Quem me conhece sabe que já vivi várias aventuras í custa do meu intestino. Houve a vez que tive uma diarreia explosiva na casa de banho do estúdio fotográfico de um potencial cliente. Houve aquela outra em que tive que parar na estação de serviço a meio da auto-estrada para ir a uma casa de banho nojenta. E outras aventuras, algumas das quais do conhecimento apenas de um selecto grupo de pessoas. Digo só isto: ainda bem que já vendi o Fiat Punto.
Hoje foi novamente dia de sofrimento colónico.
Ontem resolvi assar umas magníficas castanhas que a minha mãe me deu, vindas da minha avó e que, ao que constava, eram uma maravilha. Recebi um aviso sábio da minha mulher: amanhã vais estar cheio de dores de barriga e tens que ir trabalhar.
Tudo bem – pensei eu – como só algumas. Decidi então fazer 24 castanhas, precisamente 12 para cada um. Mas como adoro castanhas – e aquelas tinham um fantástico aspecto – optei por 30 castanhas, 15 para cada um.
Por problemas recentes com os dentes e as gengivas, a Dee não conseguiu comer muitas castanhas, pelo que eu pensei… 15, 16… 18, qual é a diferença? Não são muitas.
Mas castanhas não são precisas muitas.
Hoje, saí para almoçar com os meus amigos Gustavo e Fernando. O Gustavo precisava de comprar uma coisa na Worten, pelo que nos metemos no Golf do Fernando e fomos até ao Vasco da Gama. Fomos, comemos um bife na Portugália, o Gustavo comprou o que tinha a comprar. Até aqui tudo bem.
Tudo óptimo enquanto ainda estava dentro de um raio aceitável de uma casa de banho pública. Foi apenas quando o carro deixou o parque de estacionamento subterrâneo que a dor me atingiu. Tentei levar a coisa nas calmas, fiz uns comentários sobre gases e soltei uma amostra para por toda a gente í vontade com a possibilidade real de eu me borrar todo a meio do caminho.
Num carro com três homens, um peido é motivo de grande diversão e esta chegou para me descontraír, pelo menos durante a passagem por Chelas. Quando chegámos í Alemeda, comecei a ver a luz ao fundo do túnel, mas já era tarde.
Apesar de pertíssimo do nosso destino, em Picoas, o meu intestino não ia dar-me tréguas. A dor aumentou significativamente e comecei a sentir que não ia conseguir controlar o esfíncter que controlo há mais de 30 anos.
Os meu amigos, como bons amigalhaços que são, aproveitavam para gozar comigo í grande e í francesa. E eu só lhes pedia que se calassem. Mas claro… não se calaram. Eu teria feito o mesmo.
Ao passar o Técnico, fez-se luz na minha alma torturada: um restaurante!
Comecei a gritar com o Fernando para que parasse o carro e ele, sem perceber bem o que é que eu ia fazer quando ele parasse, lá encostou. Saí a correr para o tal restaurante que, reparei quando entrei, era uma espelunca minúscula e suja. Numa parede dizia “WC” e, por baixo, tinha um lavatório. Pensei que estava acabado… o WC ali era simplesmente um lavatório e eu ia borrar-me pelas pernas abaixo.
Perguntei ao velhote atrás do balcão, já com pouca esperança, se tinha casa de banho… ao que ele me disse que sim, era lá em cima. O meu mundo ressuscitou! “Mas vai lá aquele senhor”, acrescentou o velhote.
Olhei, horrorizado, enquanto um septuagenário subia lentamente a estreita escada de caracol que levava í minha salvação. O que fazer? Vou atrás dele… espero, só mais uns segundos!
Subi, atrás do homem que se arrastava pelos degraus e lá em cima recuperei a esperança: havia duas casas de banho: homens e mulheres. Entrei rapidamente na das mulheres, acendi a luz, baixei as calças e… Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaleluia! Só quem nunca passou por isto é que não compreende o alívio que é. Independentemente do aspecto ranhoso da espelunca, independentemente do chão da casa de banho molhado com uma substância mais ou menos gelificada, apesar de ter dois colegas de trabalho no carro, lá fora, a pensar que eu não bato bem da cabeça, senti-me como se estivesse no paraíso.
Foi então que percebi que não havia papel higiénico.