalmente, lá estava o Volskwagen Polo, em vez da carrinha Renault.
Com o passar dos dias, verifiquei que não estava a imaginar coisas: naquele lugar de estacionamento de luxo, na nossa zona de residência onde estacionar – só por si – é um luxo, estava sempre ocupado ora por uma carrinha Renault branca, ora por um Volkswagen Polo cinzento.
Todos os dias, sem falhar, até agora. E assim continua. Passaram meses (lembro-me que ainda era Inverno, quando reparei nisto), e o chão já tem uma enorme mancha de óleo, deixada pela carrinha que já tem um aspecto um bocado usado.
Como a carrinha ocupa dois lugares de estacionamento, o seu dono, quando a substitui pelo VW, tem o cuidado de estacionar o carro atravessado o suficiente, para ter espaço para o substituir pela carrinha.
Não sei onde está um veículo, quando o outro está nesta fantástica garagem privativa ao ar live, mas sei que o gajo que anda a fazer isto, é um chico-esperto e merecia uma medalha pela sua capacidade de ser portuga até ao tutano.
Nunca vi o dono dos carros, nem nunca vi a manobra de trocar um pelo outro e confesso que já sinto alguma curiosidade…