Estive entre fazer e não fazer isto, mas desta vez decidi mesmo fazer. De entre os diversos comentários que recebo neste site, uma fatia são tão imbecis que nem os publico. Recentemente apaguei um que perguntava se, a minha mulher chamando-se Dalila, eu era o Sansão, piada originalíssima e que eu, em quase 17 anos de namoro com a Dalila nunca tinha ouvido antes.
Geralmente apago os comentários mais palermas para poupar os seus autores a vergonhas futuras. Imaginem-nos, já crescidos (porque estes comentários só podem ser de crianças), a encontrar na net algo que escreveram anos antes, envergonhadíssimos com tamanha falta de inteligência.
Mas desta vez não resisti, publiquei um comentário imbecil. Não é nada de excepcionalmente grave, mas acho que merece uma análise. Foi a respeito do meu post sobre o Chuck Norris (que faz fósforos a partir de carvalhos, usando apenas a unha do dedo mindinho), e reza assim:
“Epa so malucos é que escrevem aki. eu tanho mto pena d voces pk n fazem nd na vida.
Vao ao medico urgentemente tratar dessa estupides e malukise aguda.
Um concelho de um amigo normal.”
Ora vejamos… Primeira palavra, primeiro erro: “Epá”, como sabemos, tem um acento agudo no “a”. Poderia ainda aconselhar uma vírgula, ou, até mesmo, um ponto de exclamação após esta saudação inicial.
Segue-se a segunda palavra e o segundo erro: “só” leva, também, acento agudo. Mas não é grave… afinal, são apenas acentos e, por isso, perfeitamente dispensáveis.
Termina, a primeira frase, com a palavra “aqui”, contraída para a forma “aki”, tão popular entre os jovens que não sabem escrever, no nosso país, e resolvem esconder esse facto dizendo que “é mesmo assim” e que agora se escreve dessa forma por causa da limitação de caracteres permitidos num SMS.
Pergunto então, se a palavra se escreve “aqui”, porque não reduzi-la para “aqi”? É óbvio porquê: a letra “k” é “muito mais fixe”. Eu sei, porque também já fui adolescente.
Depois de um ponto final bem aplicado, a segunda frase começa com minúscula, o que também é um erro de ortografia, como sabemos; mas esta segunda frase é mais do que isso:
“Eu”, devia ser com maiúscula, como referi; “tanho”, suponho que seja uma tentativa de escrever a forma presente do verbo “ter”, portanto “tenho”; “mto”, que é uma contracção da palavra “muito”, quando no fundo deveria ser “muita”, portanto, “mta”; “vocês” está coxo de um acento circunflexo no “e”; “pk”, deveria, na verdade ser “pq”, a forma usual de contrair a palavra “porque”.
Mas além da ortografia esta frase tem outro engano: quem não faz nada na vida é, certamente, o pueril autor destas palavras. Andará, eventualmente, na escola secundária, a sugar o tutano aos pais, enquanto vai chumbando a português. Quando a mim, trabalho 9 a 12 horas por dia, todos os dias (geralmente, mas não sempre, exceptuando fins de semana), ao que posso adicionar cerca de 2 horas de deslocação diária em transportes públicos. Não me parece que se possa chamar a isso “nada”.
O comentário tem um segundo parágrafo e, não comentando a falta de acentos que já nem faz mossa, chegamos a uma das palavras mais importantes do texto: “estupides”. É aqui que, este peso-morto da sociedade moderna decide chamar-me estúpido, bem como, desconfio, aos restantes comentadores deste humilde site.
E é com a palavra “estupides”, que decide fazê-lo. Chama-se a isto, ironia.
A ironia continua na palavra “malukise”, em que, mesmo que quisessemos aceitar a forma débil-mental de escrever com “k” em vez de “qu”, seria necessário que, pelo menos se escrevesse “malukice”, já que a palavra não se escreve com “s”.
Quando ao “concelho” que nos é dado: ficamos sem saber qual é: Sintra? Viseu? Beja? Ou… seria um “conselho”? Sim, talvez fosse esse o objectivo deste nosso auto-entitulado “amigo normal”.